Se tivessem asas, andavam mais que Boeings. Os carros. Aliás, as bombas. Estacionadas em segunda fila na Avenida do herói das guerras liberais. Duque de Loulé, em Lisboa. De Ferraris, Porsches e Bmws da série endinheirada saem homens de múltiplos estilos. Atarracados, calmeirões, anafados, escanzelados, trintões, de meia-idade ou com a idade do comprido azul.
Quase todas as figuras são reconhecidas pelo porteiro – uma rocha humana com braços que disputam paredes. “Faça o favor ‘Sodoutor’. Gosto em vê-lo senhor engenheiro.” Ena. Só académicos é que frequentam o Gallery. Sobra um sociólogo que conseguiu emprego numa companhia de seguros e uma aspirante da escrita a recebidos verdes.
Não é costume que mulheres pisem o solo sagrado dos bares de prostituição, e aquelas que se atrevem, o entroncado que controla a porta conhece-as de cor. Tem razão para fungar de uma narina. Não tanto, para entortar a outra. Olha. Olha. Tira as medidas às caras e aos sapatos. Roupa e cabelo. Tosse. Após a gosma vem o ok: “Entrem. Boa noite”. E uma escada de mármore negra. Malditos tacões altos que dificultam a descida. No fim dos degraus, eis um bar apinhado e um salão com dois mares: homens e mulheres. Eles, vestidos. Elas tapam-se com tops com vista do umbigo. Saias de bainhas cosidas até ao berço das coxas. Camisas com decotes que ultrapassam a caixa torácica. Sorriem. Riem. A publicidade é ser feliz e transmitir felicidade.
À parte de raras prostitutas do Leste europeu, a maioria do séquito é brasileira. A sénior terá, quiçá, trinta anos.
Os seus rostos carregam blush. Rímel. Batom. Gloss. Fond de teint. Pó brilhante. Ao mínimo descuido do suor, sorrateiramente retocam a maquilhagem.
O responsável do nigthclub deve ter apanhado a mesma corrente de ar do porteiro. Tosse. Nem um palmo de oxigénio foi respirado, e já olha, olha. Junta os pés e fecha o botão do blaiser. Não faz continência. Fareja: “O que é que os senhores bebem?”. A resposta ficou a meio. A vontade no feminino conta tanto como um cachecol em África. Uma dama só exprime a sua vontade através da laringe masculina. O amigo dos seguros corrige a gafe. E exagera. Pisa cinco dedos. Todos meus. Pede uma garrafa de água e um whisky. Dez euros. Dezasseis euros. Barato. Um Johnny walker black label comparado com um copo de água a temperatura choca. Quatro yuppies vão gastar muito mais. Duas morenaças querem saber se está tudo bem. Tudo. Melhor do que o milho, mas nem um fósforo para acender a nicotina. Não faz mal. Um par de louras aproxima-se, ambas sorriem devagar, ambas trazem depressa o isqueiro. Duas e duas somam quatro, portanto nenhum dos urbanos executivos estereotipados ficará a roer as unhas.
Champanhe para as meninas verbaliza um fato às riscas para o barman. Uma alma sem cabelo e com barriga quer imitar o gesto: “Posso-lhe oferecer um Moet Chandon?”. Podia. Se o conhecesse. Trabalho noutro ramo.
Afundados em sofás, os clientes mais abonados, sorvem bebidas de marca e de preço de ouro, e apostam que protagonizam a Ilha dos Amores de Camões. Só três quarentões andarão com dor de dentes.
Deram negas a aviões cuja lingerie é adivinhada por um cego. Mas as restantes visitas cumprem a alegoria do canto XIX. As ninfas – as mulheres que servem de inspiração carnal, no soneto eram à borla, contudo no Gallery custam dinheiro. “Tudo perfeito” garante um conhecido músico português. Gosta que a música que excita os corpos ecoe ao som ideal. Fala-se de temas que tonificam a criatura mais encardida. Eles impam de virilidade. Até uma figura do século anterior, cuja gravata já cabe na boca de uma louraça com seios empinados, sente que é o tarzan.
Mas para continuar na selva do desejo é urgente que continue a consumir. Se adquiriu garrafa, pois que a termina e que compre a segunda por 200 euros. Caro. A pinga e o sexo que oscila pela hora da morte: 200 euros ou 250 euros.
A ginástica corporal pode ser consumada num hotel (desde que, no mínimo, tenha quatro estrelas) e se as meninas derem o agreament, no apartamento do próprio. Antes de saírem do 51 da Av. Duque de Loulé ficam decididas quais serão as voltas que o corpinho dará ou não dará. Fazem isto, mas não aquilo. Nem mesmo se o campeão subir a parada.
Subindo a mesma avenida, a metros, na esquina, fica o Nigth and Day. O porteiro não desapareceu. Espreitando o adito vê-se os seus pés a boiar num banco. O indivíduo criado a sopa de feijão levanta as pernas como se fossem molas. Deseja a boa noite. E uma noite sem vistoria torna a noite melhor.
Talvez a entrada fácil se deva à fraca clientela. É cedo. Meia-noite e quase meia. O rodopio só começa às duas da madrugada. Até lá, sobram muitas mulheres para poucos homens de farta heterogeneidade.
Taxistas, caras larocas do Teatro, estudantes, entradotes de camisa aberta a ostentar fios grossos com medalhas de índole religiosa. Alguns vagueiam de copo na manápula, outros regalam o ego, poucos ignoram as mini saias e falam dos negócios que não fizeram. Um ruivo de sotaque nortenho, equipado com calças brancas, segreda a um italiano o cartão-de-visita: “Aqui as putanas são um cocktail de variedade”.
Com os pés a seguir ritmos da música dos anos 80, as prostitutas fazem figas para serem convidadas para assentar arraial. O sinal do ok vem dos olhos, de dois dedos juntos, de um meneio do pescoço. Coitado do rapaz que devido aos nervos, ou à nascença, foi cravado com um tique facial. Uma torre com um par de peitos de silicone, vestida da anca até ao fémur, acreditou que o tremor significava “Vamos nessa Vanessa”. Não foram. O tique voltou. O aprendiz engoliu a cuba libre preso à vergonha. A boazona percebeu. Sossega-o: “Não faz mal. Isso vai passar”. Vai, vai. Ele sabe que não. Vai-se embora, e antes do bye-bye, toca, talvez em sua honra, ‘I will survive’ da Gloria Gaynor. Bebemos. Para sobreviver à falta de ar condicionado. Bebemos. Uma garrafa de água e um whisky irlandês. A água, afinal, não está ao preço do petróleo, como no Gallery. Nem o sexo pago em casch. Por 100 euros faz-se negócio. Ou em noites frouxas, 75 euros chegam para resolver a testerona. “Oi titinho!” exclama o mulherio brasuca. O titinho– e se justiça fosse feita, seria vovô – tomou banho de perfume lavanda, besuntou a cabeleira de gel, calça botins bicudos, não corta as unhas desde o baptizado.
Estica os suspensórios. Convida três moças. Valente. Champanhe. À descrição. Nula discrição terá para sempre um verdadeiro acéfalo que, enquanto combina o preço, o lugar e o menu libidinoso, treina arrancar a aliança do anelar. Bem feito. O dedo inchou. Viu que foi visto na atrapalhação, dispara: “Há algum problema?”. No país existem mais que chapéus do Vasco Santana. Ao contrário de solteirões.
Um grupo festeja a despedida de solteiro de um trintão. Entornado q.b., mas delicado. Tropeça e pede com licença. Aqui, as putanas, já dizia o espertalhão das ceroulas brancas, são um cocktail de variedades, e idem organizadas. Não se descobre duas a correr para o colo do mesmo cliente. Ou vai uma ou vão quatro.
O ELEFANTE BRANCO
Antes das quatro da manhã, o Elefante Branco, deve estar às moscas. Mentira. O vizinho de um quarto andar sem elevador enganou-se. Basta passar pela porta do número 83 A da Rua Luciano Cordeiro para perceber que, no club mais afamado de Lisboa, haverá tudo às duas e meia da manhã, menos moscas.
Dois funcionários de fato completo escuro, gravata cor-de-rosa, pompa aperaltada, não têm mãos a medir para segurar tantas chaves de carros de tanto luxo. Curiosamente não tossem, não franzem narinas ao casal que chega a penantes. “Façam o favor”. Pouca luz na entrada, uma senhora que guarda casacos, depois, um bar, bancos altos, sofás, música que faz dançar, até, coxos. E uma galeria de mulheres. Jovens.
Frescas. Morenas, louras, cabelos tratados, pernas lisas de estrias, seios com a fórmula da bomba de neutrões. O encarregado sugere-nos uma mesa. Beber? Nós? Sem sacrifício. Dois gins tónicos. E a casa oferta a fartura. Figos. Amendoim. Fava frita.
O panorama aumenta o apetite. É verdade. Um bonitão mastiga um prego. Bebe cerveja. Tem guardanapo de pano. Está sozinho, e nenhuma das beldades se aproxima. Elas sabem e cumprem as regras. Ele só deixará a solidão quando quiser, e se quiser. Três labregos bem arreados de cachuchos pagam bebidas e tostas a um punho de prostitutas. Um apresentador de televisão tem ao seu redor um harém.
A política e a banca animam-se nos sofás. Miúdas, ainda não. Olham. Com olhos de garfos. O álcool é igual ao discurso dos políticos: é diurético. Os sanitários do Elefante Branco merecem atenção. Uma funcionária dá as boas--noites. Sabonete cheiroso. Uma escova para afinar a franja. Toalhetes. Limpo. Tudo. Até as conversas das prostitutas.
Pedidos ao pai de santo na Bahia para que, no mínimo, naquele dia, aconteça duas vezes. Conselhos para “turbinar” os peitos, enrijecer as nádegas e um cursinho de inglês porque Portugal está virando uma Europa moderna. A moça adivinhou. Um barco atracou no cais. Oficiais da Marinha ocupam o balcão. Se no mar andaram sozinhos, em terra, só se forem parvos. Ingleses, mas no problem. Elas desenrascam-se mais pelas pernas do que pela expressão verbal.
Os marinheiros agradecem. Nadar e falar não lhes deve apetecer. E no matter. Viva Babel. O Espanhol resume. Guapa. O Inglês especifica. Come with me. O Português avisa que festa é festa.
O PORTEIRO
O porteiro do Hipopótamo, na Avenida António Augusto de Aguiar, não vasculha feições. Farpelas. Não faz dieta nem boxe. Avisa que o custo da entrada equivale a 15 euros. Portanto, trinta. Obrigadinha. Tira da algibeira um molho de recibos que dizem nada. Informa que temos direito a uma bebida por pessoa. Que entremos. Obrigadinho. Três contos, na moeda antiga para experimentar um local vazio. Mas aos poucos, serão benditos. Vazio e tão cheio de figuras.
O chefe de sala sonha que está no Moulin Rouge. Tony Carreira canta num disco, mas para ele estamos no Olimpya. Cabe-lhe um fatinho apertadinho. Bigode cuidado.
Dicção delicada. Não pergunte. Bebemos. Gin. A mistura é um veneno das úlceras. Duas portuguesas. Uma brasileira. Todas ao balcão. Engordaram. A roupa afinca-lhes as banhas. A mais jovem, trintona, tem a língua no ouvido de um jovem tatuado.
A menos gorda traduz à mais roliça o que verbaliza um americano idem nutrido. Drink? Só champanhe. A guerra do Iraque faz pensar. Refila que é caro. A sugestão vai para trás. Beer? Cerveja. Isso é que era doce, sweet, meu caro velho. Champanhe. Want? No. Dance? Sim. Mas primeiro champanhe. O hipopótamo é um animal do rio e as baleias de sangue quente, se calhar é por isso que a canção de Roberto Carlos faz mais sucesso do que um braço de ferro entre prostitutas e um forreta. Elas cantam. Sabem a letra e o compasso. Ele já fala sozinho. Bebe as beers que os rins lhe deixarem. Dança sem par. Desiste. Que venha champanhe. Elas nem dão pelo milagre. Só no fim. Os copos enchem, mas metade do líquido segue o caminho do chão.
Comprou esta garrafa e comprará a seguinte. Um cinquentão atende o telemóvel. Ainda não saiu de Aveiro. As reuniões ainda não acabaram. Que chatice. E que mentiroso.
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