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Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

"Por favor, não me mates": soldado ucraniano sobreviveu duas semanas em abrigo russo

Vadym Lietunov fugiu do posto após um bombardeamento matar o seu companheiro. Quando encontrou refúgio, foi feito prisioneiro.

06 de maio de 2026 às 16:58

Vadym Lietunov viu um abrigo fortificado no meio das árvores, correu para lá convencido de que encontraria camaradas ucranianos. O seu próprio abrigo tinha acabado de ser destruído por um ataque russo e a única hipótese de sobreviver era fugir. Entrou apressadamente no bunker, gritou a identificação da sua brigada e só então percebeu, pelo sotaque do homem armado à sua frente, que estava no sítio errado.

Tudo começou no dia seguinte à sua chegada à linha da frente. "O bombardeamento começou logo de manhã" e repetia-se durante horas, com drones e morteiros a atingirem o abrigo onde se escondia com outro militar. "O inimigo sabia que estávamos lá. Estava a tentar matar-nos", contou Vadym Lietunov em entrevista ao The Guardian.

O inimigo sabia que estávamos lá. Estava a tentar matar-nos
Vadym Lietunov

Soldado ucraniano

Durante dias resistiram como puderam, apagando fogos e reconstruindo a trincheira improvisada. Mas a situação agravou-se quando uma explosão arrancou o teto do abrigo. "Olho para cima e já não temos telhado. Rebentou com tudo", relembra o soldado ucraniano.

O ataque foi fatal para o companheiro, perdeu as pernas no bombardeamento. Lietunov ainda tentou salvá-lo, mas percebeu que era tarde demais. Sabia também que outro drone poderia chegar a qualquer momento. Fugiu.

Desorientado, encontrou o abrigo, que acreditou ser ucraniano, e entrou a gritar por ajuda. Em vez disso, deu de caras com um soldado russo armado. Vadym Lietunov lembra-se do momento em que se apercebeu que o soldado que estava à sua frente não era ucraniano: "Tu não és dos nossos, pois não? Por favor, não me mates", disse.

O que se seguiu foi uma convivência improvável. O soldado russo, Nikita, garantiu: "Estás desarmado, não vou disparar." Mas a ameaça nunca desapareceu, explica Vadym Lietunov. "Punha a arma na minha testa e dizia: 'Vou matar-te agora'… e depois mudava de ideias."

Punha a arma na minha testa e dizia: 'Vou matar-te agora'
Vadym Lietunov

Soldado ucraniano

"Percebi que ele era um pouco limitado, então fiz-me de mais estúpido ainda." Perante a instabilidade do russo, Lietunov ganhou a confiança do soldado, evitou fugir e tentou manter o equilíbrio numa situação onde qualquer erro podia ser fatal.

A fome e a sede eram constantes, recebiam apenas pequenas rações por drone. Quando finalmente surgiu uma oportunidade, quando saíram para procurar água sob nevoeiro, Lietunov arriscou tudo. Colocou um sinal com o seu nome de guerra e o número da brigada, tentando chamar a atenção de drones ucranianos. Inicialmente, os operadores pensaram que se tratava de dois russos e prepararam novo ataque, cancelado apenas após confirmarem a identidade do militar desaparecido. Identificou-se a drones ucranianos, mas quase foi morto pelos mesmos. "Pensei: ou é o fim agora, ou o início de uma nova vida."

Dias depois, um veículo blindado ucraniano aproximou-se e os dois homens renderam-se à nova realidade: Lietunov regressou às suas linhas trazendo consigo o soldado que o capturou. Perdeu um dedo do pé, desloca-se de muletas e recebe tratamento num centro de reabilitação em Odessa. "É um milagre", afirmou. "Entrei como prisioneiro e saí com um prisioneiro."

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