Na escola chamavam-lhe Geraldinho, em casa era ‘Paial de Pinda’ e agora apelidam-no de ‘Picolé de Chuchu’. Esta designação significa que a imagem pública de Geraldo Alckmin, rival de Lula da Silva nas presidenciais de 1 de Outubro, é a de alguém apagado e cinzento, sem carisma.
É católico e conservador e assume-se como alternativa liberal a Lula. Os empresários apreciam a sua capacidade de gestão e o seu realismo político. Mas, apesar de ter vencido, a pulso, a batalha no PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), só à custa de uma profunda cisão interna é que conseguiu tornar-se candidato oficial do partido.
O seu perfil discreto não cativa. E as queixas internas não são mais que o reflexo da auscultação do país. É que, apesar de ter governado durante seis anos o estado mais importante do Brasil, São Paulo, e de antes disso ter sido vice-governador de outros seis, é um quase desconhecido para boa parte do eleitorado. As cúpulas do PSDB apostavam em José Serra, mas a pressão das bases, bem orquestrada por Alckmin, acabou por triunfar. A derrota de Serra em 2002 frente ao mesmo Lula não pesou na balança, diz-se, mas a verdade é que ficou impossibilitado de tentar a desforra.
As sondagens persistem em colocar Alckmin cerca de 20% abaixo de Lula nas intenções de voto, pelo que tudo indica a repetição da ‘fatalidade’ dos governadores de São Paulo. É que todos os seus antecessores no governo estadual tentaram, e perderam, a corrida presidencial. Paulo Malouf perdeu em 1985 e de novo em 1989; Orestes Quércia teve a mesma sorte em 1994 e Mario Covas, o homem de que Alckmin foi ‘vice’ em São Paulo e que era considerado o herdeiro de Fernando Henrique Cardoso, morreu de cancro antes de poder tentar a sua sorte, em 2001. Foi nessa altura que Alckmin tomou as rédeas do governo estadual e prosseguiu, com sucesso, os projectos do antecessor em campos que vão das obras públicas a projectos de solidariedade social.
A SOMBRA DO PCC
A competência que lhe é reconhecida e a obra feita não estão, no entanto, isentas de mácula. A sua taxa de popularidade estadual chegou aos 68%, mas os críticos denunciam a forma como reagiu, ou não, aos sucessivos actos de violência desencadeados desde 2001 pela organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Em Maio deste ano, cerca de um mês depois de ter legado a Cláudio Lembo o governo estadual para se dedicar às presidenciais, o PCC semeou uma vez mais o caos nas prisões ‘paulistas’ e levou a guerra às ruas de várias cidades. Alckmin tentou esquivar-se a responsabilidades, mas Lembo forçou-o a explicar-se e o ‘chuchu’ imputou as responsabilidades ao poder central.
CONCILIADOR
Os apoiantes da sua candidatura querem vê-lo mais aguerrido nos ataques a Lula, mas isso não está no seu carácter e ele assume-o. Em resposta aos que querem ‘sangue’ contou uma história. “Quando era candidato em Pindamonhangaba havia um tipo chamado Ditão que ficava na frente dos palanques gritando: ‘bate, doutor, bate’. Penso que há muitos ‘Ditões’ nesta campanha.”
O horror de conflitos e a tendência para a conciliação são traços de personalidade que manifestou cedo. José Luís de Castro, antigo colega de faculdade, lembra uma história lapidar. “Íamos de carro para a faculdade e, como de costume, ia connosco um amigo, o Betoni. Um dia eu e Betoni começámos a discutir por causa da política. Alckmin parou o carro e disse: ‘Se querem bater-se vão prá rua’. Nós descemos, discutimos e trocámos até uns empurrões. Depois entrámos no carro e seguimos para a faculdade.”
Lula pode, pois, estar descansado que do candidato da Direita não sofrerá golpes baixos.
O MÉDICO DE SÃO PAULO
Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho nasceu a 7 de Novembro (1952) em Pindamonhangaba, São Paulo, localidade onde em 1972 conquistou o seu primeiro cargo público, como vereador. Fez a formação primária no Externato São José, dirigido por religiosas alemãs que impunham regras disciplinares rígidas.
É formado em Medicina e especialista em anestesiologia. Iniciou a carreira política aos 19 anos, filiando-se no MDB. Em 1994 foi eleito vice-governador de São Paulo e em 2001, após a morte do governador, Mário Covas, ocupou o seu cargo. Abdicou em Março para se candidatar à presidência.
INSPIRADO PELO OPUS DEI
Acusam-no de ser conservador e de pertencer ao Opus Dei. Ele nega. Contra a primeira afirmação apresenta, por exemplo, o seu apoio às uniões civis de homossexuais. Mas quanto à segunda os indícios de pelo menos uma profunda simpatia pela ‘Obra’ abundam. Escolheu, por exemplo, como livro de referência ‘Caminho’, de Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei. Para além disso, a revista ‘Época’ descreveu em pormenor as reuniões de formação que manteve regularmente com um numerário da organização. Um dos ensinamentos de Escrivá que mais aprecia é o mandamento: ‘Habitua-te a dizer que não’. Talvez por isso ele negue.
MAU DE BOLA MAS BOM NO XADREZ
Quando estudava no Externato São José, uma escola chefiada por religiosas alemãs, o pequeno Geraldo era o Geraldinho, mas em casa era conhecido como ‘Paial de Pinda’.
O nome foi culpa da irmã mais nova, Mimi, que criou a designação ao tentar chamar-lhe ‘palhacinho’. Ainda criança perdeu a mãe e reforçou com isso os traços da personalidade reservada que herdou do pai. A infância foi pobre, mas feliz. Restam dela poucas imagens, porque, como explicou Geraldo Alckmin, “a família era humilde e nunca teve máquina fotográfica”. Da escola lembra as árvores de fruto, “as mangueiras” e “o futebol no campinho”.
“Era ruim de bola, mas sempre gostei de futebol”, recorda, com gosto: “Era bom no xadrez, mas isso foi depois, na faculdade.” Uma característica que revelou cedo foi o prazer de contar histórias e usa hoje esse dote no esforço necessário de tentar captar votos. No xadrez político tem sabido vencer, até agora, mas a história das presidenciais parece ser outra.
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