Um americano multimilionário luta há dez anos contra seitas religiosas. A longa cruzada começou com o desaparecimento da mulher e já lhe custou vários milhões de dólares, o litígio com a família, além de sucessivas ameaças de morte. Devoto de Fátima, foi na cidade portuguesa que criou uma fundação de combate ao fenómeno.
Ao fim de várias tentativas para resgatar a mulher de uma seita, numa luta que lhe rouba “sete dias por semana e 24 horas por dia”, Phillip James Kronzer, um californiano multimilionário, sente-se cansado, mas não desarmado de uma saga que ele classifica de “David contra Golias”. A guerra aberta ao culto a Medjugorje, um fenómeno religioso que tem movido multidões em todo o mundo, rumo à Bósnia-Herzegovina, tem-lhe valido dezenas de processos nos tribunais, inclusive nos portugueses. Fátima, por ser reconhecida pelo Vaticano como lugar sagrado, serve de sede à ‘Kronzer Foundation for Religious Research’ –a funcionar em paralelo com a de Los Gatos, na Califórnia –, criada por ele para investigar e combater este género de venerações, que se autoproclamam de milagrosas.
A cruzada deste americano de 70 anos começou após um fim-de-semana tranquilo de golfe com os filhos e os netos. Dois dias que coincidiram com um retiro da mulher, a convite do líder de uma organização religiosa descendente das aparições de Medjugorje. Ao regressar a casa, Kronzer deveria ter a mulher à sua espera. Mas, ao contrário, deparou-se com os roupeiros vazios e com uma carta: “Não podemos continuar juntos. Tenho de seguir a minha vida espiritual. Não voltes a contactar-me.” E acrescentava: “Mas amo-te e nunca me divorciarei de ti porque somos católicos.”
Phillip J. Kronzer, que construiu a fortuna com o pai na década de 50, em empresas de tornos mecânicos, material informático e, mais tarde, no ramo imobiliário, sentiu-se enganado. Sempre tinha considerado a devoção da mulher “exagerada”, mas chegou a financiar várias actividades dos MIR Center, criados pelos fanáticos de Medjugorje, além de vídeos e livros sobre o culto. O industrial da Califórnia percebeu que “foi tudo uma questão de dinheiro.”
Antes deste episódio, Kronzer só pensava em reformar-se para gozar a velhice em paz. Mas enganou-se. A partir daí, estoirou a maior guerra da sua vida. Esteve três anos sem saber do paradeiro da mulher até que contratou uma equipa especializada para o ajudar. “Quando comecei a investigar, descobri, através de alguns sacerdotes de Los Gatos (a zona onde reside na Califórnia), que o líder da seita tinha pedido uma lista das pessoas mais ricas das paróquias e que mais contribuíam para a Igreja. Éramos os alvos deles e a minha família estava obviamente incluída. Depois, constatei que outras pessoas estavam a ser lesadas”, conta.
Um ano mais tarde, localizaram, finalmente, a comunidade religiosa onde se escondia Ardath Talley, a mulher com quem Kronzer foi casado 39 anos. A tentativa de resgate foi feita com um helicóptero, com a ajuda de um veterano do Vietname e uma equipa de médicos. Só que tudo não passou de uma falsa esperança. “Percebi que eles eram demasiado poderosos. Alguém os tinha avisado das minhas intenções e impediram que aterrasse na propriedade. Em vez de salvar a minha mulher, obtive uma sentença do tribunal que me proíbe de me aproximar dela por 30 anos.”
Apesar do incidente, a seita exigiu-me 80 mil dólares para patrocinar uma viagem da comunidade à Terra Santa: “Decidi que era hora de pôr fim nisto. Já lhes tinha cedido depósitos de vários milhares de dólares e estavam a falir as minhas empresas, das quais a minha mulher ainda era sócia. A seguir, ela pediu-me o divórcio e ficou-me com metade da fortuna.” Pouco tempo depois, a mulher vendeu, através dos tribunais, duas casas na Califórnia, que lhes rendeu quase cinco milhões de dólares. “O dinheiro – garante – estava destinado para seitas.”
O HOMEM DOS TRIBUNAIS
Numa fase de desnorteio, o lugar mais sagrado de Portugal surgiu-lhe como “uma luz ao fundo do túnel.” “Quando a minha mulher desapareceu sentia-me desesperado e fui aconselhado por uma idosa, amiga da família, a fazer um retiro em Fátima. Já tinha vindo cá com a minha mulher, mas agora regressava numa situação de fraqueza.” Durante dez dias, Kronzer procurou sinais e explicações espirituais para o desaparecimento da companheira: “Disse à Virgem Maria ‘Se isto é de Deus, dê-me a graça para o aceitar. Mas se não é, dê--me a força para o destruir.”
Rodeado de um grupo de amigos, o multimilionário regressa muitas vezes à residência e sede da Fundação Kronzer, em Fátima, também conhecida por ‘Casa de S. Miguel’. Imagens de Nossa Senhora decoram as várias divisões da moradia, munida de uma pequena capela privada. As imagens sacras da habitação portuguesa contrastam com um cartaz sugestivo afixado no escritório da Califórnia, onde aparece a figura de um pelicano com uma rã no bico. A presa tem as mãos esticadas a apertar o pescoço ao predador. Em cima, está escrito: ‘Nunca desistas’. A frase que tem sido o lema da vida de Kronzer, desde 1994, ano em que a mulher desapareceu.
Há alguns dias, o americano voltou, mais uma vez, a Portugal para estar presente a tribunal num caso que, tal como muitos outros, se encontra em segredo de justiça. “A minha vida é isto. Passo horas nos aviões, gasto fortunas para tentar ajudar pessoas que estão na mesma situação. Nunca paro”, queixa-se.
Impedido de mencionar nomes, uma vez que correm mais de 20 processos nos tribunais de Inglaterra, Portugal e Estados Unidos, o americano tornou-se um alvo a abater. Quanto mais investigava, mais percebia que a força do “inimigo” era maior do que imaginava: “A seita tem muito poder. Envolve congressistas e outras figuras públicas que estão ligadas aos centros de Medjugorje e que os usam para lavagem de dinheiro. Como resultado de uma investigação e denúncia minhas, os OHR (Officer of Higher Representation), ao serviço do governo americano, conseguiram comprovar que havia lavagem de dinheiro no Herzagavaka Banka. Foi uma operação em grande, que envolveu tanques de guerra. Nunca ninguém soube quem foi o autor da acusação.”
As ameaças de morte e as tentativas de envolver o seu nome à al-Qaeda têm sido constantes, enviando para a Califórnia e Inglaterra – recorda – “envelopes com pó branco a imitar antrax no interior, dando a entender que eu era o remetente. Fui submetido a vários testes e interrogatórios do FBI.”
A residência em Fátima chegou a ser alvo de uma ameaça de bomba, em 2002. Um homem envolvido com a seita e que residia na cidade portuguesa lançou um diário ‘on-line’, acusando-o de ter violado as netas. Kronzer processou o autor das injúrias. Na Califórnia, circulava um documento que tornava explícito que existiam cerca de 60 pessoas que o iriam levar a tribunal pedindo uma indemnização de 50 milhões de dólares. “Como não o fizeram, avancei eu. Processei a minha mulher por apropriação indevida de bens. O meu advogado, que trabalhava para mim há 24 anos, também me traiu. Andou três anos a passar informações para o líder do culto. Enfim, esta é a minha vida desde há uma década.”
As duas tentativas fracassadas de resgatar Ardath Talley, além dos milhões que já gastou a salvar pessoas dos cultos fanáticos e a patrocinar processos contra eles não demovem Phillip J. Kronzer, que promete não desistir até libertar do culto a mulher por quem se apaixonou no liceu: “Há três anos que não falo com os meus filhos. A minha luta é juntar a minha família novamente. Acredito que, um dia, ela vai voltar. Não será fácil recuperá-la e sei que terá de ser submetida a um tratamento para desfazer e lavagem cerebral a que foi submetida, mas se não acreditasse nisso já me tinha dado por vencido.”
Quando o entusiasmo de Ardath Talley pelos fenómenos das aparições de Medjugorje começou, Kronzer não deu importância à excessiva devoção da mulher. “Eu sou um católico fervoroso. Quando decidi reformar-me, viajámos os dois pelos locais das aparições marianas: Fátima, Lourdes e fomos, inclusive, a Medjugorje, em 1987. Nunca pensei que algum dia tal pudesse acontecer”, afirma com um olhar desolado. Ela passou a interessar-se pelo estudo das aparições e conheceu muitos videntes. Ao contrário, Phillip J. Kronzer, que no início pactuou e lhe patrocinou as crenças, passou a considerar a sua dedicação “absurda”, sentindo que ela se afastava cada vez mais dele e dos três filhos. “Antes do desaparecimento, os líderes da comunidade convidaram-na para participar em vários retiros, mas nunca me diziam nada a mim. Era estranho”, lembra.
Sete meses antes de tudo começar, ela conheceu uma vidente e nunca mais regressou. Kronzer acredita que essa mulher é, em parte, a responsável pelo trambolhão que aconteceu na sua vida. “Theresa Lopez é uma verdadeira fraude. Tem problemas com drogas, álcool, cinco casamentos falhados, abandonou os filhos. Soube que convenceu a minha mulher, dizendo que se continuasse rica iria para o Inferno. Sobre ela já caíram várias queixas em tribunal”, conclui este americano que promete não dar tréguas a esta seita enquanto não resgatar a mulher. Mesmo sabendo que a batalha ainda está longe do fim.
O FENÓMENO DE MEDJUGORJE
Os cultos a Medjugorje começaram a 24 de Junho de 1981. Seis estudantes católicos desta aldeia rural, situada na actual Bósnia-Herzegovina, garantiam ter visto uma silhueta dourada de uma mulher segurando uma criança nos braços. Mas as revelações não se ficaram por aqui. Afirmaram ainda que, no dia seguinte, o espírito tornou a aparecer identificando-se como a Virgem Maria, que deixava mensagens para salvar o mundo. Houve quem encarasse as revelações das crianças como mais uma anedota de mau gosto, mas a verdade é que alguns padres apoiaram-nas. Mito ou realidade, o fenómeno rebentou e assumiu proporções quase mundiais.
É assim que, num abrir e fechar de olhos, centenas de turistas aterraram em Medjugorje. A pequena aldeia antes isolada do mundo, com apenas 500 habitantes antes das aparições, sem estradas pavimentadas, electricidade, água potável, telefone, hotéis ou restaurantes, transformou-se num local de culto. A pacata aldeia bósnia tem hoje mais de 15 mil quartos e hospedagens, assim como ruas repletas de ‘souvenirs’. Nos últimos 23 anos, já recebeu 15 a 20 milhões de peregrinos. Muitos dos que tentam ver a Nossa Senhora cegaram ao olhar directamente para o sol.
Em 1987, o bispo local condenou as aparições e classificou de “falsos” os relatos dos videntes, que, segundo Kronzer, “dominam o monopólio das aparições”. A Igreja declarou como únicos locais sagrados Fátima, Lourdes, Guadalupe e La Salette. Nem as sentenças do Vaticano têm demovido os inúmeros fiéis. Phillip James Konzer aponta o dedo acusador: “Daqui nascem grupos que se aproveitam da devoção para lhes extorquir o dinheiro em troca de curas milagrosas ou do prometido contacto com Deus. É uma doença. Eles fazem verdadeiras lavagens cerebrais e dão cabo da família tradicional, como aconteceu com a minha.” É por isso mesmo que este americano tranquilo se transformou num caçador de seitas.
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