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Correio da Manhã

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Libertado jornalista refugiado que esteve seis anos detido pela Austrália

Behrouz Boochani relatou os crimes cometidos num centro de imigrantes na ilha de Manus.
Mariana Branco/SÁBADO 14 de Novembro de 2019 às 14:53
Behrouz Boochani
Behrouz Boochani
Behrouz Boochani
Behrouz Boochani
Behrouz Boochani
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Behrouz Boochani
Behrouz Boochani

O jornalista e escritor curdo-iraniano Behrouz Boochani esteve seis anos detido num centro de imigrantes na ilha de Manus, ao norte de Papua Nova Guiné. Foi para lá, de barco, pedir asilo à Austrália mas acabou vítima das políticas que impedem o acolhimento de imigrantes que tentam entrar no país por via marítima. Esta quinta-feira chegou à Nova Zelândia e prometeu nunca mais voltar ao sítio onde esteve preso.

Durante os anos que passou no centro de imigrantes, Boochani tornou-se numa das vozes da ilha de Manus que lutava pelos direitos daqueles detidos pela Austrália. Viu amigos serem mortos, esfaqueados e assassinados por guardas. Viu outros morrerem por negligência médica ou a enlouquecer até ao suicídio, contou ao The Guardian.

Foi torturado, duas vezes, por vários dias numa solitária do agora demolido centro de detenção de Manus. 

"Nunca mais vou voltar àquele lugar", disse ao jornal britânico. "Só quero ficar livre do sistema, do processo. Só quero estar nalgum lugar onde sou uma pessoa, não um número, não um mero refugiado". 

Extasiado por estar livre, como explicou, o jornalista curdo-iraniano está, ao mesmo tempo, muito cansado. "Depois de mais de seis anos, estou muito, muito cansado. Mas estou feliz por estar longe daquele lugar". 
 
"Toda a gente em Manus carrega muitas memórias dolorosas, não os podemos deixar naquela ilha", disse. Behrouz Boochani explicou ao jornal que cerca de três quartos dos refugiados enviados para a Papua Nova Guiné desde 2012 tinham ido embora - para a Austrália, para os Estados Unidos ou para outros países. Mas sete morreram. O ativista assegurou que ainda estão 46 homens presos.

Foi no centro de imigrantes que escreveu, através do WhatsApp, o livro No Friend But the Mountains: Writing from Manus Prison (Sem amigos, apenas as montanhas: Escrevendo a partir da prisão de Manus, em tradução livre).

A obra, que retrata a experiência do ativista defensor dos direitos humanos no centro para imigrantes que a Austrália tem em Manus, foi distinguido em agosto deste ano com o National Biography, um dos prémios literários mais importantes da Austrália. Com o mesmo livro, Boochani recebeu em fevereiro o Prémio Literário Premier da Austrália, na categoria de não ficção.

Através do Twitter, Boochani partilhou a sua liberdade. "Acabei de chegar à Nova Zelândia. Estou tão entusiasmado por ter liberdade depois de mais de seis anos", escreveu.


"Os homens esquecidos da ilha de Manus"
O centro de detenção de Manus encerrou em 2017. No entanto, Boochani fez parte de um grupo de 600 homens que permaneceram na ilha em campos de refugiados sem poder ir à Austrália - que recusou acolher os imigrantes que tentaram entrar no país por via marítima.

Há cerca de um ano, e mais de um ano depois do campo de detenção da ilha de Manus ter sido declarado inconstitucional, um relatório da Amnistia Internacional e do Conselho da Austrália para os Refugiados pedia aos governos australianos e da Papua-Nova Guiné que agissem com urgência para salvar vidas na ilha de Manus.

"Até quando? Os homens esquecidos da ilha de Manus" denunciava que, além de os cerca de 600 refugiados e requerentes de asilo não saberem quanto tempo teriam que permanecer na ilha, sofriam com o corte nos serviços de saúde e reduzido o número de psicólogos disponíveis para dar apoio.

As duas organizações revelavam que estes homens enfrentavam "ameaças contínuas à sua segurança" e denunciavam 
ainda o suicídio de três pessoas, "movidas pelo desespero de passarem anos numa prisão a céu aberto".

A Austrália mantém em vigor uma estrita política de acolhimento de refugiados, mantendo todos os requerentes de asilo retidos na ilha de Nauru, uma república independente, e na ilha de Manus.

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