As comemorações oficiais do 1.º de Maio marcaram o confronto entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. PS organiza manifestações em Lisboa contra o “avanço comunista”.
A imagem de Mário Soares a abraçar Álvaro Cunhal, em 30 de Abril de 1974, quando o foi esperar ao Aeroporto de Lisboa de regresso do exílio, nunca mais se repetiu. Os dois homens depressa voltaram costas. Ainda tentaram um breve encontro, em meados de Março de 1975. Mas o secretário-geral do PCP não deixou margem para qualquer dúvida: o caminho do Partido Socialista é ao lado do PCP pela revolução - de outro modo, os socialistas seriam esmagados. Soares, se alguma dúvida lhe restava, ficou esclarecido sobre os planos de Cunhal, mas resistiu em considerar o Partido Comunista como o principal inimigo. Apenas nas comemorações de 1 de Maio de 1975 os socialistas escolheram o caminho do confronto.
Quando já não havia a menor dúvida sobre o vencedor das eleições de 25 de Abril de 1975, Mário Soares, líder do partido vitorioso, foi empurrado para um confronto aberto com o Governo chefiado por Vasco Gonçalves e com o PCP. Entre os partidos mais votados (PS e PPD) uma forte corrente ganhou fôlego: exigia-se que o resultado das eleições tivesse consequências na composição do Executivo - e Mário Soares estava na melhor posição para travar esse combate.
O País resvalava para a guerra civil. Alguns dirigentes socialistas admitiam formar milícias armadas e partir para a luta. Mário Soares, porém, percebeu o perigo. Mal os resultados eleitorais provisórios foram conhecidos, ainda na madrugada de 26 de Abril, pôs água na fervura: não há razões para reivindicar a mudança de Governo e de primeiro--ministro - disse ele. Repetiu avisadamente a frase nos dias seguintes e assim conseguiu aplacar as tensões que fervilhavam nos dois lados.
Mário Soares, com o apurado faro com que nasceu para a política, sabia que o Partido Comunista não iria recuar. Qualquer movimento menos avisado, em falso, teria o mesmo efeito que uma fogueira num paiol de pólvora. Depois das eleições, em vez de seguir a via do confronto para onde o empurravam, Soares não se atreveu a reivindicar um novo primeiro-ministro: apenas exigiu pluralismo. O Governo, entretanto, acelerava a fundo e em grande velocidade na via para o socialismo: alargava as nacionalizações, estendia a reforma agrária e as ocupações de terras.
O Partido Socialista continuava a fazer parte do IV Governo Provisório, com três ministros: Almeida Santos (coordenação Interterritorial); Salgado Zenha (Justiça); e Mário Soares (sem pasta). Mas a coligação estava presa por um frágil fio. Aproximavam-se as comemorações do 1.º de Maio - festa promovida oficialmente pela Intersindical, com o apoio do Governo e do MFA, aberta aos partidos. O PS, que já tinha aberto uma frente de batalha contra a unicidade sindical, não quis misturar-se com os comunistas: organizou um encontro na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa - e daqui os socialistas haviam de partir em manifestação, com Mário Soares e Salgado Zenha à cabeça, em direcção ao Estádio Primeiro de Maio, na Avenida Rio de Janeiro, onde decorriam as comemorações oficiais.
O cortejo socialista encontrou os portões do estádio fechados: estava cheio e não cabia mais gente. Soares, Zenha, Manuel Alegre, Tito de Morais, Lopes Cardoso, entre os mais conhecidos dirigentes socialistas, forçaram a entrada empurrados pelos manifestantes que os seguiam desde a Alameda - e entraram de roldão. A tribuna já estava repleta: o Presidente da República, Costa Gomes, o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, o ministro do Trabalho, Costa Martins, militares do Conselho da Revolução, dirigentes do PCP e da Intersindical. Os discursos iam começar quando o Estádio Primeiro de Maio foi invadido pelo PS. A RTP estava no ar em directo - e o País assistiu pela televisão à primeira grande confrontação de rua entre socialistas e comunistas após as eleições para a Assembleia Constituinte.
A manifestação socialista abre caminho aos empurrões e atravessa o relvado do estádio. Soares vai à frente, rodeado por um cordão de segurança. Alguém tenta esfaqueá-lo pelas costas - vê-se pela televisão. O líder do PS nem sequer se apercebe da tentativa de agressão. Soares e Zenha, ambos ministros do Governo, chegam finalmente à tribuna - mas foram impedidos de subir por militantes do PCP, que lhes chamaram “traidores da classe operária”. Os socialistas deram meia volta e abandonaram o recinto: saíram em manifestação pela Avenida Rio de Janeiro, tomaram a Avenida de Roma e desceram até à Praça de Londres.
Não usaram da palavra nas comemorações oficiais de 1 de Maio, mas conseguiram estragar a festa ao Governo, ao Partido Comunista e à Intersindical.
A REVOLUÇÃO DIA A DIA
1 de Maio - Socialistas manifestam-se na festa comemorativa do 1.º de Maio, em Lisboa: Mário Soares e Salgado Zenha são impedidos pelo PCP de subir à tribuna, onde se encontravam o primeiro-ministro, Vasco Gonçalves e o Presidente da República, general Costa Gomes; Sai o primeiro número de ‘O Jornal’, dirigido por Joaquim Letria.
4 de Maio - manifestação do partido Socialista em Portalegre, no Alentejo, contra a Intersindical.
5 de Maio - Mário Soares e Álvaro Cunhal encontram-se na sede do PCP, na Rua António Enes, em Lisboa; É oficialmente constituído o MDLP, Movimento Democrático de Libertação de Portugal, grupo clandestino de inspiração spinolista que se propunha travar o ‘avanço comunista’ à bomba e a tiro.
6 de Maio - Comício do PPD, no Estádio 1.º de Maio, em Lisboa.
Vasco Gonçalves, coronel da arma de Engenharia, esteve no poder, à frente de quatro governos provisórios, de 18 de Julho de 74 a Setembro de 1975. Foi escolhido para primeiro-ministro após a queda do I Governo, ainda o general Spínola era Presidente da República: agradava à esquerda e à direita. Mas Vasco Gonçalves acabou por se colar ao PCP. Quando abandonou de vez o poder, apenas os comunistas o apoiavam. Até a extrema-esquerda militar, liderada por Otelo Saraiva de Carvalho, lhe jurava pela pele - acusava-o de não ter feito tudo pela revolução.
PRESIDENTE DA REPÚBLICA PÔS ÁGUA NA FERVURA
Na festa comemorativa do 1.º de Maio, em 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves afinou pelo diapasão do Partido Comunista e da Intersindical: falou incansavelmente da revolução, do caminho para o socialismo, do Movimento das Forças Armadas, da reforma agrária, das nacionalizações. Enquanto o chefe do Governo aclamava inflamado as massas populares, o Presidente da República, general Costa Gomes, dedicava grande parte do seu discurso ao significado político das eleições de 25 de Abril, uma semana antes, que deram a vitória aos socialistas. O PS, talvez embalado pelas palavras moderadas de Costa Gomes, nos dias que se seguiram organizou várias manifestações em Lisboa - todas com o mesmo mote: um novo Governo. Ainda admitiam a continuação de Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, mas exigiam maior representação num novo Executivo.
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