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Tempestade ‘Kristin’ deixa Portugal encharcado até aos ossos

Chuva e inundações mostraram as fragilidades do país em termos de ordenamento do território e a falta da capacidade de socorro do Estado.

19 de março de 2026 às 09:00

O comboio de tempestades que atingiu o País no final de janeiro expôs as fragilidades em termos de planeamento do território e de eficiência de coordenação do socorro em situação de catástrofe. Ou seja, a rede de comunicações do Estado português para o comando, controlo e coordenação de comunicações em todas as situações de emergência - o SIRESP - falhou uma vez mais, bem como a mobilização dos recursos disponíveis - por exemplo, nos primeiros dias estiveram no terreno apenas 200 militares. Foi evidente a dimensão do isolamento das populações, os problemas na ocupação do território, mas também a forma como a entreajuda e a ação dos titulares da gestão municipal são mais eficazes perante as dificuldades do que as palavras dos lordes nos gabinetes em Lisboa. O comboio de tempestades, que teve o seu auge na depressão ‘Kristin’, a 28 de janeiro, com chuva torrencial e ventos superiores a 200 km/h , e que atingiu depois Espanha , provocou diretamente ou indiretamente 19 vítimas mortais em Portugal. Os últimos foram um casal que sucumbiu afogado dentro do próprio carro apanhado pelas cheias dos arrozais do Mondego. O pandemónio - o do corte de comunicações, água e luz e muitas centenas de pessoas e animais desalojados - prolongou-se muito além do fenómeno meteorológico.

O rombo foi grande na atividade económica nacional: paragem de milhares de empresas, do turismo à restauração - em Alcácer do Sal salvou-se um café -, da agricultura à indústria dos moldes - na Marinha Grande duas das cinco empresas deste setor ficaram totalmente destruídas. Também com impacto económico, o Carnaval de Torres Vedras não saiu, tal como já acontecera na Segunda Guerra Mundial e na pandemia de Covid-19.

Ante o caos, e ainda antes da Quarta-feira de Cinzas, Maria Lúcia Amaral capitulou e demitiu-se do cargo por reconhecer o evidente: a “falta de condições”. Luís Montenegro assumiu a Administração Interna e ainda não havia novo ministro quando começou a falar do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), agora batizado de PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência. Afinal, um plano para o País até 2034 - que vai estar sujeito a debate público.

Urged to adapt

O Pinhal de Leiria, tal como se conheceu ao longo de 700 anos, deixou de existir. Também na costa, da frente Atlântica ao Algarve , houve fenómenos graves de assoreamento e derrocadas. O Guincho foi varrido pela força do mar. Na Costa da Caparica, habitações coladas à arriba foram soterradas. A Barra da Ria Formosa, frente a Cancela, fechou; e desapareceram os viveiros.

O País que vive à conta da indústria do turismo - 7,2% do PIB, com turistas do Reino Unido, Alemanha e França no topo das receitas - foi notícia não só pela crise meteorológica, mas também pela paralisia ante a urgência. Quinze dias depois da ‘Kristin’ e titulando com paragonas - ‘Portugal urged to adapt to climate emergency after series of deadly storms’ (‘Depois de uma série de tempestades mortais é urgente que Portugal se adapte às alterações climáticas’, em português) -, o jornal britânico The Guardian dava destaque à intervenção do geofísico português José Matos Soares durante uma conferencia em Lisboa, nomeadamente ao desabafo: “Nós não estamos preparados para o clima atual, quanto mais para o futuro!...”

Em Portugal continental existem mais de 26 mil edifícios em áreas de risco de inundação. Coimbra, por exemplo, esteve em risco de ter a cheia do século e esteve para retirar nove mil pessoas. Foi a altura em que até o primeiro-ministro mostrou falta de talento para a geografia. Ao contrário do que disse, o rio da cidade dos estudantes nasce em Portugal - excluindo-o por isso do acordo ibérico de gestão de rios assinado em 1998 e já retificado diversas vezes. As barragens atingiram o seu máximo, mas foi a gestão integrada que provavelmente evitou danos maiores. No Mondego, por exemplo, a Aguieira chegou ao limite de 99% de capacidade de armazenamento, exigindo descargas para evitar o colapso. Desde o início de janeiro, barragens e albufeiras descarregaram um volume de água equivalente a quase um ano de consumo nacional.

Mas o melhor exemplo da impreparação do Estado português é precisamente o teor das primeiras medidas anunciadas: a cada junta de freguesia meios do século XX - “um gerador, um telefone SIRESP e um telefone satélite”. Meios singelos, que podem fazer diferença, mas que mostram como os municípios estavam desprotegidos face à anomalia climática (e também frente ao apagão de 28 de abril de 2025 ou aos piores incêndios desde 2017, também no ano passado). Também nestes eventos a normalidade demorou a ser reposta.

As ruas de Alcácer do Sal transformadas num rio
As ruas de Alcácer do Sal transformadas num rio FOTO: Rui Minderico/Lusa

Só cinco dias depois do aviso do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) foi convocada a Comissão da Proteção Civil. Fica também por saber porque não foi acionado o Mecanismo Europeu da Proteção Civil, que pode ser ativado quando há sobrecarga das capacidades nacionais. A 15 de agosto de 2025 tinha-se recorrido à ajuda europeia, mesmo assim só após uma noite de alto risco de incêndios e duas semanas de fogos.

O País sempre enfrentou eventos climáticos extremos - a questão é que as alterações climáticas aumentam a frequência deste tipo de ocorrências. Ainda hoje não se sabe ao certo o número de vítimas da tragédia de 1967 na região de Lisboa - pelo menos 425, permitiu a censura do Estado Novo. Desde aí, as cheias já provocaram, pelo menos, duas centenas de mortos. É o evento climático que provoca maiores custos humanos e materiais em Portugal.

Na Península Ibérica, já se sente os impactos das alterações climáticas, com temperaturas médias mais elevadas, períodos de seca, diminuição da precipitação total a par de eventos de precipitação diária intensa. Estes fatores criam um cenário perfeito para a degradação dos solos. Mas não são só os eventos potenciados pelas alterações climáticas que se constituem como ameaça à segurança das populações. No dia 19 de fevereiro foram sentidos dois sismos gémeos de magnitude 4.1 registados na região de Lisboa, com apenas dois minutos de intervalo. No século XXI também as ameaças híbridas, que o ordenamento geopolítico atual contempla, obrigam a um plano global e integrado de socorro.

No meio do caos, o exemplo da bacia de retenção no Parque Urbano da Várzea em Setúbal: 1 milhão e 700 mil euros que evitaram custos maiores. Uma semana depois da passagem das depressões ‘Harry’, ‘Ingrid’, ‘Joseph’, ‘Kristin’, ‘Leonardo’, ‘Marta’ - sendo a ‘Kristin’ a mais violenta em Portugal -, ainda havia 26 mil pessoas sem energia, a principal autoestrada do País e centenas de outras vias condicionadas ou interrompidas.

Nos 68 municípios atingidos, 1,8 milhões de portugueses com as suas vidas viradas do avesso, muitos deles sem nenhuma certeza sobre a reparação imediata dos danos sofridos, sabiam porém que o anunciado PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência irá preparar o País “para um futuro mais seguro, resiliente e competitivo”.

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