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Guerra no Médio Oriente afeta mercados numa escala preocupante

Síntese dos principais acontecimentos das últimas horas de um conflito que entrou no vigésimo dia.

19 de março de 2026 às 16:55

A guerra no Médio Oriente estava esta quinta-feira a provocar um agravamento significativo nos mercados energéticos e a suscitar avisos globais sobre a segurança alimentar e a navegação no Estreito de Ormuz.

Síntese dos principais acontecimentos das últimas horas de um conflito que entrou no 20.º dia, desencadeado pela ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, com base na agência de notícias France-Presse (AFP):

Energia: "graves repercussões" do ataque iraniano no Qatar

O principal local de produção de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, situado no Qatar, em Ras Laffan, foi um dos alvos do Irão.

O Qatar reportou esta quinta-feira cedo novos "danos consideráveis" no complexo de Ras Laffan.

O primeiro-ministro do Qatar, Mohammed ben Abdelrahmane al-Thani, denunciou que o ataque iraniano a Ras Laffan "tem repercussões maiores nos abastecimentos energéticos mundiais".

Este tipo de ações "tem um impacto direto nas populações", acrescentou.

O Irão afirmou estar a reagir a um ataque ocorrido na quarta-feira contra o gigantesco jazigo 'offshore' de South Pars, atribuído a Israel pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Quais as preocupações?

Os especialistas temem consequências a longo prazo, dado que Ras Laffan produz, sozinho, cerca de um quinto do GNL transportado por navio em todo o mundo.

Duas refinarias de petróleo do Kuwait foram igualmente atingidas por ataques de drones, provocando incêndios, segundo as autoridades.

"Ainda não estamos no pior cenário", mas "estamo-nos a aproximar", alertou esta quinta-feira a empresa energética francesa Engie numa nota de análise.

O responsável de estratégia do Cité Gestion Private Bank, John Plassard, admitiu tratar-se de uma "passagem para uma guerra energética total", exacerbada por um ataque de drone a um petroleiro no Mar Cáspio.

"O impacto dos danos em Ras Laffan ainda não é conhecido, mas poderá ser o golpe mais duro desferido nas exportações de GNL do Golfo até à data", alertou o fundador da Energy Flux, Seb Kennedy.

Para Kennedy, a ideia de que os volumes do Qatar recuperem os níveis pré-guerra este ano é agora uma ilusão.

Estes danos somam-se ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circula habitualmente 20% do petróleo e do gás mundiais.

Quais as consequências? 

As consequências nos mercados foram imediatas, com o preço do gás europeu a disparar.

Cerca das 13h38 em Lisboa, o contrato a prazo do TTF neerlandês, referência europeia, subia 23%, para 67,09 euros por megawatt-hora, após ter aumentado até aos 35%.

Esta subida tem impacto direto no mercado de eletricidade europeu, cujo preço é parcialmente determinado pelo do gás.

No petróleo, a tendência foi idêntica, com o barril de Brent a subir 4,65%, para 112,37 dólares à mesma hora.

São níveis inéditos desde 09 de março, quando roçou os 120 dólares.

O equivalente norte-americano, o West Texas Intermediate (WTI), subiu 1,58%, para 97,80 dólares, mais cedo na sessão.

As bolsas europeias seguiam em queda acentuada, superior a 2% em Londres, Paris, Milão e Frankfurt.

Wall Street abriu no "vermelho".

E o abastecimento?

O centro de reflexão Rystad Energy revelou que o Irão ameaçou cinco instalações na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos e no Qatar.

"Tais ataques fariam provavelmente aumentar os preços do petróleo em, pelo menos, mais 10 dólares e perturbariam fortemente o abastecimento", advertiu o vice-presidente Aditya Saraswat.

Em conjunto, os cinco locais representam cerca de 20% do comércio global de GNL e até 10% das importações de nafta da região Ásia-Pacífico.

"A magnitude dos riscos relativos a combustíveis, produtos químicos, GNL e fertilizantes torna esta situação qualitativamente diferente de anteriores episódios de tensão no Golfo", avisou a Rystad.

Raides israelitas no Mar Cáspio

A aviação israelita anunciou ter realizado na quarta-feira bombardeamentos de grande envergadura contra navios e instalações da marinha iraniana no Mar Cáspio, no norte do Irão.

Mais de 1.000 mortos no Líbano

Os ataques israelitas no Líbano mataram 1.001 pessoas, incluindo 118 crianças, desde o início da guerra entre Israel e o Hezbollah pró-iraniano em 02 de março, anunciou o Ministério da Saúde.

Explosões no Bahrein e no Curdistão iraquiano

Várias explosões foram ouvidas na capital do Bahrein, Manama, relatou uma jornalista da AFP.

Desde o início do conflito, o Bahrein tem sido alvo de vagas de ataques de drones e mísseis iranianos que mataram duas pessoas no país, segundo as autoridades.

Uma explosão ecoou perto do aeroporto internacional de Erbil, capital do Curdistão autónomo do Iraque, tendo sido avistado fumo junto ao muro de cintura.

OMC preocupada com "segurança alimentar mundial"

A guerra "ameaça a segurança alimentar mundial", alertou a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), apelando à manutenção das cadeias de abastecimento.

"As perturbações no transporte marítimo e a subida dos custos energéticos reduzem a oferta e aumentam os preços dos fertilizantes", o que "poderá ter repercussões em todos os sistemas alimentares", declarou Ngozi Okonjo-Iweala em Genebra.

Irão ameaça não ter "nenhuma contenção"

O Irão não demonstrará qualquer contenção se as infraestruturas energéticas do país forem novamente visadas, alertou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi.

"A nossa resposta ao ataque israelita contra as nossas infraestruturas mobilizou apenas uma fração do nosso poder", declarou Araghchi.

Seis países "prontos a contribuir" para segurar Ormuz 

França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Países Baixos e Japão condenaram os ataques iranianos a infraestruturas civis no Golfo e disseram-se "prontos a contribuir" para a segurança no Estreito de Ormuz.

 EUA admitem levantar sanções sobre petróleo iraniano em navios 

O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, declarou que os Estados Unidos poderão levantar as sanções sobre o petróleo iraniano já armazenado no mar em navios para travar a escalada dos preços da energia.

Na semana passada, foi decidida uma flexibilização temporária semelhante para o petróleo russo.

 "Mais do que tempo" de parar a guerra, segundo a ONU

"É mais do que tempo de pôr fim a esta guerra que corre o risco de se tornar completamente incontrolável, provocando imensos sofrimentos aos civis e repercussões na economia mundial", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, dirigindo-se aos Estados Unidos e a Israel.

"Sem calendário definido", segundo Washington

O secretário da Defesa norte-americano, Pete Hegseth, declarou que os Estados Unidos não têm um "calendário definido" para o fim das operações militares no Irão.

"Caberá ao Presidente, em última análise, decidir em que momento diremos que alcançámos os nossos objetivos", afirmou.

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