Um em cada 5 europeus vê EUA como inimigo um ano depois de Trump regressar
Resultados de inquérito feito a 25.949 pessoas em 10 países da UE revelam que apenas 16% dos europeus vê, hoje em dia, o parceiro da NATO como um aliado.
Um em cada cinco cidadãos da União Europeia considera que os Estados Unidos se tornaram um país rival ou inimigo, um ano depois de Donald Trump regressar à Casa Branca, revela um inquérito divulgado esta segunda-feira.
A sondagem, feita a 25.949 pessoas em 10 países da União Europeia (UE), nos Estados Unidos, China, Índia, Rússia, Turquia, Brasil, África do Sul, Coreia do Sul, Suíça, Reino Unido e Ucrânia, foi encomendada pelo Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros (ECFR, na sigla em inglês) para determinar a perceção dos cidadãos relativamente aos Estados Unidos, um ano após Trump assumir a presidência daquele país.
Os resultados, divulgados a poucos dias da cimeira europeia extraordinária para debater as tensões relativas às ameaças norte-americanas sobre a Gronelândia, que deverá acontecer em Bruxelas na quinta-feira, mostram que apenas 16% dos europeus vê, hoje em dia, o parceiro da NATO como um aliado.
"Entre os cidadãos da UE, a mudança na perceção dos Estados Unidos é especialmente acentuada", refere o ECFR na análise divulgada esta segunda-feira.
De acordo com o ECFR, o inquérito mostra que muitos cidadãos europeus olham para o cenário atual do Ocidente como um risco e estão entre os principais pessimistas do mundo.
Cerca de metade (49%) duvida que o futuro traga algo de bom para os seus países ou para o mundo (51%) e a maioria (46%) não acredita que a UE seja uma potência capaz de negociar em pé de igualdade com os EUA ou a China.
Estas dúvidas aumentaram ligeiramente nos últimos 12 meses (eram de 42% em 2024), mas o pessimismo é ainda maior em relação a um possível conflito armado.
Quatro em cada 10 cidadãos da UE manifestam elevados níveis de preocupação com a possibilidade de uma agressão russa aos seus países e mais de metade (55%) receia uma grande guerra europeia e o uso de armas nucleares (57%).
Por isso, existe agora um forte apoio em toda a Europa ao aumento das despesas com a defesa (52%), à reintrodução do serviço militar obrigatório (45%) e até ao desenvolvimento de uma dissuasão nuclear europeia (47%).
"As visões agressivas e desdenhosas de Trump e [do Presidente russo, Vladimir] Putin sobre a Europa podem estar entre os principais fatores que moldam as perceções na Europa", avançam os analistas do ECFR, adiantando que estas perceções são também aprofundadas pelo discurso de partidos populistas nacionalistas e antiliberais em todo o continente.
Já os norte-americanos pouco ou nada alteraram as suas opiniões sobre a UE, com 40% a considerarem o bloco europeu como aliado e metade (49%) a dizer que "a segurança europeia é também a segurança norte-americana".
Noutros locais do mundo, a perceção dos Estados Unidos também está em declínio, ao contrário da visão sobre a China, que se está a tornar cada vez mais favorável.
O estatuto dos EUA como aliado enfraqueceu em quase todos os países inquiridos, com exceção da Índia, onde proporções semelhantes de inquiridos consideram tanto os Estados Unidos (54%) como a Rússia (46%) como aliados.
Ainda assim, há menos indianos a dizer que a reeleição de Donald Trump foi boa.
No final de 2024, 84% dos indianos consideravam a vitória de Trump nesse ano como algo bom para o seu país, percentagem que desceu agora para 53%.
Ao mesmo tempo, os cidadãos das principais potências médias esperam que a influência global da China aumente na próxima década.
Isto é especialmente pronunciado na África do Sul (83%), no Brasil (72%) e na Turquia (63%).
Na UE, a maioria das pessoas espera que a China se torne, nos próximos 10 anos, líder mundial na produção de veículos elétricos e no desenvolvimento de tecnologias de energias renováveis, uma opinião que ganhou força nos últimos dois anos.
Em termos globais, não só mais pessoas acreditam que a China está a ascender geopoliticamente e a liderar nos setores mais inovadores, como poucas parecem temer esta trajetória.
Só na Ucrânia (55%) e na Coreia do Sul (51%) é que a maioria das pessoas vê a China como rival ou adversária.
Em muitos outros locais, como a África do Sul (71%), o Brasil (52%), a Rússia (46%) e a Turquia (46%), a maioria espera que a relação do seu país com a China se fortaleça nos próximos cinco anos.
Convocados no domingo pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, os líderes da UE vão reunir-se esta semana para debater as tensões relativas às ameaças norte-americanas de compra ou anexação da Gronelândia, ilha ártica com estatuto autónoma mas que faz parte do reino da Dinamarca.
O Presidente norte-americano avisou que iria impor tarifas a seis Estados-membros (e outros dois países europeus) que enviaram militares para a Gronelândia na sequência das ameaças.
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