Oitenta dias depois de sair do Palácio de Belém, a “licença sabática” não o impediu de aprender uma palavra nova.
Deixar de ser Presidente da República teve consequências no dia a dia de Aníbal Cavaco Silva, e algumas foram positivas. Nos 80 dias desde que deixou de ser Chefe de Estado, tem aproveitado para fazer roteiros bem diferentes daqueles que publicava no Palácio de Belém. Desta vez são roteiros gastronómicos, em que procura conhecer restaurantes, com a família e amigos, sem os constrangimentos de tempo e segurança que teve nos últimos dez anos.
Além das experiências gastronómicas, a vida pós-presidencial de Cavaco Silva já permitiu que o doutorado na Universidade de York aprendesse, aos 76 anos, uma palavra inglesa nova. Aconteceu num restaurante, quando houve quem se aproximasse e pedisse para tirar uma selfie com ele. O antigo Presidente da República acedeu depois de se inteirar daquilo que estava em causa.
Na agenda tem a próxima reunião do Conselho de Curadores da Fundação Champalimaud, no qual tem assento, como membro emérito, ao lado do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, do cientista António Damásio e da francesa Simone Veil, a sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz que foi presidente do Parlamento Europeu.
Tudo o resto é aquilo a que chama "recato". Como na terça-feira passada, poucas horas depois de ter feito um intervalo de algumas horas na "licença sabática muito restrita" a que se autoimpôs e o nº 13 da travessa do Possolo, onde vive há mais de quatro décadas, tinha a porta da rua aberta, com a pacatez da pequena artéria do bairro lisboeta da Lapa só contrabalançada pela discreta presença de um agente da PSP no átrio do edifício. A apenas 950 metros dali, Aníbal Cavaco Silva encontrava-se no gabinete que lhe foi atribuído, como a todos os outros antigos Chefes de Estado, no Convento do Sacramento, no nº 49 da rua do Sacramento a Alcântara.
Os 36 números de diferença entre a morada e o novo local de trabalho coincidem com os 36 anos que passaram desde que o professor universitário, economista do Banco de Portugal e ex-investigador da Fundação Calouste Gulbenkian aceitou o convite de Sá Carneiro para assumir a pasta das Finanças, deixando de ser ministro após a morte do primeiro-ministro e líder do seu partido, na queda de um avião em Camarate. Por outra coincidência, na segunda-feira jantou sentado à frente do homem que sucedeu a Sá Carneiro e formou um novo governo da Aliança Democrática, militante nº 1 do PSD e presidente do partido num tempo em que o termo ‘cavaquismo’ ainda não existia.
Mas Pinto Balsemão não foi o único encontro com o passado na cerimónia do 105º aniversário do ISEG, que era Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras quando o político que marcou Portugal ao longo de três décadas - que diz que irá responder "professor" no momento em que São Pedro lhe perguntar a profissão - fez a licenciatura e começou a dar aulas. Ao chegar ao edifício, com a mulher, Maria Cavaco Silva, e o amigo (e seu ex-ministro das Finanças) Eduardo Catroga, logo cumprimentou o seu ex-chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, e João Salgueiro, com quem disputou a liderança do PSD no célebre Congresso da Figueira da Foz, saindo da cidade com a rodagem do automóvel feita e a presidência do partido, que no final desse ano de 1985 levaria à vitória nas legislativas, por uma vez sem maioria absoluta, e ao início do ciclo de dez anos no poder.
CONTADOR DE ANEDOTAS
Garantindo aos jornalistas presentes na cerimónia que os tempos têm sido "muito pacatos e assim vão continuar a ser" desde 9 de março, dia em que saiu do Palácio de Belém e assistiu à posse de Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva ainda insistiu que a distinção de antigo aluno do ano do ISEG pela "carreira económica, política e social" - Luís Alves Costa foi o outro contemplado, devido à "carreira de gestor e empreendedor" - deveria ser entregue a "um economista profissionalmente ativo".
No entanto, apesar de se queixar do microfone à sua frente, o ex-primeiro-ministro e antigo Presidente da República falou para 160 pessoas, entre as quais o seu ex-conselheiro de Estado Vítor Bento e o seu ex-secretário de Estado do Comércio Externo, Miguel Horta e Costa. Não da situação portuguesa, apesar de pouco antes Catroga ter criticado quem chegou ao poder depois do "período de ouro da economia portuguesa" e recebeu uma "herança que foi sucessivamente desaproveitada nos anos seguintes", apontando a mira a António Guterres, mas sim da grega.
"A realidade acaba sempre por derrotar a ideologia", disse o antigo Presidente da República, referindo-se "ao que aconteceu na Grécia nos últimos 12 meses". Antes assumira o orgulho de ser economista, "apesar dos impropérios que se lançam". E das anedotas, embora tenha arrancado gargalhadas da plateia ao procurar demonstrar que se trata da mais velha profissão do Mundo - "‘Sem leis seria o caos’, diz o advogado, ao que o economista pergunta: ‘E quem é que acham que criou o caos?’", contou o homem que tende a ser pouco associado ao humor -, defendendo ainda que "os economistas gostam de fazer previsões pessimistas porque dessa forma ficam sempre bem na fotografia".
"Estou a violar a promessa que fiz a mim próprio de, pelo menos durante seis meses, não participar em nenhuma cerimónia pública", disse no final, terminando a intervenção com um desabafo: "Sou um felizardo. Tudo me tem corrido bem na vida".
PROJECTOS PARA O FUTURO
Com mais tempo para Maria Cavaco Silva, a mulher com quem está casado há 52 anos, para os dois filhos e para os cinco netos - a filha mais nova, Patrícia Montez, revelou em 2015 que o ainda Presidente da República dava explicações de Matemática à nova geração da família -, os que são mais próximos acreditam que Cavaco Silva continuará a ser um observador atento e interveniente na política portuguesa.
"Penso que na sua vida de antigo Presidente, e estando numa forma física estupenda e com vigor intelectual, depois de um período de recato, não deixará, como cidadão e por dever de cidadania, espaçadamente, de emitir opiniões e recomendações sobre o desenvolvimento económico, social e político", disse à ‘Domingo’ Eduardo Catroga, que recorda as intervenções de Cavaco Silva ao longo dos dez anos em que deixou de ser primeiro-ministro e perdeu as eleições presidenciais de 1996 para Jorge Sampaio, como quando escreveu sobre os desafios da moeda única ou quando "chamou a atenção para o processo de criação do ‘monstro’".
Foi esse o termo atribuído por Cavaco Silva ao crescimento da despesa pública durante os governos de António Guterres. O artigo foi publicado em 2000, um ano depois de os socialistas vencerem as legislativas pela segunda vez consecutiva, e o ex-primeiro-ministro apelava à oposição que ajudasse o ministro das Finanças, Pina Moura, a elaborar um novo Orçamento do Estado "com mais força para desembainhar a espada e cortar-lhe a camada de gordura".
Mas por enquanto, os tempos estão de tal forma pacatos que Cavaco Silva nem sequer retomou hábitos antigos no seu bairro, como a visita ao Minimercado Midões, onde Carlos Midões, que o conhece "desde ainda antes do 25 de Abril", conta voltar a conversar com o vizinho, tal como faz com Maria Cavaco Silva e com a filha Patrícia e um dos cinco netos. "São todos bons clientes", assegura o comerciante, de 72 anos.
Caso contrário, o próximo encontro poderá ser adiado até às eleições autárquicas de 2017. "A gente vota no mesmo sítio e normalmente à mesma hora. Dá para meter a conversa em dia", diz Carlos Midões, esperançado de que Cavaco Silva tenha "pelo menos mais tempo para ir ao Algarve, que ele gosta imenso".
Terá certamente, mas para Eduardo Catroga há coisas mais prioritárias do que sol e praia. "Vai ter a tarefa fundamental de continuar a sua autobiografia política. Fez sair dois volumes e com certeza vai fazer outros dois ou três com a sua análise do período em Belém. Teremos oportunidade de ficar a conhecer melhor certos factos que o interesse de Estado obrigou, na altura, a não desenvolver."
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