Os trabalhos de desminagem em Moçambique começaram logo após o Acordo Geral de Paz, em 1992.
As autoridades moçambicanas contam declarar o país livre de minas terrestres ainda este mês, disse à Lusa o diretor do Instituto Nacional de Desminagem, adiantando que já não existem engenhos em zonas secas em todo o território.
"Vamos declarar este mês Moçambique livre de minas", afirmou Alberto Maverengue, na véspera do Dia Internacional para a Sensibilização para o Perigo de Minas, acrescentando que, a 10 de abril, será anunciado o fim das operações de limpeza na província de Manica, no centro do país, e que se encontrava altamente contaminada na zona fronteiriça com o Zimbabué.
Na província de Sofala, uma das mais densamente minadas, Nhamatanda e Chibababa eram dois dos últimos distritos que concentravam as operações dos sapadores e os trabalhos também já terminaram, avançou Alberto Maverengue.
Apenas uma área submersa em Dondo, também na província de Sofala, e outras três, igualmente debaixo de água, na província de Inhambane, permanecem por limpar, "mas estão claramente demarcadas e as populações devidamente avisadas", esclareceu o diretor do Instituto Nacional de Desminagem.
No dia 9 de abril, as autoridades moçambicanas farão uma derradeira reunião, informou Maverengue, sobre o fim da ação de desminagem no país, ao fim de mais de 20 anos de operações.
"Vamos decidir o que fazer com o equipamento e informar os parceiros de que não precisamos de mais dinheiro para as minas", declarou o responsável do instituto dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, observando que, paralelamente, prosseguem ações de formação junto da polícia, para lidar com eventuais casos residuais que venham a surgir.
Segundo Maverengue, a declaração de Moçambique livre de minas terá uma cerimónia oficial, em lugar ainda por decidir, mas seguramente decorrerá em Sofala, por ter sido a última província descontaminada, ou em Tete, a mais densamente atingida pela plantação destes explosivos.
Em dezembro, as autoridades moçambicanas esperam fazer o anúncio formal à comunidade internacional, no âmbito da reunião em Genebra dos estados-membros da Convenção de Otava, que regula a desminagem em todo o mundo.
Os trabalhos de desminagem em Moçambique começaram logo após o Acordo Geral de Paz, em 1992, que encerrou 16 anos de guerra civil, e estavam então a cargo da missão da ONU. Dois anos depois, as autoridades moçambicanas assumiram as operações, quando se estimava que a limpeza demoraria entre 50 e cem anos, com centenas de milhares de engenhos plantados durante a guerra colonial, a agressão da antiga Rodésia e o conflito interno entre Governo e Renamo.
O cenário não era tão catastrófico como se previa, ainda assim Moçambique era considerado, a par de Angola, Bósnia, Camboja, Afeganistão, um dos cinco países mais minados do mundo e deverá tornar-se no primeiro deles a ser declarado limpo. Estima-se que 123 dos 128 distritos moçambicanos tenham sido minados, cobrindo 95% da sua superfície. Em duas décadas, foi varrida uma área equivalente a 32 mil campos de futebol, com incidência nas grandes infraestruturas.
Só da barragem de Cahora Bassa e áreas adjacentes na província de Tete saíram cerca de 40 mil do total de 300 mil minas que se calcula terem sido neutralizadas desde 1992. Mais de cinco mil estavam na linha de alta tensão entre Maputo e Komatipoort, na África do Sul, e 2.700 noutra linha energética entre Manica e a Beira.
Dados do censo de 2007 indicam a existência em Moçambique de dez mil vítimas de minas, embora o diretor do Instituto Nacional de Desminagem admita que possam ser o dobro.
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