Fomos atacar uma base deles. mexemos no vespeiro e levámos ferroada ao ponto de termos tantos mortos como em Omar: sete em cada lado.
Estava a frequentar o 3º ano na Faculdade de Direito de Lisboa e não requeri o adiamento em 1969. A maioria dos meus amigos já tinha estado na guerra, pelo que comecei a sentir-me envergonhado. Fui logo chamado. Em janeiro de 1970, comecei o curso de oficiais milicianos em Mafra e daí segui para Chaves, onde estava a ser formado o Batalhão de Caçadores 3834, incluindo a Companhia de Caçadores 3310, da qual fui alferes. A 24 de janeiro de 1971, tinha quase 25 anos, partimos no ‘Niassa', em condições deploráveis. Nunca me esquecerei de ter visto um lago de vómito no porão, onde os soldados dormiam em beliches. Quando chegámos a Lourenço Marques, recebemos as armas, e um grupo de integração, praticamente só com soldados negros. Cheguei à conclusão de que não tinham preparação para combate, pois disparavam com as armas por cima da cabeça.
Fomos ocupar a antiga base da Frelimo em Omar, que fora tomada pelo nosso exército na operação ‘Nó Górdio'. Ficava num morro, a seis quilómetros da Tanzânia, e era o principal canal de infiltração do terrorismo. Atravessavam o rio Rovuma e subiam uma escarpa para o planalto dos Macondes.
Não gostavam nada que invadíssemos o território deles e davam-nos um comité de despedidas com balas e granadas. Mas praticamente não tivemos baixas em operações no mato - e sim em emboscadas nas picadas. Numa, com quatro minas comandadas à distância, fiquei quase sem efetivos. Aquilo era uma autoestrada do terrorismo. Também atacaram a zona onde íamos buscar água e mataram dois ou três dos nossos. Mesmo assim, a pontaria deles era muito má. Se estivéssemos no lugar deles, teríamos feito 100 vezes mais estragos.
EMBOSCADAS FATAIS
A segunda metade da comissão foi em Toma do Nairoto. Era supostamente uma zona sossegada, mas logo no início fomos atacar uma base deles. Mexemos no vespeiro e levámos ferroada ao ponto de termos tantos mortos como em Omar: sete em cada lado.
Sofremos um ataque muito grande a uma coluna simplificada, só com uma Berliet e uma Unimog, que ia buscar correio e alimentos frescos a Luma, em que morreram dois soldados do meu grupo. Fazíamos aquilo com tranquilidade, pois nunca tinha acontecido nada. Eu estava em Toma do Nairoto sem saber deles e, quando fui à procura, encontrei um triste espetáculo: os veículos furados de balas, um morto e outro a agonizar. O resto dos soldados, as armas e o rádio não estavam lá. Pensei que os tinham levado ou matado a todos e reboquei a Unimog, com os pneus desfeitos. Mais para a frente, a caminho de Luma, encontrei a coluna que vinha de lá e os nossos, aflitos, com as armas e o rádio às costas.
Voltei em março de 1973, de avião, mas antes disso, já perto do final da comissão, estava em Luma, a comandar o destacamento, e quis construir um quartel simplificado, pois ficávamos numa espécie de aldeia africana, sem condições. Quem lá estava a fazer os adobes disse que não conseguia montar a cozinha. No entanto, em Toma do Nairoto estava o Joaquim Gonçalves. Era o básico da companhia, mas ficava acima da maioria dos soldados em esperteza. Queria que ele viesse, mas era muito receoso e recusava-se. Já irritado, disse-lhe que tinha de ser. Lá foi, na última Unimog da coluna, cheio de medo, e foi essa que fez rebentar a mina. Morreu. Tenho de viver com isso. A Companhia de Caçadores 3310 sofreu por todo o batalhão.
José António de Albuquerque Dias
Comissão
Moçambique, de 1971 a 1973
Força
Companhia de Caçadores 3310
Atualidade
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