Criou emprego para quase duas mil pessoas. Hoje o que resta do complexo transmontano é pouco mais do que lixo
É raro quem em Trás-os-Montes não saiba onde fica a aldeia do Cachão. Não pelo que é, mas pelo que já foi. A pacata aldeia pertence a Frechas e dista 10 quilómetros da capital do concelho, Mirandela. Hoje são cerca de 250 as pessoas que lá residem, mas já foram bem mais de 1000, nos tempos em que o Cachão era também sinónimo de emprego. Hoje ali restam memórias, sombras e edifícios-fantasma.
Foi na década de 60 que surgiu o Complexo Agroindustrial do Cachão (CAIC), na altura União dos Grémios de Lavoura do Nordeste Transmontano, pelas mãos de Camilo Mendonça (1921-1984), engenheiro agrónomo, político e dirigente cooperativo que, com o apoio de Salazar, construiu a infraestrutura. Toda a região acabou ligada ao Cachão, ou seja, tudo o que se produzia em Trás-os-Montes podia ser entregue no CAIC, onde era transformado, seguindo depois para os circuitos comerciais de Portugal, do resto da Europa, chegando até aos Estados Unidos da América. Os cerca de seis hectares do complexo albergavam ainda outros edifícios que, por sua vez, empregaram mais de 1400 pessoas vindas não só da região mas também de outros distritos do País.
A BUZINA
O INÍCIO DO FIM
Em 1993, as autarquias de Mirandela e Vila Flor tomaram conta da administração do complexo, que passou a ser Agroindustrial do Cachão (AIN) e desde essa data aluga ou vende os armazéns a quem lá se quiser instalar.
Quem hoje chega encontra uma aldeia parada no tempo. A estação do comboio encerrou, as casas do bairro social foram vendidas e modificadas e no café alguns enganam o tempo e são poucos os trabalhadores oriundos do complexo. Lá dentro, há edifícios destruídos, janelas partidas, sinais de abandono, placas comidas pelo sol mas onde ainda se podem ler os nomes das empresas que ali estiveram sediadas.
O complexo alberga agora cerca de dez empresas – lagar de azeite, matadouro, fábrica de castanhas e outra de lãs, armazéns da Mirapapel, associação de produtores de mel e o Laboratório Regional de Trás-os-Montes. Emprega cerca de 100 pessoas. Cheira a azeitona, devido ao lagar, a feno e animais, por causa do matadouro, e ao lixo espalhado pelo complexo, depois de dois incêndios: o primeiro, em 2013, numa fábrica que servia de armazém à Mirapapel, onde se armazenavam toneladas de fardos de plástico para reciclar. Em fevereiro, o episódio repetiu-se. "Em 2013 prometeram que iam tirar daqui o lixo e nada. É um cheiro que não se pode abrir uma janela, para não falar dos bichos que saem de lá", conta Teresa Teixeira.
Numa das redes que envolvem o complexo pode ler-se numa faixa: "Tirem-me o lixo daqui." "O dono da empresa não tem capacidade para fazer a retirada de forma rápida e, por isso, deverá ter o apoio das autarquias", explica António Morgado, da administração do AIN. Morgado gostava que o Cachão voltasse a ter vida. "Estamos abertos a propostas, temos espaço para a instalação de empresas, desde que não poluentes. Podíamos receber uma fábrica de alheiras ou algo virado para as novas tecnologias, por exemplo", afirma.
Enquanto nada acontece, restam as memórias: os namoricos que deram casamentos, os empregos e as empresas que trouxeram prosperidade e as noites de convívio. E o som da buzina, quando passa a procissão.
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