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NÃO ESTOU AQUI PARA VENDER SONHOS

O fenómeno Maya não pára de crescer. Esta mulher está há 12 anos a dar cartas no mundo das ciências isotéricas e conseguiu construir um império rentável, onde não faltam livros, consultas a 90 euros e uma presença regular no ‘SIC 10 Horas’. Tudo para ‘ajudar’ os outros.

22 de novembro de 2002 às 12:15

Nesta sala, só as cartas em cima da mesa é que revelam a sua profissão. Pensei que ia encontrar vários objectos esotéricos, como uma bola de cristal ou incenso...

Maya (M): Eu não gosto nada desses adereços. Acho-os folclóricos e por isso não os utilizo.

O que a levou a estudar Cartomancia. Foi para se conhecer melhor?

M: Ao contrário da Astrologia, o Tarot não permite o auto conhecimento. O Tarot é uma forma de lidar com os factos da vida e não uma maneira de lidar consigo próprio. À medida que fui aprendendo mais, interessei-me pelo conceito e por toda a estrutura do tarot. Ainda hoje me falta aprender muito, e se me perguntar quem é que inventou o Tarot não lhe sei responder.

Numa entrevista recente, disse que pode ter sido Deus...

M: E é verdade. Deve ter sido Deus porque o tarot é tão perfeito e tão bem construído que pode ser lido em todas as partes do mundo. É por estas razões que eu não concordo que na mesma consulta, se deite cartas, se leia as mãos, se deite búzios ou se faça Astrologia. Porque o Tarot é completo. Permite analisar todas as vertentes da vida da pessoa.

Isso leva-nos à conversa inicial. Dá para perceber que não é amiga desses ‘folclores’.

M: Não gosto dessas misturas todas. Nem dos consultórios cheios de incenso, ou de espanta-espíritos. E já reparou na forma como algumas pessoas se vestem? Se é para nos convencerem que têm poderes especiais, estão a enganar-nos. Porque ninguém tem poderes. Todos nós somos dotados de capacidades intuitivas, até os animais. Agora, há pessoas que têm mais sensibilidade e são mais receptivas às energias e outras menos.

E quando é que descobriu que era mais sensível às energias?

M: Em pequena, porque assim que entrava em determinados sítios podia ficar bem ou mal disposta. Hoje, tenho um instrumento de trabalho – as cartas – que me revelam as coisas sem eu ter de me esforçar.

É um trabalho de alta responsabilidade. Tem noção de que pode condicionar a vida das pessoas?

M: Não encaro o Tarot dessa maneira. Na minha opinião, as cartas libertam as pessoas porque lhes trazem alguma lucidez. O diálogo que eu tenho com as pessoas que me procuram é para elucidá-las e torná-las mais conscientes. A partir daí, podem gerir melhor a sua vida. Não acho que seja condicionador porque ninguém vai deixar de pensar pela sua cabeça. Agora, há situações em que as pessoas são manipuladas.

“Ajoelhou, vai ter que rezar”

Durante a consulta pode-se “falar” com as cartas?

M: Pode perguntar o que quiser às cartas, mas não numa primeira fase. Em primeiro lugar, as pessoas que se deslocam até ao meu consultório querem receber indicações, por isso sou eu que falo primeiro. Para dar início à leitura das cartas só preciso de saber o nome dessa pessoa, a data de nascimento, o estado civil, o número dos filhos (com as respectivas datas de nascimento) e por fim a profissão. A partir daí, concentro-me, baralho as minhas cartas e faço uma leitura daquele instrumento que tenho à minha frente, e que se chama Grande Roda de Tarot.

Quando as cartas lhe revelam más notícias, como é que lida com a situação?

M: Tento comunicá-las de uma forma mais delicada. Mas há pessoas que antes de começar a consulta dizem-me logo: “Não me dê más notícias”. Nessa altura respondo: “Amiga/o, ajoelhou agora vai ter de rezar!”. Eu não posso condicionar as minhas cartas e tenho de as respeitar. Não estou aqui para vender sonhos.

De que modo as ciências esotéricas podem influenciar a nossa vida?

M: O Tarot não influencia, permite traçar um caminho mais harmonioso. Mas eu penso que essas ciências podem ajudar as pessoas a libertarem-se daquilo que é supérfluo, ou como eu costumo chamar do “lixo emocional”. A verdade é que temos de começar a aprender a avaliar melhor as situações e a “deitar fora” aquilo que não interessa. Mas nos dias que correm, as pessoas vivem numa luta constante.

E por isso se viram, cada vez mais, para as ciências esotéricas?

M: As pessoas andam à procura de alguém que lhes resolva os problemas. Quando já não sabem o que fazer, pagam fortunas para serem ajudadas. Claro que nada disso se passa no meu consultório, mas conheço muitas histórias de indivíduos que se deixaram enganar. Uma boa orientação sim, agora pedir dois mil euros para resolver um problema é enganar as pessoas. E hoje em dia o que não falta é oferta...

O seu trabalho não sai prejudicado com a nova “vaga” de excêntricos que assaltou a televisão?

M: Não, porque pertencemos a áreas distintas. Só que as pessoas tendem a “meter tudo no mesmo saco”. E até com uma certa razão. Basta abrir o jornal para ver que há pessoas que se intitulam videntes e que se dizem também astrólogos, para chamar a atenção. Temos de separar as coisas: as artes isotéricas têm como objectivo a orientação e o desenvolvimento pessoal. É o caso da Astrologia, do Tarot ou dos búzios. Na área das medicinas populares encontramos esses curandeiros ou feiticeiros. Finalmente, temos as medicinas alternativas onde se incluem o ‘shiatsu’ e a acupunctura, entre outras. É por isso que reafirmo que aquelas pessoas que vão à SIC não me prejudicam nada. Mas incomodam-me.

O que leva as pessoas a recorrer ao seu consultório. O que é que procuram?

M: Procuram uma orientação. Há pessoas que precisam de me ouvir falar para depois darem um rumo à vida. Normalmente querem informações sobre a vida profissional, pessoal e financeira. Mas eu faço sempre uma análise global.

E quanto é que custa essa ‘orientação’?

M: As minhas consultas custam 90 euros. Por isso, as pessoas que recorrem ao meu consultório pertencem maioritariamente à classe A e B. As que me escrevem cartas a pedir ajuda já fazem parte da classe C. É por isso que eu digo que sou transversal, porque consigo chegar a todos os ‘targets’. O curioso é que a forma de abordar os problemas até pode ser diferente, mas as pessoas desejam todas o mesmo.

Perante tais números, não admira que o oculto seja um chamariz para “burlões”?

M: Há indivíduos que ganham verdadeiras fortunas. Mas não se pode generalizar porque os métodos que essas pessoas utilizam são muito duvidosos.

Costuma ter “feedback” das pessoas que a procuram?

M: Nem todas as pessoas que aqui chegam regressam para uma nova consulta. E é por isso que digo que não tenho reclamações. Acabo por ficar sem saber as razões que os levaram a não voltar.

Qual a sua relação com as ciências isotéricas? É viciada?

M: Nada disso. Como sou do signo Escorpião tenho uma personalidade muito vincada e quase sempre sei aquilo que quero. Mas quando tenho algumas dúvidas consulto os meus assistentes e eles lançam-me as cartas. Também tenho um astrólogo a quem recorro sempre que preciso.

Já deve ter perdido a conta às pessoas que passaram por aqui. Ao fim de tantos anos, as cartas ainda a podem surpreender?

M: Claro. O Tarot é um prazer do qual não quero abdicar. Acho que ainda tenho muito para dar.

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