O Paraguai já foi o país mais avançado da América do Sul. Os missionários jesuítas estabeleceram ali uma espécie de comunismo cristão que inquietava os reis de Portugal e Espanha. Os índios guarani não foram mortos, nem escravizados e, durante 200 anos, sobreviveram como em nenhuma outra parte.
Uma guerra entre 1865 e 1870, em que o Paraguai enfrentou simultaneamente Brasil, Argentina e Uruguai, custou porém a perda de dois terços da população masculina e parou o país décadas a fio. Hoje, quando os governos do Partido Colorado vão completar 60 anos ininterruptos de poder, incluindo os 35 de ditadura militar do general Alferedo Stroessner, as forças da oposição, maioritariamente de esquerda, apostam num ex-bispo para acabar com o reinado do Colorado. Stroessner, durante 15 anos refugiado no Brasil, morreu em 2006. E o petróleo da Venezuela e a energia da Bolívia criaram novos senhores apostados em socializar o continente.
Se pudéssemos resumir a política a um tabuleiro de xadrez, dir-se-ia que no Paraguai se prepara, para a Primavera de 2008, quando em condições normais se realizarão as eleições presidenciais, um xeque de bispo ao poder. O bispo é Fernando Lugo, de 55 anos, de facto já sem diocese desde Setembro de 2004. Foi afastado da actividade episcopal por decisão do Papa João Paulo II, sem que se tenham divulgado quaisquer motivos.
Posteriormente, este licenciado em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Assunção, capital do Paraguai, dirigiu o Colégio Secundário da sua ordem, o Verbo Divino, também em Assunção, mas no passado dia de Natal renunciou ao sacerdócio tal como lhe era imposto pela lei para fazer política activa.
A constituição, chamada no Paraguai de Carta Magna, não permite a candidatura a cargos políticos de ministros de qualquer religião e Fernando Lugo já está na corrida para presidente da república. E adiante-se que, de acordo com as sondagens do início deste mês, vai mesmo no primeiro lugar com 24,9% das intenções de voto, seguido do presidente em exercício Nicanor Duarte Frutos, que já desistiu de mudar a lei para se poder recandidatar, com 21,8%,e de um líder oposicionista Lino Oviedo, detido há 28 meses numa prisão militar com 18,1%. Muito mais atrás, em quinto lugar, aparece o actual vice-presidente Luís Castiglioni, que será provavelmente o candidato oficial do Partido Colorado com 9,4%.
Para suportar a candidatura, com carácter de frente e unidade ampla, Lugo já tem duas organizações partidárias. A primeira foi criada organicamente no passado dia 17 e denomina-se Movimento Popular Tekojoja, sendo esta última uma palavra em guarani que significa ‘igualdade’. Junta militantes de vários sectores sociais, indígenas, camponeses, sindicalistas e professores com forte matriz de esquerda. A segunda é o Movimento Paraguay Posible, anunciado na quarta-feira num hotel de luxo de Assunção, que reúne pessoas mais moderadas e é dirigida por um irmão do ex-bispo, Pompeyo. Este afirma peremptoriamente que não se trata de pessoas de esquerda. “Somos de centro e um pouco à direita”, explicou com marca de óbvio, até porque um dos promotores é o próprio responsável do Ceowne Plaza Hotel, onde decorreu a conferência de Imprensa.
De volta ao xadrez, vale a pena falar da peça, do tabuleiro e do jogo. Do bispo, bastará dizer que nasceu numa família humilde que hoje reside em Encarnación, 370 km ao sul da capital, e sofreu violentas perseguições políticas. Fernando Lugo iniciou o noviciado nos missionários do Verbo Divino com 19 anos já depois de ser estudante em tempos de grande agitação na década de 60. E, se começou tarde a vida sacerdotal, acabou-a cedo. Os bispos só são eméritos aos 75 anos, mas ele foi afastado da diocese aos 53. Nos dez anos que dirigiu a Sé de San Pedro, distingui-se pelo apoio aos mais pobres, e terá incitado à ocupação de terras. Foi por outro lado negligente com o rapto e assassínio da filha de um ex-presidente da república, Raul Cubas.
O tabuleiro é o Paraguai, país com 406 mil km2, quatro vezes e meia o tamanho de Portugal, mas apenas seis milhões de habitantes. Parece semidesértico, quando Portugal já é pouco habitado. Quanto ao jogo, parece que o rei do seu lado será Hugo Chavez, com os cofres cheios de dinheiro por causa do petróleo que tem para dar e vender.
Enfim, só daqui a uns 15 meses se saberá se este bispo dá ou não xeque-mate aos 60 anos de governos do Partido Colorado. Quanto custa o facto de este bispo passar a jogar sob condenação do Vaticano e o que vale a força de inércia do poder Colorado, que passou para ditadura e saiu dela ficando sempre com as rédeas do Paraguai. Para grande azar, valha a verdade, do próprio país.
PAI FOI PRESO 20 VEZES
Fernando Lugo, que no dia de Natal renunciou ao sacerdócio para fazer política – a constituição do Paruguai não permite candidatura a cargos políticos aos ministros de qualquer religião –, nasceu numa família humilde de San Pedro del Paraná a 30 de Maio de 1951. Antes de ser padre católico, conheceu de perto a repressão da ditadura militar de Stroessner. O seu pai foi preso 20 vezes e a família teve de exilar-se. Entrou para os Missionários do Verbo Divino aos 19 anos, fez votos aos 26 e tornou-se padre aos 27. Desde 1994 a 2004, foi bispo de San Pedro, considerada a região mais pobre do país, a 600 km da sua terra natal.
O lançamento de Fernando Lugo para as presidenciais no Paraguai, que se realizarão na Primavera de 2008, aposta no prolongar da viragem à esquerda que conheceu forte guinada em 2006. Após os triunfos de Michele Bachelet (Chile) e Evo Morales (Bolívia) em finais de 2005, este ano teve oito eleições na América Latina, com a esquerda a somar seis vitórias, com Lula (Brasil), Chavez (Venezuela), Daniel Ortega (Nicarágua), Rafael Correia (Equador), Oscar Arias (Costa Rica) e Alan Garcia (Peru). Só o México, com dúvidas, e a Colômbia escaparam à avassaladora vaga da esquerda em vários tons.
EXEMPLO DE ÊXITO VEM DA ARGENTINA
O papel político do clero católico na América Latina tem seguido os alcatruzes da vida, mas conheceu sem dúvida um momento de vitória em 29 de Outubro deste ano, quando o resultado de um referendo no estado argentino de Misiones, fronteiriço com o Paraguai, acabou com os propósitos de reeleição do governador Carlos Rovira, apoiado pessoalmente pelo presidente Nestor Kirchner. Durante a fase final do Mundial de Futebol, a assembleia legislativa de Misiones mudou a lei constituinte de forma a acabar com os limites de mandatos. O bispo de Puerto Iguazú, Joaquín Rita, que fizera 75 anos em Maio e esperava substituição, resolveu, contudo, encabeçar um movimento pela ‘não’ alteração da lei e arrasou as hostes do poder com uma vitória por 56,5% a 43,5% no referendo. O bispo já foi substituído por um eclesiástico mais conservador alinhado pelo Opus Dei, mas o governador Rivora ficou sem hipóteses de poder tentar a sua própria reeleição.
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