Sátira à hipocrisia da sociedade portuguesa... em todos os regimes.
José Alfredo de Vilhena Rodrigues (1927-2015) nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo, fez o liceu em Lisboa e chegou ao 4º ano de Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Publicou as primeiras caricaturas no ‘Diário de Lisboa’ e em 1955 passou a colaborar na revista ‘O Mundo Ri’. Os seus dois primeiros livros, ‘Este Mundo e o Outro’ e ‘Pascoal’ são coletâneas de cartunes, mas a partir de ‘Manual de Etiqueta’ (1960) o texto passa a dominar.
A sua ‘marca registada’ foi sempre o traço inconfundível com que desenhava o contorno das ancas, pernas e seios libidinosos das suas protagonistas, em contraste com as beatas macilentas ou as verrugas nos narizes dos velhos lascivos. Publicou mais de 70 livros, com títulos tão sugestivos como ‘História Universal da Pulhice Humana’; ‘A Grande Tourada’; ‘Criada para todo o Çerviço’ (reeditado em 2000 como ‘Criada para todo o Serviço’); ‘O Filho da Mãe’; ‘A Vaca Borralheira’; ‘Escória Trágico-Marítima’, ‘Os Palitos’ ou ‘Sexo, Mentiras e Televisão’.
O seu humor cáustico denunciou a hipocrisia da sociedade portuguesa nos sucessivos regimes políticos, do salazarismo à democracia. Não poupava nada nem ninguém: igreja, políticos e militares eram os seus alvos favoritos. A censura não lhe deu perdoou – e ele nunca lhe deu tréguas.
Lançou ainda sete revistas e um jornal, com destaque para ‘Gaiola Aberta’, que marcou o período pós-25 de abril de 1974, ‘O Fala-Barato’, ‘O Cavaco’ e ‘O Moralista’.
Do livro ‘Criada para Todo o Serviço’, JVL Edições
"(...) E então a minha patroa (...) é tão meiguinha comigo, que não tenho coragem para lhe negar seja o que for e, às vezes, até me esqueço que a gente está a fazer coisas que não devia. (…) Outra coisa engraçada é que o senhor engenheiro fala-me muito bem, dá-me beliscões diante da senhora e tudo e ainda noutro dia me disse que há de gastar umas películas comigo que eu devo ser muito fotogénica. (…) Mas o mais bestial é que amanhã vou ao cabeleireiro arranjar o cabelo e as unhas para uma festa que os patrões dão à noite e já ficou combinado que eu apareço na sala por volta da uma e meia, que é quando aquilo começa a aquecer, só com um véu transparente… mas a senhora já me explicou que não tivesse vergonha, que toda a gente se despia, tanto ela como as amigas, que ainda deviam estar mais destapadas que eu, de forma que não me ralo e até estou morta que chegue a altura.
(…) Despiram-me toda, apalparam-me, fizeram-me cócegas, meteram o nariz onde lhes apeteceu e depois mandaram-me correr, levantar as pernas, pôr as mãos no chão e o traseiro para cima e isto tudo sem nada em cima do pelo… nadíssima! Mas parece que causei boa impressão. Para começar, o tipo quis dormir comigo nessa noite porque, segundo me explicou, é na cama que costuma assinar os contratos (…)"
Do livro ‘As Noites Quentes do Cruzado D. Egas’, Edição do autor
"(...) a Urraca era o que se diz uma cambalhota de luxo (…). E, ao D. Egas, a coisa sabia-lhe duplamente bem, ali nas calmas, descontraído, embalado pelas vagas… e principalmente livre de que fossem meter intrigas nos cornos da D. Mafalda, a sua nobre e devotada esposa. (…) Enfim, logo se veria, mas para já e antes que chegasse a hora de desatar à charutada aos turcos, tratava era de gozar à tripa forra e de acometer com denodo aquela fofa coisinha que o seu compadre D. Hugo (emérito conhecedor das grandezas e misérias da carne) lhe enviara directamente do seu serralho de Cabeceiras de Basto.
(…) o facto é que a imagem da Mafalda, uma trintona de boa pinta e ainda em muito bom uso, não lhe saía da cachola… apesar de estar ali deitado com uma miúda de dezassete viçosas florações que, se não amandava o melhor par de marmelos do Reyno, devia andar muito perto disso."
Do livro ‘Gente Bem’, Edição do autor
"(...) O seu olhar guloso lambia aquelas peles morenas, aquelas coxas sadias untadas com óleos, os seios esplendorosos sobrando dos soutiens, as ancas provocantes enchendo o nylon das calcinhas… Aqueles corpos podiam não ser um tratado de estética mas eram construídos com carne jovem, fremente, apetitosa e fresca, e isso valia certamente mais do que a perfeição formal aos olhos embevecidos do Charly. Deus do Céu! Que coisas boas desfilavam pela sua frente! Como lhe apetecia mexer em tudo aquilo, despir aqueles restos de roupa, afundar-se na carne tenra daquelas rapariguinhas descontraídas que se pavoneavam à sua frente sem qualquer espécie de pudor!"
Pioneiro das ‘fake news’
A revista ‘Gaiola Aberta’ tinha uma secção intitulada ‘O Notícias Falsas’. Subtítulo: "O jornal de maior expansão entre os boateiros do Mundo Português".
Recordista da censura
29 livros proibidos: Vilhena foi o escritor com mais títulos mandados apreender pela Censura durante o Estado Novo. Foi preso três vezes, em 1962, 1964 e 1966.
O fenómeno da ‘Gaiola’
De 1974 a 1983, a mais irreverente revista de humor portuguesa ficou célebre pelas caricaturas de políticos, cartunes anticlericais e desenhos eróticos.
Carolina do Mónaco
Em 1981, a princesa Carolina processou o humorista por causa de uma fotomontagem, pedindo-lhe 400 mil dólares (355 mil euros). Acabou por retirar a queixa.
Os processos das famosas
Catarina Furtado, Bárbara Guimarães, Margarida Marante e outras caras da televisão processaram Vilhena por causa de fotomontagens na revista ‘O Moralista’.
Teses académicas
‘O Humor de Bolso de José Vilhena’ foi a dissertação de mestrado do escritor e professor universitário Rui Zink, que já orientou outros estudos sobre o autor.
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