Nada podia soar a indiferença: a percussão do piano – de um ex-aluno de nota 20 no Conservatório Nacional – exala o clássico até se ligar ao computador e a cada nota pisada pelos dedos atribuir-se-lhe um som electrónico. Uma descrição musical de ressonância sonora do seu peculiar piano munido de sensores.
Simão Costa é um compositor electroacústico. Mistura a acústica instrumental com sons captados e transformados – ou criados – por computador (o outro instrumento).
“Qualquer pessoa que ligue o rádio não tem acesso a música electroacústica”, avisa o compositor, de 28 anos. É uma abordagem ao som – e à musicalidade – em que as pessoas se podem sentar numa sala de espectáculos, fechar os olhos, e ser induzidas pelo poder sugestivo da música a projectar no seu imaginário representações quase cinematográficas.
Na peça ‘Oamis_tel’ – criada durante a residência no Laboratório Electroacústico de Criação (LEC), da Miso Music Portugal –, Simão Costa projecta sons de um “telefone articulado com um piano, onde há passos e vozes (quase alienígenas) de pessoas transtornadas com alguma situação”.
Noutro exemplo, o projecto ‘Alto & Falante’, onde o objectivo é interagir com crianças, o jovem compositor pretende potenciar o imaginário infantil. Num dos espectáculos, alunos da Casa Pia de Lisboa, Fundação O Século e o Externato o Cantinho experimentaram falar ao microfone e ouvir a projecção da sua voz distorcida, transformada em sons animalesco, ou saída de dentro de uma caverna. E é vê-las rir surpreendidas. Os braços dos miúdos rodam e projectam sons em círculo. Os objectos que podem segurar com as mãos emitem sons que perseguem o campo visual. Fica no ar a pergunta inocente: “és mágico?” Simão só não explica às crianças que é o resultado da fusão entre a arte, a ciência e a tecnologia, porque talvez não fosse entendido. É um espectáculo mágico. Isso sim.
“Tenho uma sensação de hiperactividade de compositores e da qualidade dos trabalhos dos portugueses”, afirma. Acredita por isso que “não há nenhum atraso visível nesta área, em relação a qualquer ponto do Mundo”. Até mesmo porque, recentemente, Simão e João Pedro Oliveira (professor na Universidade de Aveiro) arrecadaram um prémio, numa de cinco categorias, no Concurso Internacional de Bourges, em França.
INVENÇÃO NO LABORATÓRIO ELECTROACÚSTICO DE CRIAÇÃO
Ricardo Guerreiro, de 31 anos, é o residente do LEC que durante Julho e Agosto ocupa aquelas instalações. Está a criar e era suposto que se inspirasse numa cantiga que gravou em Veneza. Só que o trabalho criativo implica, muitas vezes, guardar peças soltas para o futuro recuperar. Decidiu experimentar o improviso. A sala é pequena mas dotada de tecnologia. As mãos do compositor mergulham num controlador midi (que representa tudo o que ele quiser) onde nascem os sons – e a ligação ao computador junta-os aos algoritmos para gravar fragmentos que, no final do trabalho, formarão uma espécie de partitura para música electrónica.
O mercado funciona por nichos difíceis de aceder, considera o compositor. Talvez por isso ainda não se tenha decidido sobre o formato como irá apresentar este último trabalho. Concertos onde o improviso é uma peça forte? Se calhar, uma instalação: pôr a tocar um CD em escolha aleatória ou em loop enquanto se projectam vídeos...
MISTURA COM SONS ELECTRÓNICOS
Para Ricardo os sons vão ser maioritariamente produzidos electronicamente; já Filipe Lopes – tal como Simão – mistura a sonoridade de instrumentos clássicos, ou dos estridentes do Rock, com os sons electrónicos. “Até hoje não repeti nenhum instrumento e qualquer um me agrada”, diz. Já compôs para electrónica e clarinete; electrónica e guitarra eléctrica; electrónica e flauta de bisel; e até para electrónica (três computadores) e quatro instrumentos, baixo eléctrico, saxofone alto, guitarra eléctrica e bateria.
Filk (como também é conhecido) inicia o seu processo criativo com a experimentação de sons, na procura de instrumentos a usar. Depois avança o trabalho de programação, porque é na mistura da componente instrumental e electrónica que nasce este género musical. O músico portuense tem como inspiração, por exemplo, a música que ouve. Agora, Duoon de Alva Noto com Ryuichi Sakamoto. O que não é nada limitativo porque Filipe navega entre Miles Davis, Radiohead, ou Bernardo Sasseti, e as composições de Steve Reich, Messiaen, Stravinsky, ou Luís Tinoco.
Durante a sua residência no LEC propôs-se a compor uma peça “que, embora sendo sempre a mesma, pudesse ser tocada de formas diferentes”. É este o trabalho que ainda o ocupa e só uma coisa o preocupa: “tanto a música contemporânea como a electrónica estão ainda num nível de baixo consumo”.
O mais jovem compositor que consta no Centro de Informação da Música Portuguesa, Jaime Reis, de 23 anos, considera que o mercado profissional depende do que procuram os criadores. Podem compor, por exemplo, para instalações, sound design, concertos, dedicar-se ao ensino, difusão e técnica de som ou colaborar na investigação.
Foi premiado como um dos melhores alunos da Universidade de Aveiro, tendo recebido três bolsas de mérito. Apesar de ter uma explicação complexa, a harmonia da sua música eleva uma performance com texturas e timbres que transmitem uma noção de intemporalidade. ‘Sinais no Tempo’ – a peça criada no LEC –, para guitarra e música electrónica, tem transformações dos sons da guitarra condicionadas pelos elementos musicais imediatamente antecedentes pressupondo alterações detalhadas, momento a momento, criando transformações subtis mas bastante perceptíveis. Também já escreveu várias peças para orquestra e outros grupos instrumentais, o que prova que a música electroacústica tem tanto de futurista como se alimenta das raízes eruditas.
LABORATÓRIO DE COMPOSITORES
“Estar em residência aqui no LEC [Laboratório Electroacústico de Criação] é potenciar a divulgação do seu próprio trabalho”, afirma Miguel Azguime, fundador da Miso Music Portugal, juntamente com Paula de Castro Guimarães. Ou seja, durante dois meses consecutivos, os jovens compositores – acabados de formar – encontram neste estúdio o equipamento necessário para criarem um trabalho de composição electroacústica. Mais tarde, estes trabalhos poderão ser divulgados no âmbito da temporada da Miso Music e no festival anual Música Viva. Além de que se podem estabelecer contactos internacionais. “O LEC surge como uma constatação de que em Portugal não havia estúdios – ao contrário do resto da Europa onde se criaram estúdios desde os anos 40”, reflecte Miguel Azguime.
FILIPE LOPES
IDADE: 26 anos
PROFISSÃO: Compositor, maestro
Tem Influências da música minimal, jazz, gamelão e de música orquestral. A sua eleição de instrumentos musicais passa, em primeiro lugar, pelo computador, depois pelo trompete e pela guitarra eléctrica. Filipe frequentou o curso de Composição, da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, no Porto.
JAIME REIS
IDADE: 23 anos
PROFISSÃO: Compositor, director artístico
No seu caso pessoal, o rendimento de trabalho vem de várias fontes, permitindo-lhe escolher o seu modo de vida dedicado à composição, ensino, investigação, direcção artística de um festival de música electroacústica. Aos 12 anos, Jaime começa a compor música electroacústica, enquanto estudava no Conservatório de Música de Seia. Muda-se para o Conservatório de Viseu, já com 16 anos, para estudar esta área musical. Licenciou-se em Ensino da Música, na universidade de Aveiro, tendo sido premiado como um dos melhores alunos.
RICARDO GUERREIRO
IDADE: 31 anos
PROFISSÃO: Compositor, foi professor na Ar.Co
“Para já é difícil ser compositor em Portugal e de música electrónica é ainda mais complicado”, atesta Ricardo Guerreiro. Tirou o curso superior de Composição, pela Escola Superior de Música de Lisboa (2000) e formou-se em Música Electrónica, pelo Conservatório Benedetto Marcello (2004) de Veneza, Itália. Estudou guitarra e agora é residente no LEC (Laboratório Electroacústico de Criação) da Miso Music Portugal.
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