Ela continua a ser a 'menina' de Ary dos Santos, rosa brava, rosa povo. Em Beja, terra onde nasceu, cantou para espantar males e mágoas. Cantou para os seus vizinhos e para a gente que veio de Lisboa ouvi-la.
É ela, a menina de andar de linho, que ali vem. Em vez do ribeiro à cintura e do coletinho de lã, traz uma blusa colorida que o costureiro Zé Carlos fez para ela. Há muito tempo cortou o cabelo. Perdeu as tranças da madrugada. Mas a menina de riso aos molhos persiste. É ela que sai do camarim inundado de luz e caminha na direcção do palco do teatro Pax Julia, em Beja. Tonicha, 62 anos, está de volta ao Alentejo.
Nos bastidores – onde as lâmpadas são cobertas por filtros azuis para que as entradas e saídas não perturbem o ambiente – as palmas soam como a chuva. E ela avança, debaixo daquele pingar insistente, para o centro do palco. Não vacila. Não vê o público, encadeada pelos projectores e sem os óculos. Temas do Cancioneiro compõem o alinhamento do espectáculo ‘Tonicha e Venham mais Cinco Alentejanos’.
Não há lugar vazio na plateia do Pax Julia. Os homens mantêm os bonés de fazenda e as mulheres tacteiam com cuidado as mises recentes ou fazem girar entre os dedos as pérolas brancas rentes ao pescoço. E cantam 'chora por mim... já deixei o Alentejo'.
Antónia de Jesus Montes, Tonicha, deixou o Alentejo aos 16 anos, mas começou a cantar muito antes – na Sociedade de Cultura e Recreio Capricho, em Beja. Sete anos mais velha, Catarina lembra-se bem dela. 'Conheço-a desde pequenina. Eu também cantava na Capricho. No ano em que ela ganhou, com ‘OMar Enrola na Areia’, a minha mãe não me deixou participar no concurso.' Uma injustiça. 'Como não deixaram a namorada do meu irmão entrar no ensaio, ele intrigou com a minha mãe para que eu também ficasse de fora.' Com o cabelo muito preto e abundante entrançado atrás e a parte superior da armação dos óculos muito para além das sobrancelhas, Catarina veio com as amigas do centro de dia, Maria Oliveira, Felicidade, Maria Bárbara e Francisca Dias, assistir ao espectáculo. 'Ela canta muito melhor do que eu', há-de dizer à saída do Pax Julia.
O público de Beja não vê no palco apenas a cantora. Tonicha é mulher querida da terra para onde voltou depois de longa ausência. Nasceu perto da Igreja de Santa Maria e agora vive ao pé do liceu. O regresso, ditou-o a necessidade de cuidar do marido de há quatro décadas, o radialista e etnógrafo João Viegas, de 77 anos. 'Sinto--me mais apoiada em relação a ele e se for preciso também não é difícil sair em busca de cuidados médicos especializados.'
No palco com os cinco alentejanos, Tonicha pergunta agora ao pastor por que chora. Pede-lhe, como escreveu José Gomes Ferreira, que deite as mágoas fora pois 'carneiros é o que mais há'.
Também ela deitou mágoas fora. No Natal de 2000 foi-lhe diagnosticado cancro da mama. 'Caiu-me o mundo em cima', confidenciou à Domingo antes de vestir a blusa colorida e as calças de smoking desenhadas por Fátima Lopes, ainda de ténis, jeans e camisa clara às riscas. Derrotado o ‘maldito’, ainda hoje faz tratamento quando o braço direito incha.
No centro do círculo de luz, Tonicha balança os braços e estala os dedos ao som do ‘Vira do Vinho’, com letra de José Carlos Ary dos Santos, o mesmo que, em 1971, na sua casa da rua do Alecrim, Lisboa, foi dizendo, à medida que criava com os olhos postos nela, o poema ‘Menina’. Tonicha ganhou o Festival da Canção desse ano com ‘Menina’, musicado por Nuno Nazareth Fernandes.
Em 1971, Francisco Marzia tinha sete anos. Estava sentado no sofá da sala, diante da televisão a preto e branco, quando Tonicha apareceu no ecrã de vestido comprido e cabelo liso sobre os ombros. Foi amor à primeira canção. Hoje, o professor de Português e mestrando em Estudos de Teatro na Faculdade de Letras, anima, com Venâncio Gomes, profissional de Marketing, o Clube de Fãs da Tonicha e o respectivo blogue, tonicha-clube-de-fas.blogspot.com.
Francisco e Venâncio, que vieram de propósito de Lisboa, destacam-se entre o público de pé para aplaudir Tonicha. Dois jovens adultos cosmopolitas, ombro a ombro com os boné de fazenda e as mises, aplaudem Tonicha e suplicam 'só mais uma'. Venâncio não resiste e atirar uma sugestão para o palco: ‘Tourada!’ Não a de Fernando Tordo, mas a doCancioneiro, história de ciúme masculino, 'foste, foste que eu bem vi, no domingo à tourada...' Da guitarra portuguesa de António Torrão, um dos 'venham mais cinco alentejanos', soltam-se os primeiros acordes de ‘Menina’. Boa tentativa, não fosse este um espectáculo de música tradicional portuguesa, pelo que o encore pertence a ‘Zumba na Caneca’, ‘Pestotira’ e ‘Tu és o Zé que Fumas’. 'Que belo bocado aqui se passou', comentam Felicidade e Maria Bárbara.
Tonicha retira-se do palco. Retoma os jeans e os ténis vermelhos. Põe os óculos rectangulares de aros pretos. Ampara o marido a caminho do automóvel cinzento, que ela conduz. Voltam para casa, ao pé do liceu de Beja. Tonicha deixou o jantar feito.
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