Há uma mulher por detrás de uma grande região de vinhos. Para quem não saiba, chama-se Clara Roque do Vale. A qualidade é a sua marca e tornou o Alentejo líder no competitivo mercado nacional dos vinhos de qualidade.
No Verão, é enquanto as vespas ainda estão frias que o camponês alentejano trabalha. Depois, quando o calor obriga à sesta e à mansidão nos hábitos diurnos, as uvas amadurecem à luz do sol. A qualidade singular dos vinhos alentejanos vem-lhe da intensidade na exposição do fruto. A diferença, no entanto, é feita também pelas castas locais. Três brancas – Roupeiro, Rabo de Ovelha e Antão Vaz – que se transformam em vinhos intensos, frutados. Três tintas – Trincadeira, Aragonez e Castelão – que criam uma bebida com aroma a frutos muito maduros mas macios ao paladar.
Única mulher num mundo de homens, quando assumiu reivindicar a demarcação do vinho da sua região de adopção, Clara Roque do Vale lutou “com unhas e dentes.” “Quando comecei, estava quase sozinha. Na parte técnica já havia mulheres a trabalhar mas não entre dirigentes. Hoje há produtoras, há muitas jovens enólogas, técnicas. Julgo que o meio do vinho está muito mais aberto às mulheres.”
Foi o “bairrismo”, porém, a barreira com a qual teve que se haver. “Foi mais difícil defender posições por ser do Alentejo e ter outras regiões contra do que por ser mulher. Eram oposições não contra a pessoa, mas contra o peso que não se queria que o Alentejo viesse a ter”, explica.
Clara é tão discreta no seu saia casaco como no olhar que esconde atrás dos óculos. É com o tom “era a pessoa certa com a energia para lutar no momento certo” que traça o seu percurso. O enólogo e produtor de vinho Luís Pato não tem, porém, pejo em elogiá-la: “A Clara foi um elemento fundamental no crescimento do Alentejo como região de vinhos de qualidade. O Alentejo deve venerá-la.”
UM LUGAR AO SOL
A verdade é que o Alentejo ganhou o protagonismo tão receado no mercado nacional dos vinhos. Mas não porque tenha inundado o mercado de vinho, o que se temia dada a sua dimensão: ocupa um terço do País. “Hoje representamos 48% a 50% do consumo do chamado “vinho de qualidade” em Portugal, ainda que a nossa produção só represente 12% a 14%”
A qualificação do vinho alentejano aconteceu numa fase que Clara diz ter sido de grande solidariedade entre produtores e técnicos. Foi depois do estatuto de Vinho de Qualidade Produzido em Região Demarcada (V.Q.P.R.D.) alcançado em 1988, e já como presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), que a agrónoma ajudou a impulsionar o crescimento necessário. “Defendi sempre que o Alentejo tinha de crescer. Infelizmente não cresceu paulatinamente. Cresceu até certa altura de forma sustentada e nos últimos anos a área de vinha disparou completamente no Alentejo.”
O resultado está à vista. O vinho alentejano atravessa uma crise na comercialização. Não passou de moda. A oferta, porém, aumentou muito, saturando o mercado nacional em plena crise económica. Agora impõe-se a internacionalização.
NA PLANÍCIE DO VINHO
Em redor de uma mesa, na cumplicidade da revelação de um vinho criado pela filha, guia-nos na prova dos vinhos Roquevale, a marca que o marido criou e que Joana Roque do Vale está a sofisticar. O sol começa a descer sobre a planície e doura as filadas de vinha, onde os cachos começam agora a crescer. Tempo de memórias.
A liberdade acabara de passar pela planície suave aos pés da Serra de Ossa quando Clara e Carlos Roque do Vale chegaram de Torres Vedras com a filha Joana para viver no Monte Branco, no Redondo. Era o tempo da Reforma Agrária e o casal vinha recuperar a propriedade das herdades ocupadas após o 25 de Abril e que António Gomes dos Santos comprara apenas em 1970.
Clara, uma das filhas do empresário, herdou o gosto deste pela vinha e terminou a licenciatura em agronomia em Lisboa, um ano após o fim da ditadura do Estado Novo. Após uma passagem curta pela então Estação Vitivinícola Nacional, o processo revolucionário ainda em curso constrangeu-a à mudança – ou os proprietários fixavam residência na região ou a terra era entregue à cooperativa local. Foi vontade partilhada pelo casal, a de mudar-se de armas e bagagens para o Alentejo. Durante meses ainda dividiram a casa do Monte com um ex-trabalhador de Gomes dos Santos mas, como o tempo, também os furores revolucionários passaram.
A terra a quem a trabalha. Era esse o desafio e aceitaram-no à sua maneira: valorizando os seus saberes e competências. Carlos Roque do Vale torna-se presidente da Adega Cooperativa do Redondo em 1979 para onde, como viticultor, vende as uvas dos então 160 hectares de vinha, distribuídos pela Herdade da Madeira e pelo Monte Branco.
Entretanto, Clara trabalhava na Brigada Técnica de Viticultura. “Nunca tinha trabalhado no campo. Aprendi muito com quem tinha mais experiência. Quando ganhei mais responsabilidade, passei a representar a região.” O seu trabalho é recompensado em 1988, quando são reconhecidas as primeiras cinco zonas vitivinícolas alentejanas como aptas para a produção de V.Q.P.R.D. Um ano depois era criada a CVRA, que, entre outras responsabilidades, passava a certificar os vinhos produzidos.
Era este o incentivo que alguns particulares, entre os quais Carlos Roque do Vale, esperavam para investir numa produção própria. Em 1989 cria a adega Roquevale e lança as marcas Terras de Xisto, Tinto da Talha e Redondo. Simultaneamente, e dado o êxito na defesa dos anseios da região, Clara Roque do Vale foi convidada a presidir à CVRA, condição em que representou o Estado durante cerca de 13 anos.“Foi um trabalho muito gratificante, o de poder acompanhar a região em termos de crescimento qualitativo. Durante essa fase cresceu-se de uma estrutura muito pequena, acompanhando as necessidades com a colaboração de todos os produtores e técnicos. Todos estavam a trabalhar para o mesmo”.
OFERTA SUPERA A PROCURA
Se o desafio de fazer bom vinho foi superado, o facto é que pelo caminho foi sacrificado o crescimento sustentado. A culpa? A moda do vinho alentejano pôs a região na mira de muitos investidores nacionais e mesmo internacionais em busca de oportunidades de negócio. “Até 2000, início de 2001, o Alentejo era uma região em que a procura era superior à oferta.” Desde então a produção de vinhos aumentou muito e a procura retraiu-se – o aumento do IVA, a redução da taxa de alcoolémia e a crise económica instalada assim o ditaram.
Defensora assumida do crescimento, Clara lamenta que tenha deixado de ser feito de forma sustentada. “Nos últimos anos a área de vinha disparou completamente no Alentejo. Se a vinha cresceu quase 25 mil hectares, as produções aumentaram para o dobro e para o triplo. Daí os problemas na comercialização. “Em 2001, afastou-se do cargo que ocupava, mantendo agora actividade como técnica na Direcção Regional de Agricultura do Alentejo. “Sai por duas razões. Achei que era tempo de dar lugar a alguém mais novo, com mais força de viver e para batalhar. Por outro lado vi que era difícil fazer um bom lugar a defender os interesses da região porque as minhas opiniões eram diferentes das da tutela. Como é que podia ser representante do Estado não concordando com o que a minha tutela pedia que defendesse?”
Ri-se, quando lhe peço que trace as perspectivas de futuro para o vinho da região. “Não acredito em adivinhos.” Aceita, porém, partilhar poucas certezas e algumas dúvidas. “O Alentejo só se consegue impor pela via da qualidade. Eventualmente pode fazer outros vinhos de menos qualidade para vender a preços de combate. Muitos dos produtores que estão instalados terão condições para continuar. Não sei o que vai acontecer aos mais recentes. Muitos deles vão ter sérias dificuldades em impor as suas marcas. Há tantas dezenas de marcas que não são conhecidas que, se calhar, destas dezenas, meia dúzia ou uma dúzia tornar-se-ão conhecidas.”
Joana Roque do Vale era uma menina pequena ainda quando viveu entre os vinhedos do Monte Branco. Agora avança com segurança pela adega criada pelo pai e ampliada já em 2003.
Depois da formação como engenheira alimentar, estudou enologia na Bélgica e estagiou na adega do Esporão. A trabalhar em adega própria desde 1994, foi acompanhada pelo enólogo Luís Duarte até 1996. Trabalha só desde então e, segundo a mãe, “tem dado conta do recado.” Na primeira campanha de Joana, a Roquevale lançou o vinho homónimo, feito ainda em colaboração com Luís Duarte, mas os monovarietais desse ano foram já da responsabilidade da jovem profissional. 2003 foi o ano da estreia do Roquevale Reserva 2000 Alentejo D.O.C. mas o seu “menino bonito”, diz orgulhosa, é o Tinto da Talha Grande Escolha 2003.
Joana assume a mais-valia que é para a Roquevale, a segunda adega do Alentejo em termos de transformação – 2 milhões de quilos e uma capacidade de transformação de 4 milhões, o que a coloca a seguir ao Esporão – que o negócio continue a ser familiar.
Se a qualidade é ponto assente como via para impor o vinho alentejano em qualquer mercado, a diferenciação através do recurso às nossas castas é a arma a brandir, com talento, no mercado internacional. A enóloga aposta na Touriga Nacional e no Aragonez para dar complexidade e força ao seu Tinto da Talha Grande Escolha e no Aragonez, Trincadeira e Alfrocheiro para dar alma ao Roquevale Reserva. “Há dez anos que vou às feiras e provas no estrangeiro e parece-me que é por aí que temos de ir.”
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