A empresa que popularizou as fotografias pediu falência. O fotógrafo Eduardo Gageiro não quer ficar sem os rolos Tri-X
A primeira fotografia que tirou, aos 12 anos, escolheu imortalizar um pastor e um moleiro. Sentiu o impulso e fotografou, tal como hoje, tantos anos e tantas fotos depois, continua a acontecer. Seguiu-se um pescador a coser redes no rio Trancão e dezenas de outras fotos registaram também, com a mesma máquina, os empregados da fábrica de loiça de Sacavém, onde também ele começou a trabalhar aos 13 anos.
Eduardo Gageiro, o fotógrafo português mais premiado, gosta de dizer que as circunstâncias – "ter nascido em Sacavém, ter convivido com as pessoas da fábrica", gente de trabalho e luta – o moldaram, bem como à sua forma de encarar a vida e de fotografar. Mas a verdade é que a Kodak ‘baby’ de plástico, a máquina que um tio ofereceu ao irmão Armando, uns anos mais velho, também teve a sua quota-parte de responsabilidade no início de um gosto que se fez profissão.
No ano em que Eduardo nasceu, em 1935, a Kodak começou a fabricar o rolo que permitia fotografias a cores, mas, curiosamente, ele sempre preferiu fotografar a preto e branco. "Talvez seja a minha forma de ver a vida" – diz sem razão o homem que sobreviveu a um cancro com muitas fotografias e horas de revelação no laboratório a ajudar. É desses rolos, os Tri-X, com que continua a fotografar sempre que o momento pede, que vai ter saudades se a empresa Eastman Kodak, que declarou falência em meados do mês, para reorganizar os negócios, chegar a fechar as portas.
UMA QUESTÃO DE ALMA
Fundada em 1888, a Kodak desempenhou um papel fulcral na transformação da fotografia em passatempo popular, mas nunca soube criar raízes na era digital, caminhando para um fim de certa forma esperado. Agora, a ideia da empresa centenária é reforçar a liquidez nos Estados Unidos, rentabilizar a propriedade intelectual não estratégica e resolver a situação dos passivos, concentrando-se nos negócios mais competitivos. "Tenho esperança de que, ainda que feche, a Kodak crie um departamento para fazer os rolos ou que, em último caso, venda a patente, porque não me consigo imaginar a trabalhar sem eles. A digital facilita muito, mas não é a mesma coisa porque aos computadores falta a alma", o ver nascer uma imagem como quem dá à luz um filho.
Gageiro anda sempre com dois ou três rolos Kodak no bolso e já procurou saber em várias lojas se podia comprar uns quantos, para ter de reserva não vão eles desaparecer. Os Tri-X – que começou a usar mal apareceram em Portugal – proporcionaram-lhe muitas e célebres fotografias que correram o Mundo em exposições, foram premiadas e nunca lhe saíram da memória. Porque as imagens que a lente de um fotógrafo capta dificilmente são apagadas "do computador que é o cérebro".
Diz Gageiro que os ditos rolos "foram a possibilidade de fotografar em situações-limite sem flash. Houve muitas situações em que, se não os tivesse, não tinha nenhuma fotografia".
Em 1972, quando uma soma de sorte e estratégia o fez ter o exclusivo do massacre nos Jogos Olímpicos de Munique [quando um grupo de terroristas sequestrou e assassinou atletas israelitas], o rolo responsável pela fotografia que correu Mundo, trazido para Lisboa e para a primeira página do jornal ‘O Século’, por um treinador de luta greco-romana, era Kodak.
"A delegação portuguesa estava num 16º andar, eu consegui ir lá acima disfarçado e consegui apanhar o momento. Aquilo estava praticamente às escuras e eu não podia disparar flashes senão levava um tiro, dei oito avos de segundo, o diafragma todo aberto, mas ainda telefonei para Lisboa a pedir para puxarem aquilo a 1600 ISO, algo só possível de fazer com aqueles rolos, que dão uma segurança incrível de que não vão falhar a quem está a fotografar".
Os mesmos rolos acompanharam a lente de Eduardo Gageiro na Revolução de Abril – a fotografia simbólica de um soldado a retirar o quadro de Salazar da parede também foi ajudada pelos Tri-X no dia seguinte ao 25 de Abril; no quadro de sofrimento com que se deparou no Iraque; nos olhos das crianças à espera de tratamento hospitalar no pós-guerra em Timor.
O fotógrafo viu e registou muitos olhos, ao longo dos anos, para a posteridade. Viu olhos célebres, viu Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga (que fotografou com meias junto a uma braseira), viu Salgueiro Maia (que acompanhou no 25 de Abril), viu Grace Kelly e Amália Rodrigues, viu Orson Welles e Gina Lollobrigida. Viu até, e registou, o beijo da governanta Maria a Salazar no enterro deste, dentro do caixão.
Viu também olhos anónimos, tristes ou felizes, "mas sempre dignos". As mulheres da Nazaré, de lenço escuro à cabeça, descalças, a puxar os barcos do mar, os trabalhadores rurais, as crianças deste e do outro lado do Mundo, sozinhas ou ao colo das mães, o amor universal e intemporal de uns e de outros e a ressaca das dificuldades e das guerras. Viu os embarques para as colónias, os peregrinos de Fátima, os fiéis da Santa da Ladeira, viu o Portugal real através da lente e o mundo que a maioria dos portugueses nunca viu.
O facto de ter começado a trabalhar em jornais aos 20 anos (mais tarde haveria de colaborar com a Associated Press e de ser o fotógrafo oficial da Presidência e da Assembleia da República) ajudou a peregrinação pelos grandes acontecimentos. Antes da Revolução, chegou a ser preso pela PIDE, no Forte de São João do Estoril. "Diziam-me: temos um país tão bonito, por que é que você não fotografa as paisagens em vez das pessoas?".
Na casa onde vive, na terra onde nasceu e começou a fotografar, tem cerca de duzentas máquinas – muitas Kodak, entre elas "o popular caixote", "algumas do tempo em que se faziam máquinas para senhora e máquinas para homem" – de outras épocas. Épocas em que ainda não era sequer nascido, quanto mais fotógrafo. Guarda 170 mil negativos, muitos momentos, outras tantas pessoas. E, apesar da Kodak garantir em 1888, quando surgiu como marca, "carregue no botão que nós fazemos resto", Eduardo Gageiro sempre fez mais do que carregar no botão.
O COLECCIONADOR DE MÁQUINAS
Luís Santos, de 48 anos, é director financeiro de uma empresa, mas nos tempos livres procura nos sites e leilões, na internet plantados, máquinas fotográficas antigas, que restaura ("se o estrago não for muito grande") com paciência e devoção, "ajudado por uma ferramenta de joalheiro". Uma das marcas a que dedica mais atenção é precisamente a Kodak – entre as várias da sua colecção contam-se uma Kodak n.º 3 Autographic "G" de 1914, uma Kodak n.º 3-A folding Brownie de 1909 e uma Kodak n.º 3-D folding Brownie com tripé de madeira de 1904, entre outras.
A mais antiga que ‘recolheu’ foi uma Rochester Camera Mfg. Co. - Cycle Poco n.º 2 , de 1896, marca adquirida pela empresa da Kodak posteriormente. A mais cara custou-lhe 800 dólares (cerca de 600 euros) e estava a precisar de restauro. "Não cometo grandes loucuras e também não gastei nada com o objectivo de fazer negócio, é apenas por gosto. Sei que se algum dia quiser reaver o dinheiro, consigo facilmente".
NOTAS
HISTÓRIA
A Kodak sobreviveu a duas guerras mundiais, revoluções e convulsões sociais, mas não ao digital.
LUCRO
2007 foi a última vez que a Kodak deu lucro. Em 1976 tinha uma quota de 90% do mercado.
FECHO
Desde 2003 a Kodak eliminou já 47 mil postos de trabalho, encerrou 13 fábricas e 130 laboratórios de revelação.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.