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Ainda há quem recorde. Há cinco anos, em pleno Verão, uma onda gigante ameaçou a costa algarvia. A mancha escura elevava-se, aterradora, na linha do horizonte. A autoridade marítima, não sabendo o que fazer, mandou evacuar as praias. Apesar da promessa de atingir a costa, no espaço de sete ou oito minutos, a onda nunca chegou. Morreu com a luz do dia.
O povo à espera do dilúvio, ao vivo e em directo, não desanimou. Os tempos eram de alheamento e euforia.
No final de Agosto, este ano, a onda voltou a assomar. Na praia de Alvor com calor tórrido e céu azulado, a temível onda não despertou excitação.
O povo continuou, plácido, a banhar-se na água morna. A onda, uma vez mais, vazou no crepúsculo. A autoridade, desta vez, não mandou evacuar. Apreendera finalmente o conhecido efeito de miragem provocado pelo calor. O povo não desanimou. Já estava.
A crise parece poderosa. Neste Verão, de tudo aconteceu no Algarve. O Euro não trouxe as multidões esperadas. Os hotéis, apartamentos, restaurantes e bares, tiveram uma ocupação muito abaixo de anos anteriores. O fogo, como uma inelutável calamidade natural, voltou a fustigar vastas zonas. Até a chuva, visitante inoportuna, acabou com as férias de muitos veraneantes.
Há muitos anos, em 1 de Novembro de 1755, o mar galgou com ‘espantosa fúria’, elevou-se a mais de seis braças (cerca de dez metros) arrastando grandes pedras e mós de moinho, matando mais de quarenta pessoas em Vila Nova de Portimão. Na ressaca, arrasou o Castelo de S. João do Arade na outra margem.
Em Lagos, o mar atingiu a altura de cinco braças, rasou as muralhas da cidade. Mais de duzentas pessoas morreram afogadas. Em Odeceixe o rio subiu até a uma légua, alagando as várzeas e semeando por elas infindas quantidades de peixe. A onda gigante teria mais de 15 varas (17 metros) de altura. Teve um efeito devastador na costa algarvia. Não havia turismo. Os nativos tiveram todo o tempo do mundo para a reconstrução.
‘Tsunamis’ reais, arrasadores, o Algarve não conhece desde 1755. Felizmente. Mas tem conhecido, nos últimos quarenta anos, sucessivas ondas gigantes de construção incontrolada que o têm desfeado e apoucado grosseiramente. O modelo é copiado até à exaustão. Os prédios de T germinam onde menos se espera – numa aposta estratégica, que está a ser duramente perdida – de turismo de apartamento, supermercado e praia. Enquanto outros destinos, mais atraentes, vão conquistando estrangeiros e nacionais. Turistas que, durante décadas, foram fiéis ao Algarve.
No regresso das férias, talvez seja altura de meditar nos efeitos destas ondas reais. Das que podem ser, por governantes e empresários, devidamente contidas e planificadas. É que, nos dias que correm, já não há todo o tempo do mundo para a reconstrução…
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