As discotecas que abrem de manhã estão na moda. Os chamados after hours provam que as noitadas já não são o que eram.
A aurora fura o céu com migalhas de sol. Os resistentes da noite defendem-se da minúscula luminosidade com óculos de lentes escuras. Os derradeiros cartuchos podem ser queimados, mesmo quando o final da madrugada é quase dia. Para felicidade da boémia, existem discotecas no Cais do Sodré , em Lisboa, que não se limitam ao horário tradicional; fecham às quatro da matina e reabrem duas horas a seguir para ficarem abertas até, pelo menos, às dez da manhã.
O vocábulo inglês ‘after’ [‘depois’], a girar em letras garridas nas paredes das velhas boîtes a precisarem de Robbialac, já traduzira a continuação da festança daqueles que não se ralam com as horas para castigar as solas a dançar, beberem de copo, cheirarem e mastigarem tudo, tudo, menos flores e chicletes.
A fila no Europa não é igual à das Finanças. Todos desejam lá entrar. Enquanto as portas não escancaram, um ‘mitra’ leva dez dedos aos bolsos e atira de olhos vermelhos: "Queres pastilhas?" Não, obrigadinha. Só as inocentes da marca Gorila, de vez em quando. O negócio não ficou por fazer; uma moça a cambalear atina o passo, compra o produto e esbarra com um rapaz a precisar de um gole de cerveja para amparar o vómito. O fígado acaba por resmungar numa cantoria gregoriana. Não há azar; o antebraço serve de guardanapo. O tempo não deve ser perdido com higiene; o Europa acabara de abrir e o mundo endoudece.
O INÍCIO ÀS 05H57
A porteira dá os bons-dias e recebe seis euros pela entrada. Sorte; estar sóbrio oferta uma, duas borlas. Passam três minutos das seis da manhã, mas o ambiente lembra o auge da meia-noite bem-disposta. As quatro mãos dos barmen não são suficientes para satisfazer a gula da clientela. Água resolve os pastilhados disciplinados, trintões sorvem gins e uísques como se as bocas fossem aspiradores e a juventude oferece o cóccix e cinco tostões por litros de cevada fermentada.
A cerveja é quem mais ordena num espaço apinhado de gente que mexe o corpo à cadência confusa e contagiante de música do tipo do martelo. Pum, pum, pum, e de novo, pum.
Braços desconcertados oscilam para cima e para os lados, inclusive vão a baixo. Ninguém olha para ninguém com a régua da censura e os códigos do engate nascem com atrevimento.
Não existem avaliações e tudo está sempre ok, cool e acelerado, sobretudo com a ajuda da cocaína ou de aditivos. Às criaturas que não foram providentes sobra-lhes a possibilidade de negociar com um sujeito de cotovelo encostado no bico da mesa alta, magro de físico e forte a convencer nos preços. O alemão, que regressaria a Hamburgo ao meio-dia, preveniu-se. Trouxe a mala de viagem nas costas, brinda ao cabeleireiro da chanceler Merkel e o pó veio nas calças.
Uma namorada enciumada chega de narinas dilatadas, talvez necessitasse de dose extra. Procura o parceiro no meio da pista, onde uma agulha faria mossa. Funga, funga. Não o encontra. Um substituto larga os lábios da calmeirona da ocasião, consola os ciúmes com um beijo francês, depois derrapa na descida das mamas e entorna uma imperial no fato de treino da obesa que passa.
O elegante e conhecido humorista não soube disfarçar a dificuldade em manter a pestana acesa, muito embora tivesse razões para não as apagar: duas mulheres de vestidos da medida da garganta insinuavam-se, descaradas. O humor respondia como podia; passos de dança com direito a apalpadelas. Nem assim. Adormeceu de joelhos ao balcão. Acordou sentado com uma língua na orelha.
Os líquidos despertam os rins, mas não é somente essa razão que faz dos sanitários um ponto concorrido. É verdade que os lavabos têm um semáforo – o segurança, cujo tronco concorre com uma árvore da Amazónia – contudo, os sortudos que ultrapassarem o sinal vermelho transformam uma sanita na via verde do delírio: inalam riscos de branca, derretem comprimidos na saliva ou praticam sexo em voz baixa.
‘BEM BOM' DAS DOCE
Grande, grande é a música dos anos 80 que estoira a acústica do pequeno Copenhaga. Três homenzarrões inspeccionam a cara da multidão que se aproxima e, justiça lhes seja feita, não há alma que fique a chuchar no dedo. Todos são bem-vindos ao ‘after’ mais cobiçado da capital.
Rastas de cabelo sem saudades de champô, yuppies ‘charrados’ de farpela às riscas, mulheres de calças justas com padrão tigre equilibram os tacões no ombro alheio, outras de saias pela rótula mexem o esqueleto à moda antiga e muitas de camisolas a realçar a copa do sutiã fumam de boquilha, empregados do Tokyo saboreiam um ‘fino’ fora de serviço, poucos homens de barba rija e bastantes fracos na linguagem, resmas de jovens em delírio e, até, alguns ‘betos’ do Restelo aparvalham-se diante da festa de arromba.
"Que giro que é!", exclama a loura nos tímpanos de um tal Bernardo. É giro é, principalmente depois de dar um inocente apalpão ao rapaz a quem a pressa de comprar um maço de tabaco lhe fez descair os boxers às bolinhas dos jeans.
Uma bebedeira sem cigarros e sem droguinha é o inferno, garante um engenheiro de umas obras que, a bem da nação, ainda não foram concretizadas.
Por nascer estava também o bebé que uma grávida carregava no ventre. Dançou as Doce com energia. No êxito de 1982 o ‘Bem Bom’ começava às duas da manhã e terminava às oito da manhã. Pois. Mas o festival no Copenhaga vai mais além.
Ninguém pára a música e o baile continua, mesmo com o relógio a avisar de que trinta minutos haviam zarpado das sete da manhã. E então?!
Consome-se muito de tudo o que venha de taça cheia; a freguesia não é esquisita, talvez a cerveja faça braço-de-ferro com os shots de sabor a manga que, segundo conhecedores da matéria, resumem a arma ideal para dar um chuto no traseiro da ressaca. De frente, como a íris consente, constata-se que a crise, afinal, é uma desconhecida. Os vícios esgotam as notas dos multibancos da área. A troika que saiba.
COMO AMY WINEHOUSE
Os ‘Abba’ são suecos, Portugal é uma república, mas é no Oslo que ‘Dancing Queen’ provoca exaltação nos espíritos que da lei do cansaço não se vão rendendo. Ir embora sem experimentar o último comboio dos ‘afters’ indica que se perdeu a carruagem.
No antigo ponto de encontro de marinheiros, espiões e prostitutas não há seguranças com músculos inchados. A entrada é livre, mas merecia – palavra de honra – ser paga. Não é fácil encontrar idêntica passerelle de figuras. Travestis de minissaias de licra com malhas nas meias e sapatos de ponta afiada. Indivíduos com semblantes similares de Putin vestem casacos negros de cabedal, sentam-se de pernas abertas e, para exibir virilidade, trauteiam refrãos em tom baixinho.
Damas com a maquilhagem a escorregar no rosto desafinam à grande numa pista de dança minúscula. Por um triz, duas não tombam do quinto andar das sandálias. Por outro triz, a mais entornada não fica com o vestido nos calcanhares.
Homens com indubitáveis caras de ‘totós’ riem da cena, esfregam o ego no pano da estupidez. Se o tecido tivesse, de facto, chegado ao chão, não saberiam o que fazer ao material. Salva-os a Gloria Gaynor.
Até o moribundo cabeludo, uma espécie de hippie que roncava com os dentes de fora, levanta-se da tumba, iça os braços, entorna cerveja nos ténis sem atacadores e, num mar de baba, balbucia: "I Will Survive".
É uma incógnita. Sobreviver, ele, naquele lindo estado, "no, no, no", diria a Amy Winehouse.
A certeza para que uma balzaquiana regresse a casa composta é uma e só uma: urgente aguentar a bexiga. A casa de banho não alvitra bons costumes. Subir um lance de escadas induz a possibilidade de que a descida não dependerá apenas de Deus.
O dia nasceu inteiro. Dez da manhã. Os óculos de aros ao estilo Amália escudam um par de olhos encarnados de fumo. O mitra segue na venda. "Queres pastilhas?" Não. Não. Só Gorila.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.