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Para fugir à idiotia

‘O Homem Fatal’ do brasileiro Nelson Rodrigues é um tratado sobre a vaidade, o ressentimento e a covardia humanos

04 de dezembro de 2016 às 12:08

Dizia-me um amigo brasileiro, especialista no assunto, que Nelson Rodrigues é o exemplo máximo de como é possível ser um grande escritor com leituras mínimas. No caso de Nelson, o nome é Dostoiévski: as traduções do russo podiam ser péssimas em meados do século XX. Mas Dostoiévski sobrevive a tudo porque, em rigor, ele é mais do que um texto; é um espírito. E quando lemos ‘Crime e Castigo’, ‘Os Irmãos Karamazov’ ou os ‘Cadernos do Subterrâneo’, temos um encontro brutal com as misérias da condição humana. Dostoiévski é o filósofo da vaidade, e do ressentimento, e da cobardia. E estas misérias não se limitam a São Petersburgo. Nelson encontrou- -as no Rio, cidade de adopção. Não necessariamente em marginais, anarquistas ou terroristas. A vaidade, o ressentimento e a cobardia estavam na classe média carioca que fazia da dissimulação ideológica uma pose e uma carreira.

Existe uma crónica, neste ‘O Homem Fatal’, que resume o espírito da denúncia: sobre Sartre. Minto. Sobre a audiência que escutava Sartre no Brasil com uma admiração bovina. O que repugna Nelson não são as imbecilidades do francês. É a rendição moral e intelectual de uma sala que babava de admiração por um "canalha". Essa repulsa, sempre temperada por uma ironia melancólica, encontra--se na esquerda doméstica que pretendia transformar o mundo nos serões etílicos do Antonio’s. Ou nas "passeatas" urbanas contra a guerra do Vietname – ao mesmo tempo que o pobre Brasil não tinha quem "passeasse" por ele.

Ex-covarde

Confrontado com tudo isto, Nelson declara-se um "ex- -covarde" na mais impressionante crónica de todo o volume: alguém que, depois de uma biografia digna de Dostoiévski (mortes e mais mortes e mais mortes), afirma ter perdido o medo de escrever sobre o "óbvio ululante".

E o "óbvio" era, repito, a vaidade, o ressentimento e a cobardia dos "humanistas" que admiravam Fidel ou Mao Tsé-tung. Para Nelson Rodrigues, nada disto se explica (ou justifica) com "preferências ideológicas" ou "nobrezas do ideal". O problema oscilava entre a idiotia (versão benigna) ou a pura deformação de carácter (versão maligna). Escuso de acrescentar que estas observações não envelheceram uma ruga. Primeiro, porque o "triunfo dos idiotas" (e dos canalhas) é um dos fenómenos da era igualitária. Como escreve Nelson, os idiotas de antigamente eram seres envergonhados porque conscientes da sua própria idiotia. Mas a partir do momento em que o primeiro idiota decidiu levantar a crista (e a voz), os idiotas saíram das tocas e tomaram conta do "pedaço".

Por último, o estilo. Desconfio que Nelson Rodrigues batia as suas crónicas à máquina. Faz sentido. Quando escrevemos à mão, riscamos e corrigimos. Na máquina de escrever, a correcção torna-se parte do estilo – e a prosa de Nelson é uma tela feita de reformulações e divagações. Que o mesmo é dizer: de humanidade e autenticidade.

Lê-lo, hoje, pela mão da Tinta da China (e de Pedro Mexia, responsável pela selecção e prefácio da obra), é um dos maiores colírios para quem deseja escapar à idiotia.  

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