Peritos da Conferência de Munique não estão certos de que a destruição da ordem internacional seja substituída por políticas que aumentem a segurança, a prosperidade e a liberdade das pessoas.
Peritos da Conferência de Segurança de Munique (MSC), que decorre entre sexta-feira e domingo, recomendaram à Europa uma aposta rápida em áreas como a defesa aérea por estar "criticamente dependente" dos Estados Unidos.
"A era em que a Europa podia confiar nos Estados Unidos como um garante de segurança inquestionável terminou. Os líderes europeus devem aceitar esta realidade e agir em conformidade", justificaram os peritos no relatório de segurança da MSC.
Intitulado "Sob Destruição", o documento divulgado esta semana constitui o ponto de partida das discussões na conferência anual na cidade alemã entre líderes europeus e americanos.
O que está a ser destruído, segundo os peritos, é a ordem internacional de que os Estados Unidos foram um dos principais arquitetos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
O responsável pela "demolição" é Donald Trump, que tem seguidores, e a "obra" está em curso desde que iniciou o segundo mandato presidencial, em 20 de janeiro de 2025, depois da primeira experiência na Casa Branca (2017-2021).
Para descrever a ação do magnata ligado ao imobiliário, os peritos recorreram a termos como "golpes de marreta", "escavadoras, bolas de demolição e motosserra", uma ferramenta popularizada pelo Presidente argentino, Javier Milei, aliado de Trump.
A capa do relatório e o vídeo de promoção da conferência exibem um elefante e, no lançamento da conferência, os promotores justificaram que decidiram abordar diretamente o "elefante na sala".
Os Estados Unidos, sob a presidência do líder dos republicanos, o partido do elefante, "desrespeitam algumas das normas mais básicas do sistema pós-1945", como a integridade territorial e a proibição da ameaça ou do uso da força, denunciaram.
Exemplificaram com a insistência de Trump em adquirir a Gronelândia ou o uso de força contra alvos no Iraque, Irão, Nigéria, Somália, Síria, Venezuela e Iémen.
Tudo isto durante o primeiro ano de mandato, assinalaram.
No relatório, usaram expressões como "ansiedade de abandono" ou "a Europa entre a negação e a aceitação" para descrever um ano de alguma desorientação europeia - e até mesmo global - na forma de lidar com a América de Trump.
"Os líderes europeus evitaram, durante muito tempo, críticas abertas às políticas norte-americanas. Em vez disso, seguiram uma estratégia dual: lutar para manter Washington envolvido a quase qualquer custo, enquanto se preparam cautelosamente para uma maior autonomia", afirmaram.
No caso da Ucrânia, referiram que a "coligação dos voluntários" de mais de 30 parceiros europeus assumiu a responsabilidade de coordenar a ajuda militar e financeira, e de preparar garantias de segurança para o pós-cessar-fogo.
Mas tais esforços "também expuseram a fraqueza estratégica duradoura da Europa: uma forte dependência da liderança dos Estados Unidos e a falta de uma visão independente e coerente para gerir a Rússia e moldar uma paz duradoura na Ucrânia".
Para os autores do relatório, a abordagem de Washington à segurança europeia "é agora vista como instável, oscilando entre garantias, condicionalidades e coerção", pelo que a Europa tenta não hostilizar em demasia enquanto se prepara".
"A longo prazo, isto exigirá não só aumentos sustentados nos gastos de defesa, mas também um acordo rápido sobre prioridades de capacidades partilhadas", consideraram.
Destacaram como áreas mais críticas, por mais dependentes dos Estados Unidos, as da defesa aérea, de mísseis a drones, ou ainda de transporte estratégico, informações e capacidades cibernéticas.
Defenderam ainda que os governos europeus devem reforçar a preparação civil e desenvolver medidas coordenadas para "detetar, combater e dissuadir proativamente a campanha híbrida" da Rússia.
Na região do Indo-Pacífico, a "pax americana" também tem estado em causa, com Trump a exigir aos aliados tradicionais mais gastos em defesa e a usar as tarifas aduaneiras como arma de coerção.
"A China é já o centro de gravidade económico da região", afirmaram os peritos da MSC.
Os autores referiram que muitos intervenientes regionais, como o Japão, a Coreia do Sul ou Taiwan, "responderam a esta mudança de poder e ao agravamento do cenário de segurança" intensificando os próprios esforços de defesa.
Outra consequência da "política de demolição" é o fim das regras que estiveram na base da criação da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A administração Trump argumentou que o sistema multilateral permitiu que parceiros comerciais "se aproveitassem" e que rivais, especialmente a China, "utilizassem práticas desleais para minar a base industrial norte-americana".
Como resultado, Washington impôs tarifas sobre quase todos os parceiros comerciais, incluindo aliados próximos, para forçar a renegociação de acordos bilaterais sob termos mais favoráveis.
"A utilização da coerção económica --- através de ameaças de acesso ao mercado e sanções financeiras --- tornou-se o principal instrumento da política externa económica norte-americana", afirmaram os peritos.
Destacaram também que os cortes orçamentais no apoio norte-americano ao desenvolvimento estão já a afetar populações em muitos países de baixo e médio rendimento.
"A incapacidade de responder a desastres e à pobreza extrema nos países do Sul Global alimenta a instabilidade política e os fluxos migratórios descontrolados", alertaram.
Os peritos da Conferência de Munique não estão certos de que a destruição da ordem internacional seja substituída por políticas que aumentem a segurança, a prosperidade e a liberdade das pessoas.
Receiam mesmo uma nova ordem com base no mundo dos negócios, dos interesses privados e em regiões dominadas por potências regionais, em vez de regras e normas internacionais.
"Ironicamente, este seria um mundo que privilegia os ricos e poderosos, e não aqueles que depositaram esperanças na política de demolição", advertiram.
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