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Kateryna Kochubey, refugiada ucraniana em Portugal

“Percebi que nunca mais voltaria a casa”: Kateryna relembra o dia em que perdeu tudo para a guerra na Ucrânia

Kateryna Kochubey é uma das milhares de mulheres que foram obrigadas a largar tudo para sobreviver.

Kateryna Kochubey é uma das milhares de mulheres que foram obrigadas a largar tudo para sobreviver.

23 de fevereiro de 2026 às 14:01

A história de Kateryna Kochubey, ucraniana de 40 anos, residente em Portugal desde março de 2022, é o retrato de uma realidade feita de perda, sobrevivência e reconstrução.

Quando a guerra se intensificou, Kateryna não tomou a decisão de partir, foram os pais que decidiram por ela. O corpo cedeu antes da sua vontade. Num estado de extremo stress, entrou num ‘coma’ psicogénico (estado de aparente perda de consciência que é causado por fatores psicológicos).

Saiu da Ucrânia no dia 9 de março de 2022, duas semanas após o início da invasão em larga escala. Levou apenas o essencial: um fato de treino, roupa interior, carregador de telemóvel e um kit de primeiros socorros - uma mala já preparada com o indispensável para sobreviver algumas noites num bunker.

Percebi que nunca mais voltaria
Kateryna Kochubey, 40 anos

Kateryna já tinha vivido a experiência de sair da Ucrânia em 2014, quando o conflito começou em Donbass, região onde vivia. Nessa altura, partiu com a ideia de que poderia regressar. Desta vez, foi diferente. A consciência era outra: "Percebi que nunca mais voltaria", recorda.

A casa onde vivia deixou de existir, foi destruída pelos ataques russos. 

Para muitas mulheres refugiadas, a guerra não significa apenas deslocação geográfica. Significa a rutura com o passado, com o espaço físico que sustentava a identidade e com a estabilidade que dava sentido ao quotidiano.

Quando se fala de guerra, fala-se sobretudo de soldados. Mas Kateryna sublinha uma realidade frequentemente esquecida: o papel das mulheres.

A irmã é voluntária. Muitas amigas estão a combater. Mesmo quando não estão na linha da frente, sustentam a retaguarda. “O papel da mulher na guerra é desvalorizado”, afirma Kateryna. “Embora não façam exatamente o mesmo que os homens, fazem muito. Muito do que existe mantém-se graças a elas.”

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Cerca de 70 mil mulheres servem nas Forças Armadas da Ucrânia e quase 20 mil estão ativamente na linha da frente ou em zonas de combate, desempenhando funções como atiradoras furtivas (snipers), operadoras de drones, médicas e comandantes de unidades, de acordo com a Euronews.

As mulheres são mães que ficam sozinhas com os filhos, líderes de comunidades, enfermeiras, voluntárias, combatentes. São também as que atravessam fronteiras com crianças pela mão, reorganizam a vida em países desconhecidos e procuram trabalho para sustentar a família.

A experiência de Kateryna em Portugal começou num hospital. No dia seguinte à chegada, foi transportada de ambulância. Voltou a entrar em coma já em território português. O diagnóstico ainda era incerto, mas a origem estava clara: o estado nervoso extremo provocado pela guerra.

Apesar do trauma, encontrou um ambiente acolhedor. Portugal, segundo as suas palavras, deu-lhe “uma nova vida”.

Até meados de 2025 e início de 2026, Portugal registou cerca de 60.000 a 65.000 pedidos de proteção temporária concedidos a pessoas vindas da Ucrânia.

As mulheres representam cerca de 60% do total de refugiados ucranianos em solo português. Isto significa que aproximadamente 36 mil a 39 mil mulheres ucranianas emigraram para Portugal especificamente devido à guerra.

Na Ucrânia, Kateryna tinha um negócio familiar na área de materiais de construção. Além disso, era pasteleira, fazia bolos como passatempo.

Em Portugal, trabalha como ama e faz limpezas. Continua a fazer bolos, que vende através do Instagram. A identidade profissional transformou-se, adaptou-se às circunstâncias.  "O mais duro é a impossibilidade de voltar ao que existia", garante.

Esta reinvenção é comum entre mulheres refugiadas, muitas vezes por existirem qualificações que não são reconhecidas, percursos interrompidos ou uma necessidade urgente de rendimento.

O mais duro é a impossibilidade de voltar ao que existia
Kateryna Kochubey, 40 anos

Para Kateryna, o mais difícil é saber que a casa onde cresceu e viveu a maior parte da vida já não existe.

Ainda assim há uma contenção emocional: “Não posso mostrar-me demasiado em baixo”, diz, pensando nos pais e nos irmãos. Mesmo no exílio, muitas mulheres continuam a assumir o papel de pilar emocional da família.

A trajetória de mulheres como Kateryna revela que a guerra não se vive apenas nas trincheiras. Vive-se nos hospitais, nos bunkers, nas fronteiras, nas casas emprestadas, nos empregos improvisados ou até nas redes sociais, onde se vendem bolos para reconstruir autonomia.

No final de 2025, a comunidade ucraniana total em Portugal (incluindo os que já residiam no país antes da guerra) ultrapassava os 79 mil cidadãos, consolidando-se como uma das maiores comunidades estrangeiras no país.

A maioria das mulheres chegou acompanhada por filhos menores, uma vez que a lei marcial na Ucrânia impede a saída da maior parte dos homens em idade militar.

A história de Kateryna é apenas uma entre milhares.

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