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A cidade sustentável, multicultural e (muito) ligada à música: Leipzig aos olhos de dois residentes portugueses

Localidade do Leste da Alemanha recebe o primeiro jogo de Portugal no Euro 2024. Em dias normais não falta música, este verão é o futebol que impera.

Localidade do Leste da Alemanha recebe o primeiro jogo de Portugal no Euro 2024. Em dias normais não falta música, este verão é o futebol que impera.

18 de junho de 2024 às 16:25

Johann Bach, Richard Wagner, Robert Schumann ou Felix Mendelssohn. O desfile de figuras da música clássica cuja partitura da vida se alinhou, a dado momento, pela cidade de Leipzig, é interminável.

Esta condição imprime na localidade do Leste da Alemanha, que esta terça-feira recebe a estreia de Portugal no Euro 2024, uma associação inseparável à música.

"Há uma forte atividade cultural. Não há concertos todos os dias, mas quase. Às vezes chegam a haver mais do que um há mesma hora", descreve João Távora.

Fala de música com prioridade. Licenciado em Música Antiga no Porto está agora a tirar um mestrado na Escola Superior de Música e Arte Dramática Felix Mendelssohn Bartholdy, em Leipzig, o que o permite olhar, também com conhecimento de causa, para a cidade onde chegou há três anos.

"Tinha opção de ir para outras cidades, mas o custo de vida em Leipzig é mais barato do que nas grandes cidades", explica o jovem de 22 anos de Coimbra. Se foram as promessas de poupar em alojamento ou no supermercado que seduziram João, o dinamismo de uma cidade com "educação para a música erudita" fortaleceram esta relação.

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As orquestras substituídas pelas seleções de futebol

Por estes dias, a música clássica é substituída na dinâmica orquestral da cidade como ponto central da vida dos seus habitantes. Os instrumentos ganham a forma de chuteiras cada vez mais modernas e a batuta do maestro é trocada pela braçadeira no braço do mister.

"A cidade já está decorada, há ecrãs para ver os jogos e zonas de fãs. Já se vai vendo bastante mais gente e muitos jornalistas", descreve outro português, mas levado para a cidade alemã com a mesma ambição musical de fundo.

Luís Oliveira, de 24 anos, foi de Paços de Ferreira para Leipzig para tirar um mestrado. Mesmo na Alemanha, admite acompanhar, "sempre que possível", os jogos do FC Porto e do Paços de Ferreira.

"Por norma [nós portugueses] vemos os jogos em casa uns dos outros. Em dias de clássico fazemos um jantar ou preparamos um encontro especial", descreve Luís.

O músico não esconde, ver Portugal campeão europeu no país onde tem como objetivo viver para sempre seria especial. Infelizmente, assume, não tem previsto assistir a nenhum jogo na Red Bull Arena, estádio onde até já entrou.

"Já fui ver um jogo do RB Leipzig, no ano passado contra o Eintracht Frankfurt, e gostei muito", conta, antes de explicar que as pessoas "gostam muito do clube, apesar de ser recente, em dias de jogo vêm-se muitos cachecóis nas ruas".

Fundado apenas em 2009, o emblema detido pela Red Bull é a equipa com maior expressão nesta cidade alemã. Ainda assim, a rápida ascensão impulsionada pela gigante do mundo das bebidas energéticas é olhada de lado por todos os que não cederam à onda conquistadora do clube com presença assídua nos melhores lugares da principal liga da Alemanha.

A relação de Luís com o europeu não se prende apenas com o facto de estar em Leipzig, ou de ser português. O estudante de música está ainda envolvido na organização do torneio.

"Faço de trabalho de armazém [para uma empresa contratada para o Euro 2024]. Ajudei a fazer as mochilas com os uniformes e estamos agora no estádio [onde Portugal vai jogar] a receber encomendas e a ajudar a montar coisas", descreve.

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A comunidade portuguesa em Leipzig

João assume que a comunidade académica ligada à música tem uma presença audível em Leipzig: "somos alguns, muitos colegas vêm para ganhar provas e construir carreiras".

Como habitual, o ponto de referência dos estrangeiros, quando se fala de Portugal, é sempre um. "A primeira figura que aparece é sempre o Cristiano Ronaldo. Fazem sempre o 'Siiii'", conta Luís, que destaca ainda "a comida e o turismo", como motivos de interesse nas conversas com portugueses.

Da terra que os viu partir sentem falta do bom peixe, do sol e, claro está, da família. Fatores que, ainda assim, não são suficientes para os fazer equacionar um regresso. "Sendo jovem preciso de estar fora e a Alemanha é um país que tem mais oportunidades", diz João, que, todavia, continua a ir, "em trabalho", quase mensalmente a Portugal.

"Gosto de ter a oportunidade de fazer coisas em Portugal, para as pessoas não se esquecerem e para conseguirem ver o meu trabalho", acrescenta o conimbricense.

Contrariamente ao que muitas vezes é dito, João não vê os alemães como antipáticos. "Sempre fui bem acolhido, é um processo que demora, porque é importante que saibas falar o alemão", acrescenta. "Há problemas quando não se fala alemão e não se tenta falar, que eles podem ser muito nacionalistas", concorda Luís.

A presença portuguesa em Leipzig faz-se sentir em estabelecimentos, alguns mais deslocados do centro, como restaurantes ou cafés. "Acho que havia um perto da estação central que entretanto fecho", atira João com a incerteza de quem divide a maioria do tempo entre estudos, casa e concertos.

"Eu sou uma pessoa de trabalho. Os alemães vivem muito bem a vida, sabem desfrutar", assume.

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Menos carros que Portugal e mais espaços verdes

"[Comparando com Portugal] as pessoas são mais civilizadas, há menos lixo, tudo está mais limpo. Há mais eficiência energética nas casas. Muitos transportes públicos. Aqui é possível ir a qualquer lado sem carro", detalha Luís.

O perfil traçado pelo português é consonante com a missão da UEFA para este Euro 2024. A organização da competição que fazer desta prova um exemplo de sustentabilidade.

"As pessoas aproveitam muito mais os espaços verdes. Vêm um bocado de sol e vão para a relva relaxar e comer", justifica.

João também destaca o lado mais ambientalista da cidade - com um terço da superfície coberta por espaços verdes - e compara mesmo a dedicação de portugueses e alemães em lidar com a importância deste tema.

"Os alemães estão muito mais comprometidos que nós. Não tenho carta de condução, mas sinto que não precisaria. Os incentivos e a forma como os transportes públicos funcionam não tem nada que ver. Não vejo carros no dia a dia e conheço poucas pessoas que tenham um."

O sistema de transportes da cidade conta ainda com uma das maiores estações ferroviárias do mundo, de onde pode partir em direção ao zoo, um local de visita obrigatória para os dois portugueses.

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Portugal "muitos anos atrás" na cultura

Regressando ao que levou João e Luís para terras germânicas, os dois são taxativos a apontar as diferenças com Portugal no âmbito cultural, mas não só.

"É um país que apoia a cultura e que tem grandes possibilidades para tudo o que é cultura. Dão mais valor à música, Portugal está muitos anos atrás", desabafa o pacense.

"O que me fascina em Leipzig é a quantidade e a grande atividade cultural e saber que o nosso trabalho é reconhecido. Comparando com Portugal, há mais opções na Alemanha", completa João.

A vivência multicultural numa cidade com posição privilegiada em relação a outros países europeus também motiva a admiração dos dois jovens.

Começando a caminhada numa cidade tão musical, os portugueses - em Leipzig e no resto do mundo - só podem exigir de Portugal um arranque afinado com as ambições de um país que já sabe o que é ser campeão da Europa. Se o disco girar e tocar o mesmo que em 2016, porventura ninguém virá dizer que não gosta de sons repetidos.

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