Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo

Processo de produção inclui a secagem da palha e a preparação em panelas com tintas para criar peças coloridas, muito procuradas por visitantes estrangeiros e clientes locais.

18 de maio de 2026 às 09:23
Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo Foto: Luísa Nhantumbo/Lusa
Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo Foto: Luísa Nhantumbo/Lusa
Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo Foto: Luísa Nhantumbo/Lusa
Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo Foto: Luísa Nhantumbo/Lusa
Cestos e móveis de palha feitos à mão alimentam famílias em Maputo Foto: Luísa Nhantumbo/Lusa

1/5

Partilhar

Nos passeios das avenidas de Maputo, artesãos moçambicanos sobrevivem da produção e venda de cestos, bolsas e móveis de palha feitos à mão, uma atividade informal que depende de encomendas e clientes ocasionais para sustentar famílias inteiras.

Sentado numa pequena barraca improvisada entre as movimentadas avenidas Mao Tse Tung e Kim Il Sung, na capital moçambicana, por onde passam carros e potenciais compradores, Lucas Agostinho Dzimba, 37 anos, expõe todos os dias cestos, cabazes e pequenas bolsas produzidas com palha e sisal, apesar de nem sempre conseguir clientes.

Pub

"Fico três, quatro, cinco dias sem vender nada. Mas às vezes, um dia, aquele dia que eu venho vender, fecho aqueles dias", conta à Lusa o artesão, que vende na rua desde 2019, depois de ter deixado um emprego como motorista, e com esta arte teve dias de sorte em que conseguiu voltar para casa com sete mil meticais (93 euros) a nove mil meticais (119,9 euros) de vendas.

Lucas explica que alguns produtos são feitos por si próprio, enquanto outros chegam da província de Inhambane, no sul de Moçambique, onde a tradição de trançar palha atravessa gerações. Parte do material é comprada no mercado do Xipamanine, o maior informal de Maputo, enquanto outros tipos de fibras são adquiridos no país vizinho Essuatíni.

Além de cestos e cabazes tradicionais, o artesão produz bolsas femininas, suportes para garrafas e bases decorativas para pratos e utensílios de cozinha. Recentemente concluiu uma encomenda de mais de vinte suportes de palha destinados a um restaurante da cidade, conta.

Pub

Segundo o artesão, quando surgem encomendas maiores mobiliza até cinco pessoas para acelerar a produção, entre familiares e colaboradores.

"O grande foco é a encomenda. É a encomenda que edifica o homem. Quando alguém tem encomendas até podia estar aqui com uma carrinha a fazer Yango [táxi por aplicativo] e vender os meus cestos", diz, expressando o desejo de melhorar o seu futuro, apontando ainda os fins de semana como os dias de pico de vendas.

Lucas sustenta vários familiares com o rendimento da atividade e vive com a madrasta, uma sobrinha e dois filhos, enfrentando frequentemente períodos sem vendas.

Pub

"Ficar em casa sem energia, sem arroz para vir estar aqui na estrada, passar uns três, quatro dias sem sair com um pão, é uma grande dificuldade", lamenta.

A poucos metros da improvisada banca de Lucas, Hélio Daniel trabalha na montagem de novas peças, num ofício que o artesão aprendeu ainda jovem com familiares e hoje produz vasos, candeeiros, bolsas e cestos decorativos.

"Aprendi com o meu avô em Inhambane, há cerca de 10 ou 12 anos. Depois também estudei na escola, onde aprendi muitas coisas, e acabei por considerar seguir este trabalho", diz.

Pub

O processo de produção inclui a secagem da palha e a preparação em panelas com tintas para criar peças coloridas, muito procuradas por visitantes estrangeiros e clientes locais.

"Temos candeeiros pequenos e médios, cestos de vários tamanhos. O preço depende do tamanho e também do cliente. Um [cesto] médio pode custar cerca de 400 meticais (cinco euros)", aponta o artesão, referindo parte do dinheiro da venda de uma peça é reinvestido na compra de novo material, permitindo manter a produção.

"Várias pessoas compram, por exemplo, pessoas que vêm de fora, Portugal, América, Espanha, Itália, vários países. Pessoas daqui de casa também", afirma, acrescentando que a atividade ajuda nas despesas diárias e na alimentação do filho, mas não é suficiente para sustentar os vários familiares com quem vive.

Pub

Ao longo da avenida Marginal, na zona da praia Costa do Sol, outro artesão, António Bila, de 53 anos, dedica-se à produção de móveis maiores feitos com ferro e palha, incluindo cadeiras, estantes, cómodas e guarda-fatos.

"Comecei a fazer isso aqui, tinha uns 15 a 17 anos. Eu ia à escola nesse momento, então aprendi isso nos anos 80 a 90", conta, referindo que primeiro produziu cestos, mas depois quis "fazer coisas grandes".

António trabalha com uma pequena equipa de cinco pessoas, incluindo familiares e colaboradores, para produzir o mobiliário que pode levar até uma semana a concluir.

Pub

Por ali, um conjunto de cinco lugares, com mesa, custa 21 mil meticais (300 euros), por pintar, explica o artesão, para quem a atividade é a única fonte de rendimento da família, que inclui cinco filhos, mas que também depende da chegada ocasional de clientes.

"Às vezes acabo um mês sem vender nada, [mesmo assim] (...) não paramos de produzir porque sabemos que qualquer dia vai aparecer um, porque é muita gente que tem lodge, nessas zonas das [praias] de Macaneta, Bilene, são eles que compram mais", diz.

Durante a época chuvosa, António refere que a produção enfrenta dificuldades adicionais, já que a palha utilizada no fabrico dos móveis é recolhida em zonas como Inhambane e Ponta do Ouro, onde o acesso fica limitado pelas chuvas.

Pub

Trabalhando ao ar livre, junto à estrada e próximo do mar, o artesão também defende melhores condições para os produtores locais.

"São coisas bonitas, mas [...] um cliente vir apanhar as coisas no chão, assim, para ele meter lá [na casa dele], não fica bem", afirma António Bila.

Entre cestos coloridos, bolsas de palha e móveis artesanais alinhados à beira da estrada, os artesãos continuam a produzir diariamente, esperando que a passagem de clientes ou novas encomendas permita garantir o sustento das famílias que dependem deste ofício tradicional.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar