Meses de pesadelo ao lado de criminoso

Margarida Marante vive momentos dramáticos depois de ter sido raptada e violentada por Francisco Farinha Simões. A jornalista continua a sentir-se insegura na sua casa e, ontem, decidiu revelar toda a história. Ao CM, Marante explica que optou por tornar o caso público devido às chantagens de que foi alvo por parte do criminoso.

10 de fevereiro de 2006 às 13:00
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A 14 de Janeiro, após vários telefonemas intimidatórios, Farinha Simões invadiu o apartamento de Margarida Marante e, sob ameaça de uma faca de cozinha, arrastou-a para o interior de um Rover preto. Dentro do carro, foi agredida a estalos, socos e com o cabo da referida arma branca. Acabou num pinhal, mas Farinha Simões optou por nada fazer.

O regresso a Lisboa foi feito debaixo de constantes exigências do raptor, que a forçava a repetir que embarcara naquela viagem de livre vontade. Este foi apenas o culminar de longos meses de terror físico e psicológico, nos quais Marante chegou a ver uma arma de fogo introduzida no seu sexo.

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O semanário ‘O Crime’ surgiu ontem nas bancas com as revelações do caso. Factos que Margarida Marante confirmou ao CM, justificando a opção com as ameaças de que foi alvo de Farinha Simões. Chantagens que estarão “gravadas e constam dos autos policiais”.

De acordo com a jornalista, Farinha Simões ameaçou divulgar informação falsa que poderia incriminar amigos mais próximos, alguns deles com bastante influência na sociedade portuguesa. As ameaças iam do fornecimento de droga, a suspeitas sobre a sexualidade dos envolvidos.

Na sequência das ameaças, Margarida Marante refere ter sido contactada por José Leite que, por sua vez, confirmou o contacto de Farinha Simões. “Se não nos vender a história, venderá a outros”, terá dito o jornalista de ‘O Crime’. José Leite negou ter oferecido os 23 mil contos mencionados pelo criminoso e convidou Marante a contar a sua versão da história. Marante aceitou e, pelos seus amigos, ofereceu “o corpo às balas”.

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Margarida Marante não esquece a actuação da polícia e promete “fazer uma queixa formal contra o Comissário”. “Ele não fez nada”, acusa. A jornalista até defende os “bons homens que para ele trabalham”, mas revela que “muitas das pressões sofridas ficaram a dever-se à inacção do Comissário” da 21.ª Esquadra da PSP de Campolide.

Farinha Simões encontra-se preso por violação da liberdade condicional. Foi detido na noite de 28 de Janeiro, quando tentava escapar no seu carro, após embater nas viaturas policiais que barricavam as saída das rua.

COMO ELES SE CONHECERAM

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Margarida Marante conhecia o nome de Francisco Farinha Simões pelo seu alegado envolvimento no caso Camarate. Mas foi quando Emídio Rangel – director-geral da SIC e seu marido nessa época – se decidiu a fazer um documentário sobre o caso que a jornalista o conheceu directamente.

Defensor da tese do atentado, o então detido em Pinheiro de Cruz aproveitava as saídas precárias para filmar entrevistas que decorriam ao longo das madrugadas de sexta-feira e sábado, sob a realização de Manuel Tomás. Mais tarde, Farinha Simões deixou o estabelecimento prisional em liberdade condicional e tornou-se o melhor amigo de Emídio Rangel.

Após a hospitalização de Rangel por doença grave, as pessoas começaram a afastar-se dele. Foi aí que se iniciou a aproximação de Farinha Simões a Margarida Marante e sua família – a jornalista tem três filhos do seu anterior casamento com o empresário Henrique Granadeiro.

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"OBSESSÃO COMPULSIVA

Fragilizada pela separação de Emídio Rangel – “sentia-me como um pintainho”, diz a jornalista –, Margarida Marante aceitou uma proposta de Farinha Simões e este tornou-se seu segurança. “Na minha casa só viviam mulheres e crianças”, explica. Mas com o passar do tempo, Simões tornou-se “menos cerimonioso”.

Os dois chegaram a envolver-se intimamente até que Marante decidiu cortar essa ligação. Mas, apesar das constantes rejeições, Simões insistiu. “Ele tem uma obsessão compulsiva por mim”, afirma Marante. Foi nessa altura que Simões começou a entrar em sua casa ilegalmente, situação que se arrastou “durante oito meses”.

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VIDA DE CRIME ENTRE FAMOSOS

A detenção de Fernando Farinha Simões, a 28 de Janeiro, é só o capítulo mais recente de uma vida recheada de encontros e desencontros com a Justiça e que se cruza com a vida de muita gente famosa. O homem que Margarida Marante acusa – e que está detido preventivamente por coacção, sequestro e ameaça – já trabalhou como motorista de Sousa Cintra e foi uma das principais testemunhas ouvidas na Comissão Parlamentar que investigou a morte de Sá Carneiro em Camarate.

Pelo meio, o seu nome surgiu várias vezes ligado ao mundo da droga, apontado como colaborador da Polícia Judiciária que, mais tarde, acabou por prendê-lo precisamente por tráfico. Apesar de ligado desde sempre ao submundo de Lisboa, foi na Assembleia da República que Fernando Simões saltou para a ribalta, defendendo a tese de atentado em Camarate. Cumpria pena por tráfico de droga e ia depor ao Parlamento. Acusou José Esteves de fabricar a bomba que destruiu o avião de Sá Carneiro e é defendido por Ricardo Sá Fernandes, que publicou há pouco tempo um livro sobre Camarate.

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1976 - Entra para o semanário 'Tempo'

1977 - Passa pela revista ' Opção'

1978 - É escolhida para integrar a área de informação da recém-criada RTP 2

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1979 - Transfere-se para o sector de Informação da RTP 1

1983 - Muda-se para os EUA, onde realiza uma especialização em Jornalismo, regressando a Portugal em 1985

1989 - Dirige a revista 'Elle', cargo que ocupa durante dois anos

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1991 - Primeira entrada na TSF

1991 - torna-se colaboradora do semanário 'Expresso'

1992 - Francisco Pinto Blasemão convida-a para entra na SIC

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1992 - Apresenta 'Sete à Sexta' e 'Contra-Corrente'

1995 - Estreia 'Crossfire', programa que manteve até 1998

1996 - Começa 'Esta Semana' que dura até 2001

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2003 - Regressa à TSF

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