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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Lula da Silva nomeia aliada radical para ser ministra da articulação política

Nome de Gleisi Hoffmann já estava a ser citado há altum tempo para ser nomeada ministra, a sua ida para o governo não foi surpresa alguma, a surpresa foi ter sido escolhida para a pasta da articulação política

01 de março de 2025 às 15:49

Numa decisão que surpreendeu e desagradou muito, o presidente Lula da Silva nomeou no final desta sexta-feira a actual presidente do seu Partido dos Trabalhadores, PT, Gleisi Hoffmann, como nova ministra das Relações Institucionais, a pasta responsável pela articulação política do governo com partidos e instituições e, acima de tudo, com o hostil Congresso, comandado por conservadores. A escolha desagradou profundamente até a aliados mais sensatos do veterano chefe de Estado, pois a pasta da articulação política exige do seu titular capacidade de dialogar e negociar, muita paciência e flexibilidade, características que, definitivamente, não fazem parte do perfil de Gleisi.

Famosa pela sua defesa intransigente de Lula e do PT, Gleisi Hoffmann comandou o partido presidencial nos últimos anos com mão de ferro e é conhecida pela extrema frontalidade e combatividade. Com respostas contundentes e frases de efeito contra adversários políticos, ela é classificada como a líder da chamada “tropa de choque” de Lula da Silva, de quem foi a única porta-voz autorizada enquanto o agora presidente esteve preso no sul do Brasil por 580 dias, antes de as sentenças que o levaram à prisão terem sido anuladas pela justiça por irregularidades cometidas pelo então juiz Sérgio Moro.

O nome de Gleisi Hoffmann já estava a ser citado há altum tempo para ser nomeada ministra, a sua ida para o governo não foi surpresa alguma, a surpresa foi ter sido escolhida para a pasta da articulação política. Gleisi já foi ministra 11 anos atrás, quando comandou a pasta da Casa Civil no governo de Dilma Rousseff, depois destituída.

Assim que a nomeação de Gleisi Hoffmann começou a circular, as reacções negativas não se fizeram esperar. O dólar, cuja cotação aumenta ao menor sinal de crise, disparou bruscamente, a Bovespa, a bolsa de valores brasileira, caiu, e analistas de todos os quadrantes avaliaram que a escolha tinha sido um grande erro de Lula, não porque a nova ministra não tenha qualidade, mas por ser do enfrentamento e não do diálogo.

A leitura que se faz da nomeação é que Lula, que está a enfrentar uma reprovação nunca antes sentida nos seus três mandatos presidenciais e que está a afectar claramente a governabilidade do país, ao invés de fazer mudanças no governo que garantissem essa governabilidade e uma recuperação gradual da popularidade até final do mandato, em 2026, escolheu ir para o tudo ou nada na tentativa de viabilizar o seu sonho de ser reeleito para um quarto mandato no final do ano que vem. Gleisi, que já foi deputada e senadora e tem conhecimento profundo dos meandros e bastidores da política e do Congresso, poderá, assim parece esperar Lula, costurar acordos que viabilizem a tão sonhada candidatura a mais uma reeleição, mesmo que em prejuízo de uma governabilidade tranquila até lá, o que, na opinião de boa parte dos analistas políticos, leia-se a grande maioria, pode transformar-se num tiro no pé e revela o desespero do actual chefe de Estado, que aos 79 anos nunca se tinha sentido tão rejeitado pelos brasileiros, rejeição que em alguns estados, mostraram sondagens divulgadas esta semana, chega a 70%.

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