A produção nacional de carne de frango é insuficiente para satisfazer a crescente procura dos portugueses. Com o fim da crise dos nitrofuranos na carne de aves, na sequência das análises negativas anunciadas pelo Ministério da Agricultura há quase duas semanas, o consumo não mais cessou de aumentar, com os preços aos produtores a subirem cerca de 56 por cento em relação ao preço praticado antes do início da crise.
A actual falta de carne de frango para satisfazer a procura resulta, antes de mais, da redução da capacidade de produção, durante os cerca de três meses de duração da chamada crise dos nitrofuranos. Com esta medida, as empresas procuraram evitar a acumulação de excedentes no mercado, numa altura em que o consumo registou uma quebra da ordem dos 90 por cento.
“Neste momento, os consumidores retomaram a confiança na carne de aves, só que a produção não consegue responder à procura”, reconhece sem rodeios Manuel Lima, secretário--geral da Federação Portuguesa das Associações Avícolas (FEPASA). Para este aumento súbito da procura, contribuiu decisivamente a divulgação dos resultados negativos das amostras recolhidas pelos serviços do Ministério da Agricultura nas explorações avícolas, no âmbito do plano de acção especial, mas também as declarações dos cientistas de que “desdramatizaram os riscos dos nitrofuranos para a saúde pública”, frisa o secretário-geral da FEPASA.
Para já, o consumo “não está ainda na plenitude, mas encontra-se entre 75 e 80 por cento”, sublinha Manuel Lima.
PREÇOS A SUBIR
Como era inevitável, o acréscimo do consumo, numa conjuntura marcada pela escassez de oferta de produto, implicou um aumento nos preços. Segundo Fernando Correia, ex-presidente da Associação Nacional de Centro de Abate de Carnes de Aves (ANCAVE), os produtores de frangos estão a receber, para já, um preço médio da ordem de 2,6 euros por quilo, 56 por cento acima dos 1,6 euros recebidos antes de ocorrer a crise dos nitrofuranos. A FEPASA não dispõe ainda de nenhuma avaliação do comportamento dos preços no consumidor, mas admite-se que os preços ultrapassem os três euros o quilo.
O secretário-geral da FEPASA prevê que só “a partir de Junho é que a capacidade produtiva esteja normalizada”, até porque “não se repuseram os efectivos de galinhas poedeiras, que ficaram mais velhas e menos produtivas”. E, além disso, algumas empresas revelam “gravíssimas dificuldades financeiras”, em parte também porque “o crédito bancário foi muito restringido”, acrescenta. Na pior fase da crise, os prejuízos ascenderam a um milhão de euros por dia.
ESPANHA SALVA PREÇOS
A escassez de carne de frango poderá ser atenuada esta semana com a importação de frangos de Espanha, uma oportunidade para as empresas espanholas entrarem no importante mercado português. Graças às importações do país vizinho, os preços poderão diminuir, na análise de Manuel Lima. Com um consumo per capita anual de 24,5 quilos, a carne de frango é a mais consumida em Portugal, porque é também a mais barata do mercado. Caso a subida do preço se mantenha, a taxa de inflação pode aumentar, justamente o contrário do que aconteceu em Março com a queda dos preços.
CRONOLOGIA DA CRISE
26 DE FEVEREIRO
O Ministério da Agricultura anuncia o sequestro de 42 explorações avícolas onde fora detectado nitrofurano em aves delas provenientes. O ministro Sevinate Pinto garante que só teve conhecimento dos resultados das análises e da sua extensão no dia 25 de Fevereiro, três meses e meio depois de os resultados terem chegado à Direcção Geral de Veterinária (DGV). Ficaram sequestrados 1,2 milhões de aves.
7 DE MARÇO
Face à pressão dos partidos da oposição e dos empresários do sector avícola, o ministro da Agricultura decide divulgar, à medida que forem conhecidos os resultados finais das novas análises recolhidas nas explorações sequestradas, os nomes das explorações cujos resultados sejam positivos.
8 DE MARÇO
O ex-director-geral de Veterinária garante, em entrevista ao Correio da Manhã, que o secretário de Estado Frazão Gomes fora informado da situação “por volta do dia 20 de Janeiro”.
9 DE MAIO
Depois do receio inicial de que a Comissão Europeia decretasse um embargo às exportações de carne de aves nacionais, o ministro anuncia “uma evolução favorável”, como prova o elevado número de resultados negativos.
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