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O Brasil em Portugal

Vieram de visita e foram ficando. As histórias de músicos e atores que atravessaram o Atlântico

04 de dezembro de 2016 às 15:00

Eram caras conhecidas e até consagradas no seu país de origem, o Brasil, mas apesar disso vieram para Portugal. Bruno Cabrerizo, Pedro Cardoso, Graziella Moretto, Adriana Lua ou Pierre Aderne fizeram o percurso inverso ao que muitos dos seus congéneres portugueses gostariam de fazer. Por cá, encontraram um mercado de trabalho mais pequeno mas igualmente interessante e desafiador e, acima de tudo, um país "onde é melhor viver".

"Sou muito feliz aqui", faz questão de frisar logo em início de conversa Bruno Cabrerizo, o ator de nacionalidade brasileira que conquistou o coração dos portugueses quando se juntou ao elenco da novela ‘A Única Mulher’.

"Vim para ficar apenas por oito meses e já estou cá há dois anos!", surpreende-se. "Aqui posso unir o útil ao agradável. Tenho trabalho e qualidade de vida, num país que me recebeu de braços abertos", justifica.

Bruno sabe bem do que é que fala. Nascido no Brasil há 37 anos, o ator já correu o Mundo. Além de ter morado no Rio de Janeiro, também passou pelo Japão (onde jogava futebol), Itália e agora, finalmente, Portugal. "Aqui foi onde encontrei a melhor qualidade de vida. Falo de segurança, clima, culinária, língua, cultura, recetividade e obviamente tudo isso com a possibilidade de ter o mar na minha frente. É importante lembrar que sou carioca e cresci na praia, portanto esse aspeto pesa muito na minha decisão!", confessa.

Ninguém pode prever o futuro mas, para já, os planos são para ficar. "Tem uma música de um sambista muito famoso que diz: ‘Deixa a vida me levar, vida leva eu, sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu’. Esse é o meu lema de vida."

Em termos profissionais, era importante para Bruno Cabrerizo viver num país onde pudesse falar a sua língua, mas sem sair da Europa e onde pudesse também crescer profissionalmente. Dois anos depois de desfazer as malas, afirma que conseguiu concretizar essas expectativas. "Em Itália, onde vivia antes, era ator de cinema mas senti a necessidade de trabalhar na minha língua-mãe, para poder progredir mais. Então enviei algum material à minha atual agência em Portugal e após um ano surgiu o casting para fazer o Santiago de ‘A Única Mulher’. Eu costumo dizer que foi assim que descobri o Paraíso na terra e, claro, decidi criar raízes."

Por cá, sente que o intercâmbio funciona muito bem. "Cada país tem uma ‘escola’, um método, uma linha que segue e forma os próprios atores. Atualmente, já tenho a aprendizagem de duas ‘escolas’ e posso dizer que aprendi muito de ambos os lados. E não quero parar por aqui, pretendo continuar a aprender sempre, e quem sabe dessa vez o meu destino será o meu país de origem."

O facto de haver muito menos trabalho para atores em Portugal do que no Brasil (ou mesmo em Itália) não o demove: "Independentemente de o mercado português ser pequeno, a concorrência é muito grande, exatamente como é no mercado italiano e brasileiro, por isso, as compensações só existem quando você consegue ‘vencer’ e chegar no topo dessa cadeia para firmar o teu próprio nome no mercado."

No caso de Pedro Cardoso e Graziella Moretto foi a possibilidade de uma nova dinâmica familiar que os seduziu. Mas a mudança foi de peso e incluiu toda a família.

Pedro tinha uma reputada e longa carreira (mais de 30 anos) na rede Globo como ator. Foi lá que inclusivamente foi nomeado para o Emmy Internacional de Melhor Ator pela sua interpretação em ‘A Grande Família’. No entanto, após o fim das filmagens, corria o ano de 2014, decidiu não renovar contrato com a maior fábrica de telenovelas do Mundo para poder mudar de vida.

VIDA FAMILIAR

"Só faltava trazer os miúdos e inscrevê-los na escola. Achávamos que para as nossas filhas era importante ter uma experiência de educação internacional. No Brasil, por exemplo, não há a escola a tempo inteiro, como em Portugal. Aqui, além dessa integração dos currículos, eles têm ainda a possibilidade de estar na Europa, o que em termos educacionais lhes oferece outras possibilidades", explica, por seu turno, Graziella.

O casal vive agora no Estoril, e o que encontrou por cá foi uma realidade social bastante diferente daquela que conhecia no Brasil e que inclusivamente serviu até para beber inspiração para a peça que atualmente tem em cena no Teatro da Luz, em Carnide, intitulada ‘O Homem Primitivo’. "No Brasil, as famílias são de três elementos: o pai, a mãe e a empregada doméstica. Quando a empregada doméstica não está, tudo se desmorona. Aqui em Portugal, a empregada não está dentro de casa, entre o casal. Há a mulher a dias, mas é o próprio casal que tem de assumir a maioria das tarefas. Falamos muito disso na peça, através de um casal, por exemplo, em que o marido deixa de querer ter filhos quando sabe que a empregada vai embora. É uma peça que fala da desigualdade do género e que é uma realidade ainda universal."

Em Portugal, encontraram acima de tudo um país mais "seguro e tranquilo", uma democracia mais "eficiente, organizada e representativa", bem diferente do Brasil, que na opinião dos atores "cada vez mais se encaminha para o fascismo".

Além disso, também um mercado de trabalho diferente, mais pequeno, mas "igualmente interessante de explorar": "Aqui há menos teatros, mas em contrapartida há uma cultura de teatro mais consistente do que no Brasil. As pessoas que em Portugal vêm ao teatro são muito interessadas e conhecedoras. O teatro é acessível a todos, enquanto no Brasil é apenas para uma pequena minoria que tem poses e uma certa formação", lembra, por seu turno, Graziella.

"E tendo em conta que o teatro é sempre uma construção do momento, com o público, aqui tem corrido muito bem", revela Pedro, que já fez diversos projetos em palcos portugueses da sua própria autoria.

A estreia do ex-ator da Globo em Portugal, aliás, aconteceu com ‘O Autofalante’, em cena em 2007 e 2008, seguiu-se depois ‘O Fantasma do Chico Morto’, da sua autoria e produzida com o Teatro A Barraca. A "construção positiva dessa ponte cultural" é para continuar, garante Graziella.

A LUSOFONIA

Há cinco anos veio realizar o documentário ‘Música Portuguesa Brasileira’ e desde então nunca mais voltou. "Achei sempre interessante este cruzamento da música portuguesa, da música lusófona, com o fado e a música tradicional, do Mundo, e eu próprio quis explorar essa manta de retalhos", explica.

Veio então morar para o Poço dos Negros, onde aconteceram muitas tertúlias musicais que deram vida ao tal documentário. Agora mora na rua das Pretas e está rendido a Lisboa.

"O Tejo, as ruas, as colinas, as pessoas. É interessante viver num país onde existe uma maior aproximação entre classes sociais. Aqui, patrão e empregado podem frequentar o mesmo ginásio fora do local de trabalho ou até o mesmo bar. No Brasil, isso de certeza não acontece." E tudo isso é muito importante para o fazer mais feliz por cá.

Por outro lado, Lisboa é, para Pierre Aderne, perto de tudo. "Em duas horas estou em Paris ou Londres. Nova Iorque está a oito ou nove, e o Brasil também não está assim tão longe. Como trabalho também para um público internacional, estar em Lisboa é quase como estar no centro do Mundo", conclui.

FOI O AMOR

"Conheci o meu marido em São Salvador da Baía. Na altura, ele assistiu a uma atuação minha e ficou com vontade de me conhecer... então apresentou-se como um agente português só para poder vir jantar comigo. Bom… não era agente nenhum, mas mesmo assim valeu a pena pois foi o início da nossa história de amor e da nossa família", recorda.

A primeira filha do casal, de 11 anos, já nasceu em Portugal e a família está completamente adaptada. A caminho está o segundo filho.

"Não gosto de fazer comparações entre o público brasileiro e o português, porque obviamente são diferentes, mas a verdade é que as pessoas aqui aderiram muito bem à minha música. Mesmo quando vou lá fora, me surpreendo, porque o meu público na Suíça ou em França não é o emigrante brasileiro mas sim o emigrante português. Na realidade, acho que as pessoas já me veem como portuguesa." De Alcântara, mais concretamente. No bairro onde vive, gosta de passear, de conversar com as pessoas. "Posso andar na rua descansada, há segurança. Quando se tem filhos aprende-se a dar valor a isso", diz sobre este seu cantinho à beira-mar plantado.

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