Os ‘Painéis’ de Nuno Gonçalves, motivo de um século de controvérsias, vão ser restaurados.
O prolongado e minucioso restauro dos ‘Painéis de São Vicente’, que começa em março e irá demorar três anos, não vai encerrar a polémica entre vicentistas e fernandistas – que discutem, há um século, se a figura do santo duplicado simetricamente representa o Padroeiro de Lisboa ou o Infante D. Fernando; se o mais célebre quadro português, exposto no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), é uma Ação de Graças, para festejar a conquista de Arzila, ou um funeral simbólico do filho de D. João I, que foi martirizado em Marrocos. A única forma de se resolver esta polémica seria aparecer um documento que fosse inequívoco acerca do significado do políptico.
A importância do autor destes painéis, Nuno Gonçalves, como pintor régio é atestada por várias fontes: para lá de ganhar o dobro do seu antecessor, em vez de ser considerado um mero artífice, seria até armado cavaleiro. E Francisco de Holanda, considerado um dos maiores críticos de Arte da Europa, no seu tempo, no tratado ‘Da Pintura Antiga’, fez uma lista com as 21 ‘águias’, onde junta aos famosos Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci, Giotto e Rafael, Ticiano e Mantegna, e o português "que pintou o altar de S. Vicente de Lisboa".
Descobertos em 1892, no Paço Patriarcal de Lisboa, o estado de conservação dos painéis obrigou a que se fizesse um primeiro restauro, em 1909, antes da sua exposição ao público, em maio de 1910, e da instalação definitiva no MNAA. A exibição era então acompanhada pelo livro ‘O Pintor Nuno Gonçalves’, de José de Figueiredo (o primeiro diretor do museu da rua das Janelas Verdes), que, além de identificar as principais figuras e explicar o significado da obra, revelava ser esta a prova da existência de uma escola fundadora da nossa pintura – e, misturando Descobrimentos com patriotismo, transformaria os ‘Painéis’ num símbolo da Pátria.
Peritos em Van Eyck
Ao contrário das tintas usadas no século XV, as aplicadas nos repintes de 1909 foram ficando descoloridas e, com o moderno recurso à ampliação fotográfica em alta resolução, 110 anos depois dessa única intervenção, identificaram-se as manchas diferentes nas caras ou nas roupas de várias personagens e percebeu-se melhor
o grau de degradação do quadro.
A equipa de historiadores e de restauradores constituída para fazer o diagnóstico e, depois, decidir os métodos de restauro integra peritos envolvidos na recuperação da ‘Adoração do Cordeiro Místico’, o famoso retábulo
de Jan Van Eyck, como Maryan Ainsworth e Michael Gallagher, ambos do nova-iorquino Metropolitan Museum of Art, ou o historiador holandês Maximilian P. J. Martens – e estão a ser convidados especialistas de instituições como a National Gallery (Londres) ou o Getty Conservation Institute (Los Angeles).
A mão de D. Henrique
E, pode ainda perceber, através da refletografia de infravermelhos, o que estava no desenho de base e foi modificado na fase de pintar. É assim que se sabe que, originalmente, D. Henrique tinha a mão sobre o ombro do jovem do lado, mas, na passagem do esboço para o óleo, Nuno Gonçalves retrata-o com as mãos juntas – o que pode significar que, entretanto, teria morrido. A figura ajoelhada no ‘Painel da Relíquia’ está de cabelo descoberto, mas, no esquisso, tinha um elmo. Durante a pintura, o rosto de alguém que terá "caído em desgraça" foi substituído por o de outra personalidade.
E, no geral, realça Joaquim Oliveira Caetano, o políptico passou a ter um carácter "menos bélico e mais cerimonial".
Lei impõe a disposição
A nova configuração foi contestada pela Academia Nacional de Belas-Artes e pelo então diretor do museu, João Couto. Mas foi publicado um decreto-lei no ‘Diário do Governo’, em 1942, com um parecer da Junta Nacional de Educação, a impor que a exposição passasse a ser a que tinha sido estabelecida na mostra dos ‘Primitivos Portugueses’. Algo estranho, como nota Joaquim Oliveira Caetano: "uma lei a dizer como se deve expor uma obra de arte".
A iconografia registada por José de Figueiredo também fora contestada, em 1925, por José Saraiva (pai dos historiadores António José Saraiva e José Hermano Saraiva), que publicou o livro ‘Os Painéis do Infante Santo’, onde defendia que a figura central era D. Fernando. A partir daí, desencadeou-se uma disputa entre as duas correntes – que permaneceu até hoje.
Muitas das teses, como tem verificado Joaquim Oliveira Caetano, partem de um pressuposto e acabam por ser autojustificativas para demonstrarem que essa hipótese está correta. Nem sequer atendem a aspetos tão relevantes como a luz do ‘Painel dos Pescadores’ vir da esquerda para a direita – ao contrário do que sucede com os outros cinco, o que lança a dúvida se a obra Quatrocentista não estará incompleta.
Mas o diretor do MNAA realça o facto de, nalguns desses trabalhos, "mesmo mal fundamentados, por vezes, aparecer uma informação importante, seja uma comparação com outra pintura ou uma passagem literária que tinha passado despercebida".
Mas a forma mais pragmática de enfrentar as dezenas de versões é a que o responsável transformou quase numa máxima: "Cada português tem o direito constitucional de ter uma tese sobre os ‘Painéis de São Vicente’."
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