Para quem cresce na guerra, toda a memória está ligada ao som das sirenes, abrigos subterrâneos e à rotina de fugir para zonas seguras sempre que a ameaça se aproxima.
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Quatro anos de guerra na Ucrânia transformaram a vida de milhões de crianças. Para muitas, as sirenes e as explosões não são algo incomum, são parte do quotidiano. Nascidas durante o conflito ou ainda bebés quando este começou, cresceram a saber o que é o barulho das bombas e o cheiro da destruição.
Os dados mais recentes mostram que uma em cada cinco crianças no país perdeu um familiar ou amigo desde a escalada do conflito, e que estas experiências moldam a forma como crescem, aprendem e sonham com o futuro.
Para crianças que estão a crescer na guerra, toda a memória, e muitas vezes a dos pais ou cuidadores, está ligada ao som das sirenes, abrigos subterrâneos e à rotina de fugir para zonas seguras sempre que a ameaça se aproxima. As próprias brincadeiras são um reflexo da realidade dos mais pequenos. Mesmo quando não há bombardeamentos, o ruído distante ou o tremer do chão pode ser o suficiente para interromper as atividades do dia a dia.
Crianças ucranianas brincam vestidas de militares
Tetiana nasceu em Kiev um mês após o início da guerra. A mãe conta ao Save the Children que os filhos estão cada vez mais perturbados e que a pequena Tetiana, nos seus tenros quatro anos de idade, é exemplo disso. Sempre que ouve uma porta a bater, diz: "Há uma explosão, vamos para o abrigo!".
A escola, o desenvolvimento interrompido e o impacto psicológico
As consequências vão muito além do medo. Relatórios da UNICEF mostram que mais de 1600 instalações educacionais foram danificadas ou destruídas desde o início do conflito, privando milhares de crianças de uma educação estável.
O impacto psicológico também é profundo. O Save the Children aponta que muitos menores exibem sinais de angústia: ansiedade, medo persistente, dificuldades de concentração e alterações no sono.
Alguns profissionais na área da psicologia relatam que muitas crianças desenvolvem respostas físicas ao stress, como o medo de barulhos fortes ou dificuldades na comunicação.
“Trabalho com vários meninos muito pequenos que, ao ouvirem certas palavras que lhes lembram a guerra, ficam em silêncio e apenas olham para o nada”, explica uma psicóloga ucraniana, Maria, numa carta de apelo.
Sem intervenção adequada, estas crianças podem carregar consigo as cicatrizes da guerra para a vida adulta, afetando não só a saúde mental, mas também o desenvolvimento social e emocional.
“Muitas crianças passam horas constantemente abrigadas em porões, perdendo as oportunidades de socializar e aprender. Quase 40% das crianças estudam apenas online ou através de uma combinação de aulas presenciais e remotas. O impacto na aprendizagem tem sido profundo”, explica a UNICEF.
Apesar de alguns programas humanitários tentarem aliviar o trauma e criar espaços seguros para brincar e aprender, a verdade é que a grande maioria dessas crianças não conhece um mundo sem guerra. Para elas, infância e conflito tornaram-se sinónimos, e o peso dessa realidade não desaparecerá com o silêncio das sirenes.
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