"Houve quem comprasse, na hora, um barco e fugisse", revelou Carlos Silva.
Uma aparente normalidade no bar de um hotel em Kiotari, na Grécia, enquanto as chamas se aproximavam, levou o português Carlos Silva a associar a circunstância aos últimos momentos do Titanic, mas desta vez com um final mais feliz.
"As chamas a um quilómetro e o bar cheio, com muitos à conversa e a usufruir de bebidas. Só faltava a orquestra a tocar", disse o português, que vive na Alemanha.
Carlos Silva estava com a mulher e a filha de 3 anos a usufruir de uma quinzena de férias na estância balnear de Kiotari, na ilha grega de Rodes, quando foi apanhado pelo incêndio que há vários dias fustiga aquela zona.
Os fogos tinham começado na terça-feira passada, mas a vida corria com normalidade em Kiotari, que conta com dezenas de hotéis e é muito procurada por turistas de todo o mundo.
Na sexta-feira, a imagem de uma coluna de fogo e alguma cinza indicavam que as chamas estavam mais próximas, ajudadas pelos fortes e quentes ventos, mas os hotéis asseguravam que permaneciam longe.
No sábado, tudo mudou. O fumo tapou o sol, a cinza não parava de cair e muitos foram os que se apressaram a fazer as malas. O hotel afirmava que a proteção civil não aconselhava a evacuação e apelava à calma, convidando os turistas a usufruir do bar no átrio.
A proteção civil começou então a bater às portas dos hotéis a dizer que tinham de sair urgentemente, o que levou quase 20.000 pessoas a iniciar uma fuga, a maioria a pé e cerca de 3.000 de barco.
"Houve quem comprasse, na hora, um barco e fugisse", observou.
Carlos Silva e a família optaram por sair a pé, pois a espera na praia avizinhava-se difícil por causa do fumo e, soube depois o português, as coisas não correram muito bem para quem escolheu sair pelo mar.
Na rua era muito o fumo e o barulho, nomeadamente de helicópteros envolvidos no combate às chamas. Milhares de pessoas estavam nas ruas a caminhar, algumas com crianças ao colo e poucos pertences, pois a maioria das malas ficara nos hotéis.
Carlos e a família chegaram a outro hotel, entretanto transformado numa espécie de centro de acolhimento. Mas as chamas seguiram-nos e tiveram de sair.
"Já tínhamos estado com o fogo a um quilómetro, não quis arriscar e fomos em direção a uma parte da ilha mais afastada do fogo e menos habitada", contou.
No caminho encontraram elementos do exército grego, que estavam a ajudar nas evacuações, mas também aí as coisas não foram fáceis, pois a carrinha onde seguiam avariou, sendo substituída por outra que avariou igualmente.
"Tivemos de fazer percurso a pé, sem luz, com uma criança ao colo".
A família chegou finalmente a outro hotel, na parte oeste da ilha, o segundo refúgio desde o início da fuga. Aí ficaram até às 09:00 de domingo, num espaço planeado para mil pessoas, mas onde se encontravam 5.000, deitadas em toalhas de mesa, ao relento, sem comida e água suficientes, sem eletricidade e sem informações.
Carlos Silva quis continuar e, ao fim de horas ao telefone, conseguiu um táxi que os transportou, juntamente com um grupo de italianos que não sabiam falar inglês e por isso estavam isolados de todos, para o aeroporto, onde já estavam milhares de pessoas.
Sem garantia de voos, a família optou por apanhar um barco -- muito frequentes na região e com a estrutura de um cruzeiro -- que os levou até à ilha de Kos, onde o fogo já não é uma ameaça e se encontram desde domingo à noite.
Com a viagem de regresso a Berlim marcada para quarta-feira, a família tenta ultrapassar o susto de vários dias de fuga e que transformaram um sonho em pesadelo.
A paixão pela Grécia, que é antiga, vai continuar e Carlos Silva garante que vai regressar, até porque "só não gosta da Grécia quem não conhece a Grécia". Mas não a Rodes, porque as más memórias são muitas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal disse indicou segunda-feira que tem estado "em contacto com 19 portugueses" na Grécia, na sequência dos incêndios que estão a afetar este país.
O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, declarou na segunda-feira que a Grécia estava "em guerra" contra os incêndios florestais que assolam o país, que tinha então "mais três dias difíceis" pela frente devido às altas temperaturas.
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