Já teve cabelo comprido nos tempos do MRPP. Mudou de partido, chegou à liderança do governo antes da da Comissão europeia. Em 2002, Na campanha para as legislativas foi a sua mulher que lembrou O’Neill para apelar ao voto nele: “Sigam o cherne”, apelou. Catorze anos depois, aos 60 e à porta do Goldman Sachs, é um amigo que rectifica. “Não é um cherne mas sim um carapau de corrida”
Metódico. Combativo. Teimoso. Ambicioso. Detesta incompetentes, incapazes e os pouco pontuais. É um viciado no trabalho. Exigente, rigoroso em excesso e disciplinado em demasia. Tem um carácter temperamental. Conta-se que quando o casal Durão Barroso, e a mulher, Margarida de Sousa Uva, moravam perto do Jardim das Amoreiras, em Lisboa, perderam o lugar de garagem por serem considerados pelos vizinhos uns "grandes chatos".
Um antigo adjunto esculpe assim o esboço de quem vai a caminho do Goldman Sachs: sisudo, sim senhora, embora dê uso aos músculos da face para rir mas, atenção, nem sempre o seu riso traduz boa disposição.
Pode rir-se para fora e estar irritado por dentro. Odeia expor-se e as críticas incomodam-no bastante. Quando define um objectivo só descansa depois de o alcançar. Há quem o chame de ‘sniper’: precisa unicamente de dar um tiro para atingir o alvo. Certeiro, por regra, até nas piadas saídas de um humor sarcástico, não falha o alvo. E eis outro defeito apontado por um colaborador: só confia numa única e singular pessoa, ele próprio. Dizem que gosta tanto de si que não sabe ser fã de ninguém, não obstante a admiração por Francisco Sá Carneiro e Aníbal Cavaco Silva.
Assume-se discreto, embora as suas atitudes dêem nas vistas. Ouve opiniões de amigos mas, e temos pena, toma as decisões sozinho baseado no que acredita.
Tem três filhos, um neto, um irmão e um tio que é reitor da universidade Lusíada, em Lisboa, e ex-ministro da Educação do governo de Cavaco Silva. Falamos de Diamantino Durão, o que se viu a braços com contestação à Prova Geral de Acesso (PGA) e às propinas.
Durão Barroso é adepto do Sporting, amante de música clássica, de ópera, de pintura e de ler, ler muito, páginas de história, política e economia. Para aliviar a vista, José Manuel Durão Barroso é um bom garfo e um entusiasta de vinho tinto. Fazer desporto e exercício, graceja um antigo assessor, "é o que a senhora vê". Na balança tem agora agora ainda mais peso. O Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento do Mundo, chamou o filho de transmontanos, de uma professora liceal e de um contabilista, para ser presidente-não executivo e consultor.
Contas de cabeça
O professor universitário foi sempre um bom aluno. Na primária, feita na Escola Actor Vale, em Lisboa, repartiu as melhores notas com o colega Joaquim Leitão. As brincadeiras que ambos preferiam distanciam-se das tradicionais. "Lembrar capitais e fazer contas de cabeça", por exemplo, conta o cineasta. No ensino liceal reencontram-se no Liceu Camões. "Tivemos sorte com os professores." Nomes altos como Mário Dionísio e Vergílio Ferreira e um reitor com fama de autoritário, Joaquim Sérvulo Correia, que certo dia os chamou ao seu gabinete "por causa de ideias políticas".
Na adolescência não deu importância a motorizadas e ao futebol. Leitor dos jornais da oposição – ‘Comércio do Funchal’, ‘Jornal do Fundão’, ‘Diário de Lisboa’, ‘República’ e ‘Seara Nova’ –, com 13 anos distribuiu prospectos da Comissão Democrática Eleitoral e participou como espectador na campanha de 1969.
A memória que Durão Barroso deixou no cineasta é o de "uma pessoa muito inteligente e de espírito rebelde". Espírito que se tornaria mais evidente na faculdade de Direito. Mas antes sairá do Camões para terminar o liceu em Almada. O pai encontrava-se doente e os familiares que ali residiam convenceram a mãe a viver perto deles.
A ironia vem de alguém dos velhos tempos: "Ena, quem o viu e quem o vê." Nos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa, o antigo primeiro-ministro, que será chamado ao Parlamento para falar sobre a invasão do Iraque, usava cabelo longo, chapéu de aba larga, calças boca-de-sino, camisa de flanela e no pescoço tinha enrolado colares de missangas. Foi eleito presidente da associação académica em 1975, no dia de aniversário da namorada, Margarida de Sousa Uva, estudante de Letras que conhecera na cantina da faculdade. Casaram-se cinco anos depois na Sé de Lisboa. E, haja o que houver, o 28 de Setembro, é comemorado.
José Manuel Durão Barroso ou, como é tratado na intimidade, Zé Manel, nasceu em Lisboa, a 23 de Março de 1956, numa casa da Avenida João XXI. O avô paterno integrava a grande burguesia, proprietário de terras, monárquico, exilou-se no Brasil com a República e foi nomeado por Salazar presidente da Câmara de Valpaços. O avô materno, que trabalhara como construtor civil na Régua, aplaudia o socialismo.
Na Faculdade de Direito de Lisboa, no ano lectivo de 1973-74, o 25 de Abril de 1974 apanhou-o com 18 anos. Com veia vermelha é recrutado por Maria José Morgado, que militava no MRPP, para o partido. Entra para a Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEM-L) da faculdade, o braço estudantil do MRPP e os seus dotes oratórios destacaram-se. Abel é um dos nomes de combate que adoptaria naquilo que se conhece por "lutas heroicas pela liberdade de Abril", publicado na Luta Popular, o órgão do comité central do MRPP, de 2 de Maio de 1975, assinando o artigo "A vida e a obra de Estaline", um hino de amor e obediência ao ditador carniceiro.
Durão Barroso terá visto a serventia da rua do MRPP por ter aparecido na sede com uma carrinha apinhada de mobília da Faculdade de Direito de Lisboa.
Corte de cabelo
Depois da morte do pai, já em Londres desliga-se da biografia revolucionária. Corta o cabelo, apruma-se, abeira-se da fileira comedida e o seu melhor amigo é Pedro Santana Lopes, fundador do MID – Movimento Independente de Direito. Indivisíveis até se incompatibilizarem em 1990, diz-se que por "motivos de carácter íntimo". Durante uma década, nem meia-palavra trocaram. As pazes vêm em de Janeiro de 2001, num aperto de mão em Ourique, em prol da pacificação interna do PSD.
O Goldman Sachs não é um banco qualquer. Por essa razão, o jornal francês ‘Le Monde’ arrasou Durão Barroso num editorial sem assinatura. Goldman Sachs havia sido o pilar de Wall Street, que representa a crise financeira de 2008 – milhões de empregos aniquilados e estouro das dívidas públicas nos EUA e na Europa e, entre as trapalhadas, distinguiu-se por ajudar a Grécia a apresentar contas truncadas para permanecer no euro. Mais terra para a sua metafórica sepultura haveria de ser atirada ainda pelo Libération: presidira à Comissão Europeia sem inovação e sem desencadear a microscópica ideia que renovasse o ideal europeu. Durão, que domina vários idiomas, disse em português: "É-se criticado por ter cão e por não ter. Se se fica na vida política é porque se vive à conta do Estado, se se vai para a vida privada é porque se está a aproveitar a experiência adquirida na política."
Um amigo de diferente pigmentação política acredita que a opção de ter trocado a chefia do governo de Portugal pela presidência da Comissão Europeia sentenciou "um caminho sem retorno à vida política". Contudo, a política pode ser feita fora da Assembleia e do Palácio de Belém. Durão Barroso ocupa o lugar de Francisco Pinto Balsemão no comité de directores de um dos clubes mais influentes e secretos do Mundo: o Bilderberg. Diz-se que a sua movimentação pelo universo do velho continente começou na reunião de 2004, onde estavam presentes Pinto Balsemão, Santana Lopes e José Sócrates. Dias depois, Durão seria escolhido para presidir a Comissão Europeia.
Vera Goldschmidt Ferreira, ex-perita nacional destacada junto da Comissão Europeia, esteve com Durão Barroso uma vez, em 2010, aquando do sismo do Haiti: "Foram 10 minutos muito simpáticos em que quis saber de mim e do meu trabalho e dizer que se precisasse de alguma coisa enquanto estivesse no Haiti que por favor ligasse para o gabinete dele." Os chefes de Vera ficaram encantados com a hipótese de mandar recados ao presidente da Comissão Europeia: "Nunca me esquecerei quando a minha directora me disse: ‘cuidado, o presidente da Comissão não vai ser sempre um português’. Foi muito criticado internamente mas foi o presidente dos 28 durante a crise financeira... não sei quem faria melhor."
No passado, o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko atribuiu a escolha de Durão Barroso para o cargo eurocrático pelo facto de ser, palavras do ditador, "um idiota". "Quem diz é quem é", acrescenta um amigo do PSD. E esse mesmo amigo brinca com poemas sérios: "O Zé Manel não é um cherne. É um carapau de corrida!"
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