Esqueça o anúncio dos escoceses que despem o 'kilt' para proteger as raparigas da chuva. Conheça o ‘whisky’ de Sacavém, talvez a pior bebida inventada neste país. Mas há quem diga que era melhor que o original. Uma certeza: era ilegal…
No dia 6 de Fevereiro de 1966, Manuel Serafim foi detido pela polícia num restaurante na Rua Luís de Camões, em Lisboa. Houve, inclusivamente, troca de tiros e uma pequena perseguição mas o infractor - considerado o cabecilha da rede de produtores do ‘whisky de Sacavém’ - acabou por ser preso pelos agentes da autoridade. Na altura, o indivíduo garantiu que quando saísse da prisão, tornaria à ‘carga’. “É a única coisa que sei fazer. Quando sair, vou voltar ao mesmo”, terá dito. Com efeito, alguns anos mais tarde, foi descoberta uma fábrica suspeita, no Barreiro. A acusação repetiu-se: falsificação de ‘whisky’.
Em Sacavém, num armazém na Travessa Almirante Reis, um grupo de aproximadamente quatro pessoas falsificava ‘whisky’ e vendia-o para alguns bares da capital portuguesa- cabarés, como segredam alguns sacavenos. Onde hoje se encontra um prédio cinzento e um jardim com parque de estacionamento, a GNR local descobriu, em tempos, um improvisado centro de fabrico de ‘whisky’.
A bebida original era a pura, a verdadeira, e de rótulos sobejamente conhecidos. Num enorme barril, eram despejadas todas as garrafas das várias marcas de ‘whisky’. Posteriormente, um grupo de cerca quatro indivíduos adicionava litros e litros de álcool etílico (aquele que normalmente se utiliza para sarar as feridas). A bebida ‘fabricada’ atingia os 90º de teor alcoólico devido à pouca percentagem de ‘whisky’ verdadeiro relativamente ao desinfectante utilizado. A cor da bebida era provocada por pastilhas próprias para o efeito, que se dissolviam no mesmo barril. A venda do produto ilícito tinha de ser feita rapidamente e a razão é simples: depois de um ano, os corantes perdiam a cor e, no fundo de cada garrafa, ficaria a pequena quantidade de ‘whisky’ verdadeiro - tudo o resto seria álcool puro…
VIROU ANEDOTA NACIONAL
A frase ‘parece whisky de Sacavém’, para ilustrar uma bebida que provoca uma enorme dor de cabeça na manhã seguinte, teve, naturalmente, uma origem. E fidedigna. Acabou o rumor em torno da história que ainda hoje assombra a cidade a Norte de Lisboa. O ‘whisky’ de Sacavém é verídico.
A divulgação dos factos ainda provoca algum desconforto entre os locais, mas há quem recorde a situação com algum furor anedótico. Em Sacavém, as pessoas são amáveis e prestáveis e, além de se cumprimentarem nas ruas, prontificam-se a ajudar visitantes que necessitem de alguma informação. Quando chegámos e pedimos indicações sobre a localização da junta de freguesia, dois cidadãos mostraram-se rapidamente disponíveis para nos conduzir ao local. Contudo, quando abordámos a questão do ‘whisky de Sacavém’, ambos deram um passo atrás. “Não sabemos nada disso”, responderam quase em uníssono. Mesmo assim, há quem fale do assunto e recorde 1966 com sorrisos nos lábios.
Decorria a década de 60 em Portugal, numa altura em que a ‘paz e amor’ reinavam no Mundo e as drogas começavam a fazer a sua entrada no seio da vida privada. Em Portugal, “três tipos e uma tipa”, como recorda Edmundo, sacaveno, tinham “uma fábrica de ‘whisky’”. Aos 65 anos de idade, o popular recorda tudo como se fosse ontem. “Eu tinha uns 22 anos e aquilo era mesmo em frente à minha casa. Era um armazém e eles tinham lá tudo. Ainda cheguei a estar com umas pastilhas na mão”, relata.
Sentado ao lado de Edmundo está José Guilherme, 75 anos, que, depois de alguma relutância, conta mais pormenores e acaba por “recordar esses tempos”. Sentados em frente ao edifício da Junta de Freguesia de Sacavém, num pequeno jardim, os dois amigos completam as recordações um do outro. “Daqui vocês não levam nada”, começa José Guilherme, lembrando que, na zona, “nunca ninguém desconfiou de nada, até ao dia em que aquilo rebentou”. Edmundo acrescenta que “aquela indústria já durava há uns bons cinco anos. “Eles iam buscar álcool à farmácia em frente e misturavam com o verdadeiro”, narra. Prosseguindo: “Quem vos pode ajudar é o Faria, ele é que sabe da história toda”. E aponta José Guilherme. “É um gajo impecável. Falem com ele que vos conta tudo. Ele é que viveu isso de perto”, acrescenta. No edifício da autarquia, minutos antes, já nos tínhamos ‘cruzado’ com este nome. Trata-se nada mais nada menos do que o farmacêutico a quem os falsificadores compravam o álcool…
A Farmácia Lourenço vai ficar na história de Sacavém. Não só por “ter sempre a casa cheia e um atendimento impecável” - como recorda Salvador, de 82 anos - mas também porque era aí que se comprava o álcool puro.
Salvador conduz-nos ao local onde ficava a fábrica. “É aquele prédio cinzento. Antes era um barracão e havia uma serração ou qualquer coisa com móveis. Por trás ficava a Quinta do Marreco. Era aí, nesses barracões com a quinta por trás, que se fazia o ‘whisky’. Eles tinham aquilo bem montado. Havia rótulos norte-americanos e carimbos da alfândega”, vai contando. Em boa verdade, soubemos que várias marcas se encontravam ‘representadas’ nesta ‘destilaria a martelo’ - entre elas Vat 69, Johnnie Walker, Passport ou White Horse. O local da fábrica do ‘whisky’ falsificado ainda provoca alguma discussão. Uns dizem que fica onde se encontra actualmente o prédio cinzento, outros afirmam a pés juntos que é por trás do edifício, numa espécie de descampado que deu origem a um jardim e a um parque de estacionamento. Ainda assim, certo é que estamos na zona exacta onde, durante anos, se fez o ‘whisky’ falsificado com base no verdadeiro.
FARIA, O HOMEM DO ÁLCOOL
Diz que não foi ele quem deslindou o caso e assegura que nunca desconfiou de nada - apesar de considerar estranho que se necessitasse de tanto álcool para uma serração.
António Faria, de 73 anos de idade, foi o homem que vendeu “quase dia sim, dia não” cerca de cinco litros de álcool etílico ao armazém que pensava fazer móveis. “Em boa verdade, nunca vi ninguém lá entrar com o garrafão. Mas como se dirigiam para o beco, pensei que sim”, recorda o ainda farmacêutico.
À porta do estabelecimento onde agora trabalha, António Faria conta a história na primeira pessoa. “Em frente à farmácia havia um armazém. Estava praticamente em ruínas mas ainda tinha algumas condições. Mais à frente, havia um barracão. E era aí”, explica, recordando o primeiro dia em que lá foram comprar o desinfectante.
“Apareceu um homem com um garrafão a pedir cinco litros de álcool. Fiquei espantado. Nunca pensei que se necessitasse de tanto álcool de uma só vez. Disse-lhe: ‘Para hoje não tenho isso tudo, mas posso mandar vir para amanhã. Passe cá. No dia seguinte, lá lhe vendi o álcool’, lembra. Para continuar: “Dia sim, dia não, lá apareciam novamente para mais cinco litros. Sempre achei tudo muito estranho mas nunca desconfiei de nada. Até que um belo dia, a GNR apareceu aqui na farmácia. ‘Então, Faria, tinhas aqui à frente uma fábrica de whisky e não contavas nada à gente?’, disseram eles. Perguntei-lhes do que estavam a falar e lá me explicaram. Foi aí que percebi para que servia o álcool que eu andava a vender”, relata. “Não deve ter durado cinco anos. Penso que o fizeram durante três anos, mais ou menos”, recorda, afirmando ter-se deslocado ao local para ver as instalações. “Fui lá com a GNR e mostraram-me o armazém. Como era correspondente do ‘Diário Popular’ e do ‘Diário Ilustrado’, pensaram que eu poderia estar interessado em escrever sobre o caso”, explica.
“Havia um barril, onde colocavam o ‘whisky’, ao qual depois juntavam o álcool. No final, cada garrafa tinha apenas uma pequena porção de ‘whisky’, só para dar sabor. O mínimo. Para dar a cor, havia umas pastilhas, que se dissolviam no barril. Mas aquilo tinha de ser vendido rapidamente porque depois de mais ou menos um ano percebia-se que tudo era álcool puro”.
MARROCOS
O farmacêutico explica porque é que Marrocos era uma peça fundamental deste negócio e como se processava a ‘viagem’. “Eles faziam tudo no barracão. Fabricavam a bebida, juntavam todas as marcas e misturavam o álcool. Depois engarrafavam e colocavam os diferentes rótulos: Vat 69, Johnnie Walker, entre outros. Afinal, sabia tudo ao mesmo”, justifica. Prosseguindo: “Depois mandavam o material para Tânger, Marrocos. Mais tarde, o ‘whisky’ tornava a entrar em Portugal e era vendido rapidamente” - uma manobra de dispersão feita alegadamente para confundir as autoridades. Relativamente aos locais de venda, António Faria acredita que muitas garrafas seriam comercializadas até mesmo em Sacavém, mas pensa que a maior parte seguia para fora da localidade.
Segundo informações recolhidas em diversas fontes, a cooperativa local, “sabia de tudo”. Mais, há quem diga que a bebida portuguesa era bem melhor do que o ‘whisky’ verdadeiro. Mas também há quem assegure que não...”.
Na Cooperativa da Sacavém, com novas instalações, também se recorda da história. “Nunca vendemos desse ‘whisky’, mas houve aí muito boa gente que o fez sem saber”, lembra um dos funcionários. Existem ainda alguns pormenores que António Faria já não recorda com exactidão. “Houve um tipo que foi preso mas não me perguntem o nome porque sinceramente já nem me lembro. Eram umas três ou quatro pessoas envolvidas".
Foi considerado, por alguns, como cúmplice da ‘marosca’. Tudo porque, afinal de contas, foi ele quem vendeu o álcool aos falsificadores. António Faria sempre foi conhecido em Sacavém. Nascido nas Caldas da Rainha, foi para a freguesia a Norte de Lisboa com oito anos de idade. Tinha em mente seguir para o Seminário, mas surgiu a oportunidade de começar a trabalhar numa farmácia. Aos 10 anos entrou ao serviço. Naquela localidade, praticou hóquei em patins, facto que o levou a ser ainda mais conhecido na zona. Hoje em dia, com 73 anos de idade, ainda existe quem brinque com o farmacêutico sobre o caso do ‘whisky de Sacavém’. Já desligado da história, ele sorri e diz-se orgulhoso de continuar a trabalhar na sua primeira profissão, a de farmacêutico.
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