Major-General Isidro Pereira explica ao CM as vantagens deste tipo de equipamento, que consegue levar o combate a longas distâncias e a preços mais baixos.
Entrevista Drones Ucrânia Major-General Isidro de Morais Pereira
Medialivre
O uso de drones transformou radicalmente o decurso da guerra na Ucrânia, mudando taticamente a forma como o combate é conduzido, alterando prioridades de comando e desafiando tanto as forças russas como as ucranianas a adaptarem-se a um novo tipo de guerra altamente tecnológica.
Pela primeira vez, um conflito de grande escala está a ser travado sob vigilância aérea permanente, com custos relativamente baixos. O efeito surpresa foi reduzido, os movimentos das tropas tornaram-se muito mais arriscados e o ritmo das decisões militares foram acelerados.
Antes, localizar o inimigo exigia satélites, aviões ou reconhecimento humano. Atualmente, um drone relativamente barato pode revelar posições e atacar alvos em minutos.
Além disso, este tipo de equipamento permitiu à Ucrânia, enfrentando um adversário mais forte e bem equipado, compensar parte dessa desvantagem ao usar drones comerciais adaptados, produzidos localmente. Do outro lado, a Rússia respondeu com drones de longo alcance e ataques em massa.
"Os drones permitem uma forma mais eficaz de fazer a guerra, conseguem levar o combate a longas distâncias e a preços mais baixos. A forma como se combate foi completamente alterada. Vieram alterar a forma como são conduzidas as batalhas e também a forma como são planeadas as grandes operações", resume ao CM o Major-General Isidro Pereira, comentador do canal NOW.
"Enquanto um míssil pode ter um preço de vários milhões de dólares, um drone como o Shahed, por exemplo, custa apenas algumas dezenas de milhares de dólares", acrescentou.
Isidro Pereira, especialista em geopolítica, recorda que assistimos à utilização de drones praticamente desde o primeiro dia da guerra, mas que estes têm vindo a evoluir e a ser produzidos cada vez mais em maior escala.
No caso da Ucrânia, por exemplo, "que teve a perceção de que precisava de se armar e foi adquirindo equipamento ocidental", as forças militares começaram por utilizar o Bayraktar, drones de reconhecimento produzidos na Turquia, e os drones de ataque Kamikaze Switch Blade norte-americanos. A Rússia, que tinha drones de reconhecimento, foi reforçada pelo Irão, que lhes forneceu os conhecidos drones da classe Shahed 131, 136. "A Federação Russa também aumentou imenso a sua capacidade. Isto veio a alterar profundamente a forma como se combate", indica o Major-General.
"A partir de 2023 apareceram os drones FPV e a Ucrânia começou a fazer um aproveitamento destes equipamentos vendidos para fins pacíficos, caso dos quadricópteros ou hexacópteros, mas com modificações, muitas vezes produzidos em impressoras 3D e que eram portadores de munições, largadas em cima dos objetivos, de unidades de infantaria ou viaturas blindadas", assinala Isidro Pereira.
"A partir daí, as coisas começaram a evoluir numa progressão praticamente geométrica. Hoje em dia, se eu disser que a Ucrânia tem uma capacidade para produzir dois milhões de drones por ano, estou a ser pessimista, porque a Ucrânia produz muito mais do que isso", garante o Major-General.
Isidro Pereira refere que numa guerra de frentes a que estávamos habituados a assistir, "era 400 metros para um lado e 400 para o outro, que era normalmente a capacidade de tiro direto dos combatentes". "Neste momento, os combatentes utilizam drones, que são controlados na linha da frente e têm alcances que podem ir aos 40, 50 quilómetros", aponta.
Isidro Pereira lembra que os drones não são apenas utilizados a nível aéreo: "Muitos navios e até submarinos russos no Mar Negro foram destruídos por drones, pelos Sea Baby, pelos Maguras V5, pelos drones aquáticos. São pequenas embarcações, muitas capazes de vencer distâncias de mil quilómetros, controladas remotamente, e que transportam cargas explosivas que podem ir até mil quilos."
O Major-General alude também para a cada vez maior utilização de drones terrestres, "que inicialmente foram utilizados para evacuação sanitária ou para fins logísticos". "Evoluíram e hoje em dia já existem imagens que mostram soldados combatentes a renderem-se a drones terrestres, que são controlados remotamente, que têm armas e que disparam, e que levam o combate mais além".
Apesar de os drones permitirem ataques controlados e específicos, Isidro Pereira contraria a tese de que o uso destes equipamentos fez baixar o número de baixas no terreno. "Aquilo que dizem as informações e as estatísticas é que o número de baixas até aumentou. Porque o problema é que praticamente tudo o que se mexe é visto de cima. É como se houvesse um 'Big Brother' que vê tudo. Portanto, é muito mais difícil aos combatentes procurarem abrigos e dissimularem-se no campo de batalha", referiu.
Isidro Pereira não tem dúvidas de que os drones e a sua evolução vertiginosa em termos de tecnologia vão mudar o decurso de futuras guerras: "A automação do campo de batalha é uma realidade, e veio para ficar. Não me admiraria nada que, dentro de alguns anos, observássemos não militares, mas androides, ou uma espécie de humanoides empunhando armas e a combaterem. A adição da Inteligência Artificial a este tipo de máquinas vem trazer, naturalmente, uma dimensão diferente ao campo de batalha."
"Ainda há muito para fazer, há que desenvolver mais e melhor a parte mecânica e a informática, a parte da computação, mas com o advento da Inteligência Artificial, tudo isto acelera exponencialmente", concluiu o Major-General.
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