Na próxima quarta-feira, dia 19, celebra-se o Dia do Pai. Fomos à procura de pessoas que não cresceram com o seu pai biológico mas encontraram essa figura num padrasto, irmão, tio, avó, patrão ou, até, psicanalista...
“O meu pai abandonou--me quando eu tinha apenas seis meses. A minha mãe conta que isso aconteceu de forma violenta pois, uma noite, ficámos os dois na escuridão das escadas do prédio onde viviamos, porque ele tinha trocado a fechadura da porta”. É desta forma algo fria, mas sofrida, que Augusto Medeiros começa por falar sobre a forma abrupta como o lar onde vivia foi desfeito. O pai tinha arranjado outra mulher e disse adeus à família antiga num repente, sem querer saber mais da mulher e do filho. Criado até aos 12 anos pelos padrinhos, sentiu durante muito tempo a ausência de uma figura masculina que o acompanhasse nas actividades que qualquer miúdo gosta de executar. O padrinho era uma pessoa de idade, com problemas de saúde, e Augusto não conseguia manter com ele determinado tipo de conversas, nomeadamente em termos de sexualidade. “Não dava para falar sobre determinados assuntos. Por ignorância ou tabu, era impossível ter uma conversa sobre esse tema”, recorda.
Talvez por isso, e sabendo que uma fase tão importante estava a ser vivida de forma amputada, tentou morar com o pai. Mas a ideia não chegou à prática. “Ia a casa dele aos fins-de-semana mas, sem saber porquê, sempre fui mal tratado pela minha madrasta, que me chegou a bater”.
Apesar disso, nem tudo foi mau. A recompensa pela qual tanto ansiava chegou por intermédio do padrasto, João Manuel Paiva, que o acolheu como se fosse seu filho. “Fui com ele e com minha mãe para o Canadá. Ele sustentou-me e nunca fez qualquer diferença entre mim e um irmão nascido depois”, relembra, classificando--o como “bom conselheiro e um tipo impecável”, alguém que o tentou guiar da melhor forma, mesmo quando não quis ouvir esses sábio conselhos. Hoje, em termos de afectos, não tem dúvidas: “Para mim, a pessoa que me criou e me tratou bem é que é meu pai, não quem nunca me ligou. Eu e o João temos uma relação cinco estrelas. Afinal, para ele sou como um filho. E isso é que é importante.”
“O MEU PAI FOI O PSICANALISTA”
Maria João tem 36 anos e desde pequena que se habituou a viver só com a mãe. Não tem irmãos, tios ou padrinho.
Aos 19 anos e, após uma adolescência perturbada pela ausência da figura paterna, rumou a Lisboa e resolveu cuidar de si. “Fui aconselhada por um médico a fazer psicanálise”, recorda. Aos poucos, o especialista tornou-se no melhor amigo. “Eu visitava-o quase todos os dias e ele ajudou-me a vencer as minhas inseguranças e a conhecer-me melhor”, conta.
Esta curiosa relação entre um médico e paciente extravasou o plano profissional e transformou-se numa grande amizade: “Ele e a mulher convidavam-me para passar o Natal, o Fim de Ano e a Páscoa com eles. Sabiam que a minha mãe estava a trabalhar e que eu estaria sozinha”, revela Maria João.
A psicanálise durou até aos seus 33 anos, altura em que começou a visitar com menos regularidade aquele que adoptou como ‘pai’. Ainda assim, mantém contacto regular com o médico – de vez em quando, almoça com ele ou visita-o no seu consultório.
“Ele transmitiu-me segurança e ajudou-me a encontrar a minha estabilidade emocional. Tentou dar-me o afecto e o carinho que o meu pai nunca me deu”, sublinha Maria João. E vai mais longe: “Não tenho dúvidas de que me transmitiu muitos valores, daqueles que um pai transmite a uma filha”. O ‘pai’ de Maria João só não assistiu ao seu casamento porque, na altura, estava num congresso fora do País.
UM PATRÃO EXEMPLAR
Joaquim Amaral, de 72 anos, deixou a terra natal, São Pedro do Sul, aos 12 anos, quando o pai o levou para a Atalaia, na Margem Sul do Tejo, onde o esperava um emprego num estabelecimento comercial – meio taberna, meio mercearia. “Lembro-me da viagem que fizemos juntos, que naquela altura era uma verdadeira odisseia, e de ele me ter largado lá. Fiquei totalmente à minha mercê, com a responsabilidade de trabalhar para ganhar dinheiro”.
Foi essa necessidade de sustento, num País na altura muito pobre, que o obrigou a abandonar a família e a seguir sozinho o seu rumo. O apoio paternal, esse, só o encontrou junto de outro patrão, após cinco anos difíceis. “Na Atalaia, o dono da loja aparecia poucas vezes. E como acontecia, volta não volta, estar meio toldado, foi sempre uma pessoa distante”, conta.
No Montijo, onde se estabeleceu depois, passou por uma das melhores fases da sua vida, sob a guarda de um homem que foi um pai autêntico. Tinha 18 anos. “Vim trabalhar para a mercearia do Gabriel Domingos do Carmo, que além de ser meu patrão me dava casa e alimentação. Foi com ele que aprendi o negócio e tudo o que sei hoje”, conta. Gabriel era, de resto, um dos comerciantes mais respeitados da região, e tinha por hábito dar abrigo a muitos dos seus funcionários. “Foi um pai não só para mim mas também para todos os que lá trabalhavam nas mesmas circunstâncias. Aquilo era uma escola”, recorda Joaquim, com saudade, referindo que via nele “uma pessoa disciplinadora e metódica, com comportamento profissional e ao mesmo tempo flexível, que quando acabava o período laboral se transformava em amizade”.
Durante 11 anos a vida correu dessa forma, sendo apenas interrompida pelo desejo de Joaquim em ter o seu próprio negócio. “Quando decidi abrir a minha mercearia lembro-me de que o Gabriel me disse ter as portas abertas para o meu regresso, caso algo corresse mal. Foi um motivo de grande orgulho”. Actualmente, aos 72 anos, pai de uma filha e dono da Mercearia Portugália, diz ter passado por momentos de muitas saudades da família, que via de tempos a tempos, e de ter chegado tarde ao funeral do verdadeiro pai. “Como a viagem era grande, cheguei lá e ele já tinha sido enterrado. Foi traumático, até porque guardo dele a imagem com a farda dos correios, saudável e cheio de vida. Nunca o vi doente, e talvez por isso o choque tenha sido maior”. Sobre a infância, Joaquim Amaral revela apenas que gostava de ter estado mais próximo dos seus, e de ter menos responsabilidades. “Mas isso não foi possível. É a vida”.
“SÓ ME LEMBRO DO MEU PADRASTO”
“Quando os meus pais se separaram, eu tinha um ano e a minha irmã quatro”, começa por contar Verónica, prosseguindo: “Eu teria uns dois anos quando a minha mãe casou com o Armando, por isso, desde que me conheço, só me lembro de viver com ele”. De entre os vários momentos que passou com o padrasto, recorda alguns muito especiais: “Eu respeitava-o como se respeita um pai. Lembro-me perfeitamente de ser miúda, da minha mãe andar a estudar à noite e de ser o Armando que fazia o jantar para nós, ajudava nos trabalhos de casa, jantava connosco e passava os serões comigo e com a minha irmã”.
Para esta jovem, não existem dúvidas em relação ao padrasto. “Foi ele que nos educou”. Verónica tinha 17 anos e a irmã 21 quando a mãe e o padrasto se separaram. “Mas, depois disso, continuámos a manter o contacto, ele ia-nos buscar de vez em quando, a mim e à minha irmã, para jantarmos, telefonava para saber de nós, e nunca se esqueceu de nenhuma data importante”. Volvidos alguns anos, a relação não se modificou. “Hoje em dia, ele vive no Porto e raramente vem a Lisboa. Mas falamos regularmente ao telefone”, conta.
E onde está o verdadeiro pai das duas jovens? “Vive na Suiça há mais de 20 anos, é casado e tem dois filhos – nossos meios-irmãos – mais novos. Antigamente, quando estudávamos, passavamos férias com ele. Agora, como trabalhamos, tentamos visitá-lo quando as agendas permitem”, revela. Para rematar: “Mas é lógico que o papel de pai foi inteiramente desempenhado pelo Armando”.
‘A MÃO DO PAI É DIFERENTE’
Aos 40 anos, Luís Andrade olha para o passado sem nostalgia e recorda a infância, em especial os tempos difíceis da escola primária, quando a partir da quarta classe sentiu de forma mais intensa a ausência de um pai biológico: “Quando comecei a crescer apercebi-me de que os outros miúdos passavam por situações que eu não vivia. O meu pai não me levava aos jogos de futebol, não me ia buscar à escola, e faltavam--me uma série de histórias que normalmente povoam o universo infantil”. Refém de um Bilhete de Identidade onde a inscrição ‘pai incógnito’ era evidente – embora soubesse que ele tinha morrido num acidente de viação antes do seu nascimento – Luís passou por alguns momentos embaraçosos e por uma fase traumática, da qual ainda hoje se recorda. “O maior choque aconteceu quando tirei pela primeira vez o BI e apareceu lá que não sabiam quem era o meu pai. Isso aconteceu porque os meus pais se casaram pelo civil, em Moçambique, e como o padre não tinha o registo, fiquei marcado como não tendo pai”, recorda, magoado. O avô, João, que sempre o tratou da melhor forma – dando-lhe uma educação religiosa, cheia de disciplina e rigor – tentou compensar a falta mas existiam várias diferenças, principalmente devido ao fosso de gerações. E havia também a questão física. “Um filho agarra na mão do pai e não sente o mesmo quando agarra a do avô. Há ali uma marca do tempo, uma barreira que é difícil de ultrapassar, até porque a figura do pai que brinca connosco foi destroçada pelo facto do meu avô não ter tanto à-vontade e disponibilidade para, por exemplo, poder andar a correr comigo ou fazer qualquer tipo de actividade desportiva”, lembra.
A vivência deste empresário só foi alterada aos 17 anos, quando voltou a morar com a mãe, Florinda Lino, a qual tantas vezes questionou sobre o perfil do pai. “Tentei construir uma imagem dele feita de fotografias e histórias que me contavam, mas o acidente marcou toda a gente e sempre esbarrei num muro de silêncio. Contudo, tenho-o como uma pessoa divertida, sempre brincalhona, refinada e amiga do seu amigo”.
Curiosamente, ou talvez não, é assim que Luís se define. E explica porquê: “Mesmo sem ter vivido com ele, creio que essa parte ganhou ao lado mais sério e bem comportado do meu avô”.
IRMÃOS MAIS VELHOS
Não sei quem é o meu pai e já perdi a curiosidade em conhecê--lo”, afirma Maria, 29 anos, casada e com um filho ainda pequeno.
“A minha mãe viveu muitos anos em Moçambique, casou-se, teve filhos, separou-se e, na altura do 25 de Abril, toda a família materna regressou a Portugal”, recorda. “Portanto, eu nasci lá, mas a identidade do meu pai sempre foi uma incógnita para mim”, acrescenta.
Maria tem dois irmãos mais velhos e sabe que o pai deles (o primeiro marido da mãe) e o pai dela não são a mesma pessoa. “Cresci apoiada pelos meus irmãos mais velhos, pelos meus dois tios (irmãos da mãe) e pelo meu avô. Era a menina da família”, confessa. Na adolescência, quis saber quem era o pai e até decidiu ir à sua procura. Mas acabou por desistir dessa ideia. “Ninguém na minha família me dava pistas, e a minha mãe sempre me disse que ele possivelmente já teria morrido”, afirma.
Aos poucos, o desejo de conhecer o pai foi-se esbatendo: “Os meus dois irmãos foram o pai que nunca conheci. Eles alternavam entre si e iam às reuniões de pais, às festas... No fim, eram os meus tutores porque a minha mãe estava sempre a trabalhar”, conta. E prossegue: “Quando comecei a sair à noite, eram eles que me iam buscar às discotecas”.
O tempo foi passando e Maria casou e teve um filho: “Sinto que tive dois pais! Quando casei, o meu irmão mais velho levou-me ao altar e foi meu padrinho.
O outro é padrinho do meu filho”, revela, orgulhosa. Aos 29 anos, sem mágoas, não hesita em afirmar que “já passou o tempo” de conhecer o seu verdadeiro pai. “Para mim, os meus dois pais foram e sempre serão os meus irmãos mais velhos”.
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