Humilhado pelos colegas, Gonçalo fez um plano para matar 60 pessoas. Especialistas explicam como o bullying desperta a fúria.
Gonçalo até podia ser o rosto do sofrimento, mas ninguém se deu conta. Quando todos repararam, havia quatro feridos no hospital e uma folha A4 com um plano para matar 60 pessoas na Escola Secundária Stuart Carvalhais, em Massamá, Sintra. Na segunda-feira, 14 de outubro, o adolescente de 15 anos levou para a escola uma mochila que em vez de livros tinha a faca usada na agressão, quatro outras facas de vários tamanhos, um cachecol e um gorro, cinco embalagens de fumos de cor verde e amarela com base vermelha, uma embalagem de fumo de cor verde e amarela com base vermelha deflagrada, uma de gás pimenta, três frascos de álcool, uma caixa de fósforos e dois isqueiros.
Durante a manhã, Gonçalo terá agido sem levantar suspeitas. À tarde, pelas 16h15, levantou-se da cadeira durante a aula de Matemática e caminhou em passos vagarosos até à porta da sala. Da mochila tirou um verylight, que rebentou contra o chão. "Vou matar toda a gente", disse. Em segundos, a sala encheu-se de fumo e de pânico, com os alunos da turma do 11º G a tentarem escapar do medo, naquele dia em forma de gente. A barrar-lhes a saída tinham um Gonçalo armado de faca em punho. Um Gonçalo a quem na escola chamavam ‘betinho' e ‘copinho de leite' - segundo o advogado da família, Pedro Proença, o adolescente sentia-se desprezado na escola para onde se mudara no ano passado, vindo de um colégio privado. Naquela tarde atingiu duas colegas com golpes no abdómen e no braço e ainda uma funcionária da escola com um golpe no pescoço.
SURTO PSICÓTICO
Filho único de um casal de profissionais de saúde sem problemas económicos, Gonçalo era um ótimo aluno, mas com dificuldades de adaptação à escola ‘nova'. Já no ano passado tinha "espetado um lápis nas costas de outro aluno" e tentado atingir um professor com uma pedra que lançou para a sala de aulas, contaram os colegas ao CM no dia que podia ter terminado em tragédia.
Desde o primeiro momento, a história de Gonçalo acendeu o debate sobre o bullying (agressão entre pares). "Quando ouvi a notícia fui logo ver qual era a escola porque tenho um doente meu, também adolescente, que é tão perturbado que podia ter feito uma coisa semelhante" - assume a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. "Tenho miúdos que vêm às minhas consultas e dizem que um dia levam uma faca e matam toda a gente. Arquitetar um plano nestes casos é quase uma estratégia de sobrevivência, não nos podemos esquecer de que são miúdos."
Para a especialista, muitas vezes as crianças e jovens vítimas de bullying têm uma maneira anómala de comunicar com os outros, de tal forma que acabam por ser "os maiores inimigos deles próprios, porque criam anticorpos nos outros". Ana Vasconcelos acredita que "o que aconteceu com o Gonçalo foi uma incapacidade de pedir ajuda. Como não conseguiu, agiu com violência. Este miúdo está a sofrer, está num surto psicótico, está em sobrevivência máxima, porque a única defesa que tem é pensar: ‘são meus inimigos, são para abater'. E esta agressão, o facto de ter ido ao pescoço - que poderia causar a morte - e não ter dado murros nem pontapés é prova disso".
O plano de Gonçalo, rapaz introvertido, era matar 60 pessoas - foi inspirado em dois massacres que abalaram a América, admitiu às autoridades na esquadra onde passou a noite. No massacre de Columbine, a 20 de abril de 1999, Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17, invadiram a Escola Secundária de Columbine, no estado do Colorado, que frequentavam, e mataram 12 estudantes e um professor, antes de se suicidarem. ‘Quando começar a matar, há provavelmente umas 100 pessoas na escola que não quero que morram. O resto deve morrer. Odeio todos por me excluírem de tantas coisas, e será melhor terem medo de mim. Ódio! Estou cheio de ódio e gosto disso. A natureza humana é a morte', escreveu Eric Harris no seu diário pessoal, em outubro de 1998.
Em dezembro de 2012, Adam Lanza, de 20 anos, invadia a Escola Primária de Sandy Hook, no Connecticut, para matar 28 pessoas, 20 das quais crianças. Além de abater a mãe, o atirador disparou indiscriminadamente sobre as crianças presentes na sala e também sobre outros alunos e professores. Também ele se suicidou com um tiro na cabeça. Seria este o plano de Gonçalo - matar e morrer. "As pessoas enchem, enchem, enchem e quando não sabem reagir no momento adequado chega um dia em que se passam. Todos nós temos um mecanismo de contenção que nos impede de pôr em prática esses pensamentos de ‘apetece-me matar toda a gente', mas quando as pessoas não têm essa gestão da raiva e as vítimas não sabem ser vítimas, estas situações podem acontecer num estado de limite", contextualiza o pedopsiquiatra Mário Cordeiro. Ou seja, "as vítimas têm de chatear meio mundo, queixar-se; quando não conseguem fazer isto acontece uma de duas coisas: ou a pessoa desiste e se suicida, porque não aguenta mais, fugindo da realidade, ou enfrenta-a de uma forma deturpada" - que foi o que aconteceu a Gonçalo.
"A atitude deste miúdo foi uma atitude de raiva - muitas vezes acontece a jovens que vivem isolados e são pouco educados a verbalizar as coisas. Mas também é verdade que há muita gente vítima de bullying que não tem este tipo de reação, aqui há claramente uma conversão da vitimização em ódio", conclui o especialista.
NERVOSO COM OLHEIRAS
Depois do ataque na escola, Gonçalo fugiu na direção de Massamá Norte, onde foi intercetado pela PSP e levado para a esquadra local. Passou a noite nas camaratas da sede da PSP de Lisboa. Não ofereceu resistência quando foi detido. No dia seguinte, à entrada do Tribunal de Família e Menores de Sintra, tinha um ar abatido e apático. Não tapou a cara com as mãos, preferiu fechar os olhos, carregados de olheiras vincadas na pele. Quando se viu em frente à juíza mostrou-se nervoso. O corpo magro tremeu. Na audiência disse estar arrependido e confessou estar afetado psicologicamente por sentir que o casamento dos pais estava em risco e temer a separação. "Não nos podemos esquecer que o clima que o País atravessa tem tido muita influência no comportamento dos mais jovens. Eles podem não entender os indicadores económicos, mas conseguem perceber o stress dos pais e as mensagens negativas que os rodeiam. Tal como um casamento em crise - as crianças e adolescentes conseguem sentir o clima de tensão em casa. Se a somar a isso forem vítimas de agressão ou discriminação pelos pares, ainda pior" - refere Américo Baptista, especialista em ansiedade e depressão.
Cerca de uma semana antes do ataque de Gonçalo à escola, este terá encomendado uma pistola a um colega. O valor a pagar seria de 170 euros, que o adolescente não conseguiu arranjar a tempo. Ainda assim, quando percebeu que não tinha dinheiro para comprar a arma de fogo ao colega tentou trocá-la pela sua PlayStation e cinco jogos para a consola. "Um dos grandes perigos nos Estados Unidos é precisamente toda a gente ter acesso a armas. É mais fácil sacar de uma arma durante uma discussão - porque premir o gatilho não gasta energia nenhuma - do que dar murros e pontapés", acredita o pedopsiquiatra Mário Cordeiro.
GRITO DE SALVAÇÃO
Gonçalo foi internado no Centro Educativo dos Olivais, em Coimbra [uma casa de correção onde vai ter apoio psiquiátrico durante três meses antes de nova avaliação]. Durante os primeiros dez dias ficará em isolamento total e só depois disso poderá receber a visita semanal dos pais, que ficaram em choque com o sucedido. Estarão, aliás, a tentar transferi-lo para uma instituição privada, onde poderia continuar os estudos. No sítio onde foi colocado pelo tribunal vai ficar em regime fechado e por isso sem direito a frequentar a escola durante os três meses em que estará a ser avaliado por psiquiatras.
"Parece-me, sem conhecer o caso a fundo, que se trata de uma questão de agressividade contida, como se fosse o grito dele de salvação, a querer dizer ‘eu estou aqui e já não aguento mais'. No fundo, o que ele fez foi uma fuga para a frente", considera a psicóloga Tânia Paias, que criou o Portal Bullying, um centro de ajuda on-line. "O facto de ele já ter tido outros episódios [como o do lápis espetado nas costas do colega e o da pedra lançada ao professor] de violência faz crer que ele já tinha dado sinais de que algo não estava bem. No meu consultório já apareceram muitos casos de agressividade contida, mas nenhum passou à ação. Inclusive, aparecem muitos adultos que foram gozados e humilhados no tempo de escola e que não conseguiram ultrapassar isso. Estão profundamente zangados consigo próprios e com o mundo por nunca terem feito nada. São pessoas com muita dificuldade - por muitos anos que tenham passado desde a época da escola - em confiar nos outros", acrescenta Tânia Paias.
No ano letivo de 2011-2012, o crime de injúrias e ameaças (correspondente ao bullying) aumentou face ao ano anterior, sendo que foram registados 436 crimes desta natureza pela PSP. José, de 13 anos, sofreu durante meses agressões e chantagens por parte de dois colegas de turma, na Escola Básica e Secundária Oliveira Júnior, em São João da Madeira. Mas, cansado de sofrer, contou tudo aos pais e os dois agressores foram alvo de um processo disciplinar e castigados com uma semana de trabalho comunitário na escola em maio deste ano. Gonçalo optou por outra via, em Massamá, na segunda-feira, dia 14 de outubro. Até podia ser o rosto do sofrimento, mas ninguém reparou. Até aparecer um plano de matança que não chegou a concretizar mas voltou a preocupar a sociedade: como se podem proteger aqueles que não dizem que precisam de proteção?
O SEU FILHO É VÍTIMA DE BULLYING?
O seu filho poderá estar a ser vítima de maus-tratos psicológicos "sempre que notar alterações no humor, abatimento físico e psicológico, sem paciência para nada, mais alheado da família do que de costume, mais introspetivo, com piores resultados na escola, com queixas físicas permanentes (dores de cabeça ou de estômago, fadiga), irritabilidade extrema, inércia. Se bem que muitos destes sintomas possam ser confundidos com a adolescência, é necessária uma atenção redobrada", alerta a psicóloga Tânia Paias no Portal do Bullying. Já os sinais de alerta da violência infantil passam pela ira intensa, ataques de fúria, irritabilidade extrema, frustrar-se com frequência, impulsividade, autoagressão, poucos amigos, dificuldade para prestar atenção e inquietude física - alerta o mesmo portal, dirigido a alunos, pais e professores, com conselhos, alertas, perguntas e respostas sobre a agressão entre pares. Se procura apoio, consulte o Portal Bullying
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