Perder a virgindade aos 13 pode acontecer mas, de uma maneira geral, não é verdade que a primeira relação sexual ocorra cada vez mais cedo.
Ao contrário do que se pensa – ou parece que se pensa, a ponto de ser dito – não é verdade que a idade da primeira relação sexual seja cada vez mas precoce. O facto de os adolescentes falarem com maior à-vontade, e até alguma displicência, sobre sexo não significa que o pratiquem. Pelo menos tão cedo como se julga.
O ‘mito’ veio abaixo após a publicação, na revista médica britânica ‘The Lancet’, do primeiro estudo global sobre comportamento sexual. Ficou claro que, praticamente em toda a parte, homens e mulheres têm as suas primeiras experiências sexuais entre os 15 e os 19 anos, eles antes delas.
Em Portugal, o último estudo abrangente, do Instituto Nacional de Estatística, é de 1997. Os dados indicam que, em média, as raparigas perdem a virgindade entre os 20 e os 22 anos e os rapazes entre os 17 e 18. Permitem também concluir que os indivíduos mais novos usaram mais cedo o preservativo do que os mais velhos, embora raramente logo na primeira vez.
PERDER A VIRGINDADE
“Perdi a minha virgindade aos 10 anos”, assegura o João, que agora tem 14 e frequenta o 8.º ano numa escola secundária com terceiro ciclo da capital. “Foi com a mão?”, brinca a Inês, colega dele. O rapaz contradiz-se: “Eu ainda sou virgem.” Não há sinal de inibição nas palavras, mas nem por isso é possível avaliar qual das afirmações, de sinal contrário, do ‘vivido’ João é verdadeira. Também Sara, de 13 anos, assume, ali, diante dos colegas, manter relações sexuais regulares com o namorado. “Sempre com o preservativo.”
Sara e João desconhecem o estudo ‘A Saúde dos Adolescentes Portugueses’, realizado em 2002, no âmbito do projecto Aventura Social da Faculdade de Motricidade Humana, mas, de algum modo, devem estar lá representados.
Dos 3762 inquiridos – alunos do 8.º e 10.º anos – 76,3 por cento confessou não ter tido ainda relações sexuais, mas mais de metade disse acreditar que os colegas já haviam experimentado. Ou seja, anda à solta, nos pátios das escolas (e não só) alguma gabarolice, já não exclusiva dos rapazes.
Há no filme ‘Beleza Americana’, do realizador luso-americano Sam Mendes, uma personagem, ‘Angela’, que dá ares de ‘rapariga experiente’ diante da paixão que por ela nutre ‘Lester’ (Kevin Spacey) até descobrir-se que é, de facto, virgem.
O que está em causa é a inversão de um paradigma: deixou de simular-se a virgindade feminina; o que se representa agora é a experiência sexual precoce. Hoje, na escola da Sara e do João, popularidade não rima com virgindade. Os alunos populares têm pelo menos a ‘aura’ associada à vivência sexual. Mesmo se, muitas vezes, são ‘mais as vozes do que as nozes’.
ESTUDO
O hiato entre as ‘vozes’ e as ‘nozes’ permanece entre os alunos que frequentam o ensino secundário – 10.º, 11.º e 12.º anos. Eis mais um inquérito, desta vez da Aids Portugal, para demonstrá-lo: em 1251 estudantes, com idades entre os 15 e os 19 anos, mais de 67 por cento admitiu não ter tido ainda relações sexuais. O estudo, embora de amostra reduzida, é de 2005.
‘Vá lá! Toda a gente faz!’ Numa mensagem especificamente dirigida aos jovens, a Associação para o Planeamento da Família sustenta: “A velha frase é um truque. Não te deixes enganar. É verdade que cerca de metade dos jovens tem relações sexuais. Mas também é verdade que cerca de metade não tem. E muitos dos que tiveram relações sexuais, não o queriam realmente – deixaram-se convencer.”
Dos que responderam ao inquérito do projecto Aventura Social, 61 por cento disse que os adolescentes perdem a virgindade porque querem experimentar, 56,1 por cento porque estão muito apaixonados e 45 porque namoram há muito tempo. Evitar que o parceiro se zangue é razão suficiente para 26,3 por cento dos inquiridos.
INÍCIO DA VIDA SEXUAL NAS GERAÇÕES
“Da geração dos pais para a dos filhos não houve grande diferença no que respeita ao momento da primeira relação sexual”, acredita Nuno Nodin, psicólogo com especialização na área da Sexualidade, mostrando-se convencido de que a média de idades para o início da vida sexual mantém-se entre os 17 e os 18 anos. “Não me parece que a sexualidade na adolescência seja muito significativa.”
O que mudou, isso sim, foi o acesso à informação, incluindo a conteúdos sexualmente explícitos, através da internet e dos canais de TV por cabo. O que mudou também, prossegue, foi a relação entre os sexos, de tal maneira que, actualmente, “há cada vez mais rapazes que procuram um compromisso e cada vez mais raparigas que querem sexo sem compromisso.”
Por enquanto, a Carolina, 18 anos, não apetece nem um nem outro. “E então? Não sou normal?”, questiona, com a ironia a esconder o sofrimento. “Eu marquei um limite. Era suposto ter perdido a virgindade aos 17 anos, antes de entrar para a Faculdade. Na altura combinei tudo com o rapaz e depois, quando cheguei a casa dele – os pais tinham ido de férias – não consegui fazer nada.” Mas, às amigas, não conta ela esta história.
OS SOLTEIROS E OS CASADOS
O estudo publicado na ‘The Lancet’ – a parte que mais celeuma causou em Portugal relaciona-se com as consequências do aborto clandestino – não acaba apenas com o ‘mito’ acerca do início cada vez mais precoce da vida sexual. Também a ideia de que os solteiros têm mais sexo do que os casados caiu por terra após a publicação daquela série de artigos. Os investigadores do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Londres garantem que grande parte do sexo que se faz, mesmo se rotineiro e aborrecido, é entre pessoas casadas e não ao contrário. Outro preconceito arruinado é o da preponderância da troca de parceiros na transmissão de doenças. Muito mais importante é a pobreza e a desigualdade entre os sexos.
- 17 e 18 ANOS: Idade média da primeira relação sexual dos rapazes, segundo um estudo do INE.
- 20 a 22 ANOS: Idade média da primeira relação sexual das raparigas portuguesas.
- 67%: Percentagem, entre 1251 alunos do 10.º, 11.º e 12.º anos, que disse ser virgem.
- 76,3%: Percentagem, entre 3762 inquiridos do 8.º e 10.º anos, que disse ser virgem.
Cada um é como cada qual. O mais importante é decidir em função do que se sente e não do que sentem os outros por nós. Na adolescência e depois.
PRECOCIDADE
Que razões podem levar um adolescente a ter relações sexuais antes de sentir-se preparado? Muitas, entre as quais ser mais popular, tentar curar a solidão ou a infelicidade, descobrir o ‘fogo-de-artifício’ que a televisão, os filmes e as revistas mostram e provar que não é homossexual ou lésbica.
HONESTIDADE
O conselho é da Associação para o Planeamento Familiar: “Diz o que realmente sentes quando tu e o teu(tua) amigo(a) falarem de sexo. Os teus amigos podem ser envergonhados. Ou sentirem que devem ser ‘fixes’. Pode ser mais difícil ser ‘honesto’ com alguém de quem gostas especialmente.”
DIZER NÃO
Um adolescente que não se sinta preparado para fazer sexo deve saber que está certo dizer “não”. Não precisa de explicar-se, mas, se sentir necessidade disso, pode dizer que decidiu esperar ou que não está preparado para se envolver já. Ajuda praticar sozinho antes de dizê-lo a outros.
PEDIR AJUDA
Em caso de confusão, o adolescente que não se sinta capaz de falar com os pais, pode recorrer ao centro de saúde, centros de atendimento de adolescentes e consultas de planeamento familiar, bem como ligar 800 222 002 (Sexualidade em Linha) ou 800 202 484 (SOS Adolescente).
VIRGENS SUICIDAS (a opinião da jornalista Dulce Garcia)
Sou da geração em que as raparigas começaram a desconfiar da virgindade. As raparigas normais, bem entendido, não esse grupo esclarecido que apanhou trejeitos do Maio de 68, enquanto por cá, a única coisa que se aproximava do amor livre, era fugir com o amante para Espanha. Em meados dos anos 80, no pleno da minha adolescência, fartei-me de ouvir discussões sobre a inutilidade daquele bocadinho de pele chamado hímen, hoje reconstruído por 1000 euros em qualquer clínica de cirurgia plástica. Já então se questionava a sua prepotência sobre a honra feminina e a relação doentia que mantinha com o amor.
Como a ideia do “e foram felizes para sempre” entrou em crise – somos o produto de uma geração que começou a falar de divórcio à mesa do jantar – as dúvidas infiltraram-se: Ao fim de quanto tempo de namoro devíamos entregar-nos a um rapaz? (Sempre foi disso que se tratou, de entrega, quando a questão deles se prendia com a conquista de um território). E será que depois de nos abandonarmos não passaríamos a ser mais uma, entre tantas? As facções dividiam-se, as respostas roçavam o caricato e as mães e avós continuavam a fazer os enxovais de linho branco à espera da marcha nupcial.
Nas garagens e bailes o progresso ia fazendo os seus estragos: beijos, abraços e a descoberta de corpos debaixo das camisolas de lã. Os intervalos do liceu serviam para contar as aventuras com a cara ruborizada. A pouco e pouco, o preconceito deslocava o seu tentáculo de um lado para o outro: a vergonha deixou de poisar sobre as que se rendiam aos prazeres, para assentar, de chofre, na cabeça das virgens.
Suprema maldição, ninguém queria fazer parte do grupo das intocáveis. Mentia-se, fantasiava-se, antecipava-se a hora que havia de chegar, e que nunca seria tão cor-de-rosa como aquilo que se pintou. Vinte anos depois, o sociólogo Francesco Alberoni ajuda a contar a história desta revolução de mentalidades. “As raparigas de 13, 14 anos, começam a ter relações sexuais não necessariamente por amor. Primeiro vão para a cama com o rapaz. Depois decidem se gostam dele ou não. Dantes, se não gostavam de uma pessoa não iam para a cama com ela.”
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