Nome de diplomata francês surge por diversas vezes nos ficheiros associados ao criminoso sexual norte-americano.
O Governo francês incentivou esta quarta-feira "as mulheres que tenham sido vítimas» em casos relacionados com o processo Jeffrey Epstein a "falarem e recorrerem à justiça", revelou esta quarta-feira a porta-voz do executivo, Maud Bregeon
"É claro que toda a luz deve ser feita sobre este caso terrível e tentacular", afirmou Bregeon, após uma reunião do Conselho de Ministros francês, considerando que cabe à justiça "fazer o seu trabalho".
O apelo do governo surge pouco depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, manifestar-se "estupefacto e indignado" com os factos revelados na véspera que envolvem um diplomata francês, Fabrice Aidan, cujo nome surge por diversas vezes nos ficheiros associados ao criminoso sexual norte-americano.
"Quando tive conhecimento destas informações, fiquei estupefacto e fiz o que qualquer pessoa teria feito no meu lugar", ao comunicar os factos à justiça e desencadear um inquérito administrativo, bem como um procedimento disciplinar, declarou o ministro à rádio RTL.
Assegurou ter tomado conhecimento desta situação apenas na terça-feira, o que "o indigna pessoalmente".
Os factos alegados "são de extrema gravidade", afirmou.
"Mas proíbo-vos de insinuar que isso possa manchar os agentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros [...] que nada têm a ver com isto", acrescentou, sem "excluir" que outros diplomatas franceses possam estar implicados.
Aidan é atualmente "secretário principal dos Negócios Estrangeiros em situação de licença por conveniência pessoal", indicou Barrot na terça-feira à noite na rede social X e exercia funções na empresa de energia Engie, que o suspendeu na sequência das revelações na comunicação social, informou o grupo à AFP.
A divulgação de três milhões de documentos da investigação ao criminoso sexual norte-americano Epstein, feita no início deste mês, reacendeu controvérsias que atingem figuras políticas, a realeza britânica e norueguesa e instituições internacionais, com impactos em França, Reino Unido, México e Rússia, bem como envolvendo o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo documentos consultados pela AFP, Aidan trocou, ao longo de vários anos, dezenas de mensagens de correio eletrónico com Epstein, que se suicidou na prisão em 2019.
Segundo o Mediapart e a Radio France, que revelaram o caso, Aidan terá dado a Epstein "informações diplomáticas, serviços ou os seus contactos a nível internacional".
As primeiras trocas de mensagens registadas remontam a 2010, quando o diplomata estava destacado pela França junto das Nações Unidas, onde era conselheiro do diplomata norueguês Terje Rod-Larsen, que é também alvo de uma investigação na Noruega, assim como a sua mulher, Mona Juul, por "cumplicidade em corrupção agravada" e "corrupção agravada", devido às suas ligações a Epstein.
A divulgação dos ficheiros Epstein levanta "suspeitas graves sobre atos ilícitos cometidos por indivíduos, mas também sobre influências de ingerência na vida política de países europeus, incluindo a França", afirmou ainda Jean-Noël Barrot à RTL.
"Parece-me que o lugar destes documentos é nos tribunais, nos tribunais judiciais, e não nas redes sociais", acrescentou.
Segundo o Mediapart, a ONU foi alertada em 2013 pelo FBI para a existência de uma investigação suscetível de implicar Fabrice Aidan, em Nova Iorque, por alegadas consultas de portais de pornografia infantil.
Um porta-voz do Quai d'Orsay explicou ao Mediapart que, não tendo sido deduzida qualquer acusação pela justiça norte-americana à época, não foi equacionada qualquer sanção em França.
Barrot não comentou este ponto na RTL.
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