Achado macabro em casa na Foz

Arqueólogo André Carneiro alerta para o perigo para a saúde pública. A Polícia investiga a origem do espólio, que assusta moradores.
09.08.11
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Achado macabro em casa na Foz
As ossadas humanas estavam acondicionadas em plásticos Foto Joana Neves Correia

Foi com espanto e medo que um sem-abrigo viu ontem os crânios que estão logo à entrada da casa do nº 48 da Rua da Trinitária, no coração da Foz do Douro, no Porto. Comunicou à PSP da zona, que, no local, encontrou um cenário macabro de centenas de ossos humanos, uns espalhados, outros acondicionados em cerca de 40 caixas. As autoridades que estiveram no local falam mesmo em 300 caveiras humanas.

A Polícia investigou o caso e chegou até aos responsáveis. Trata-se da empresa Dryas Arqueologia, com sede em Coimbra, que trabalha em consultoria na área da Arqueologia, Antropologia e Património Histórico. Um dos sócios é o arqueólogo herdeiro da casa na Foz que serve de armazém.

Contactado pelo CM, o arqueólogo e docente na Universidade de Évora, André Carneiro, ficou chocado com a insólita situação. O especialista alerta para eventuais perigos para a saúde pública que o achado representa. "Se os ossos, sobretudo os mais antigos, estiverem expostos a ambientes pouco protegidos e húmidos, libertam micróbios, vírus, bactérias e agentes patológicos com toxicidades", explica.

O arqueólogo acusa ainda de incúria quem abandonou as ossadas naquelas condições de degradação e de fácil acesso. A PSP fazia ontem diligências para encontrar o dono do espólio e decidir o destino a dar--lhe. No entender do especialista consultado pelo CM, o caso deveria ser imediatamente comunicado à Direcção-Geral da Saúde. "Seria melhor fazerem análises sobre a toxicidade das ossadas, até para as enviar para as instituições mais adequadas", diz André Carneiro. O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico será um dos locais indicados para a avaliação da história e do interesse do espólio. O destino final poderá ser ainda um museu ou integrar o património de uma autarquia local. Universidades e parques arqueológicos poderão ter também interesse em recolher os achados.

A casa está abandonada há muitos anos e nem os vizinhos sabiam do paradeiro dos herdeiros do homem que conheceram como sendo o dono da casa, já falecido. Sabiam apenas que a casa está degradada e cheia de lixo. Mas não sabiam que também havia caixas com ossadas humanas.

HABITAÇÕES ANTIGAS E DEGRADADAS

A Rua da Trinitária fica situada na chamada ‘Foz Velha’, já próxima do rio Douro. Há muitas casas de habitação centenárias espalhadas pela rua e becos onde mal passa um carro. O número 48 da Rua da Trinitária é apenas um exemplo de abandono pelo proprietário e pelos seus herdeiros. A casa ao lado, onde ontem foram encontradas as ossadas humanas, só mantém as paredes exteriores. A ‘Foz Velha’ abriu frentes para o mar, dando lugar à nova Foz, com moradias de luxo.

VIZINHOS DESCONHECIAM

A descoberta sinistra deu-se ao final da manhã de ontem, para enorme surpresa dos vizinhos mais próximos. "Nunca lá entrei e não fazia ideia de que estavam lá estas coisas", disse ao CM José Reis. Só a presença dos carros da Polícia é que alertou os moradores. "Foi assim que ouvimos dizer que a casa estava cheia de ossos e caveiras", conta. José Reis não se lembra sequer de quem são os donos da habitação térrea, com um sótão.

Segundo os vizinhos, a casa está desabitada há mais de dez anos, tendo-se tornado local de re-fúgio para alguns sem-abrigo. Ontem, um deles não gostou de ter de partilhar o espaço com as ossadas. E os moradores da zona também não gostaram da ideia de que ali permanecessem.

O assunto era comentado de boca em boca e as reacções eram diversas. Uns riam do insólito, outros mostravam-se horrorizados com o macabro achado. Outros ainda optaram por comentar o caso sentados à mesa do café a jogar cartas.

Poucos foram os que quiseram ir dentro da casa ver os crânios e demais ossadas. A vizinha da frente da casa onde foram encontrados os ossos preferiu nem sequer atravessar a rua. "Eu não sei de nada nem quero ver nada disso. Que coisa horrorosa", disse a moradora.

PSP ENCONTRA DONOS DOS OSSOS

A PSP da Foz do Douro, investigou o caso e acabou por desvendar parte do mistério já ao final do dia. Segundo fonte da Polícia, trata-se de uma colecção arqueológica pertencente a uma empresa de Coimbra. As autoridades, pouco habituadas a ter ocorrências deste tipo, tinham apenas a intenção de notificar os responsáveis para retirarem as ossadas do local. Eventuais problemas legais e de saúde pública ainda não tinham sido equacionados.

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