Mais de 725 pessoas morreram por falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias, desde janeiro.
Os profissionais de saúde moçambicanos anunciaram a prorrogação da greve por novo período de 30 dias a partir de segunda-feira, relatando que mais de 725 pessoas morreram por falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias, desde janeiro.
"Apesar das sucessivas manifestações públicas e apelos formais ao diálogo, o Governo continua a adotar uma postura de confronto e braço de ferro, ao invés de assumir uma posição responsável e orientada à resolução dos problemas estruturais que afetam o setor nacional de saúde", disse em conferência de imprensa o presidente da Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), em Maputo.
Segundo Anselmo Muchave, a extensão da greve dos profissionais de saúde, iniciada em 16 de janeiro, em reivindicação do pagamento completo do 13.º salário de 2025 - contra os 40% aprovados pelo Governo a pagar até fevereiro - e melhores condições de trabalho no setor, resulta da ausência de um diálogo "sério, transparente e produtivo" com o Governo.
"O diálogo, na prática, não tem existido, limitando-se em declarações sem efeitos concretos. Os profissionais de saúde continuarão firmes na sua posição, diante da falta de respostas claras e medidas concretas, mantendo-se de braços cruzados como forma legítima de reivindicação ao abrigo dos direitos constitucionais consagrados pela lei", explicou.
Segundo o responsável, durante o protesto, denominado "greve de braços cruzados", os centros de saúde continuam a funcionar em condições extremamente precárias, com falta recorrente de medicamentos essenciais, materiais médicos cirúrgicos insuficientes e condições inadequadas para a prestação de cuidados dignos à população.
"Dizer que nessa luta, nesse mês, lamentamos nós, profissionais de saúde, a perda de mais de 725 moçambicanos por falta de atendimento nas unidades sanitárias, falta de alimentação, transferências, falta de medicamentos e material médico cirúrgico. E por isso dizemos, a nossa luta não vai parar", frisou.
Citando o recente anúncio de um concurso fechado de compra de medicamentos avaliado em 465 milhões de dólares (391,9 milhões de euros), Anselmo Muchave assinalou que "isso demonstra que Moçambique até hoje não tem medicamentos para o setor nacional de saúde", assistindo-se diariamente ao aumento de mortes evitáveis nas unidades sanitárias, "consequência de degradação contínua do Sistema Nacional de Saúde".
"O declínio do Sistema Nacional de Saúde é visível, é preocupante e não pode continuar a ser ignorado. A Apsusme reitera que esta luta não se limita a interesses laborais, trata-se de defesa da dignidade profissional e, sobretudo, da defesa de um sistema de saúde que responda às necessidades do povo moçambicano", acrescentou.
O presidente daquela associação, que abrange cerca de 65.000 profissionais de saúde de diferentes departamentos, reafirmou a abertura para um diálogo "sério, responsável e orientado a resultados concretos", contudo, reiterou também que enquanto persistir a ausência de compromissos reais e soluções estruturais com o Governo, "a greve continuará".
Na terça-feira, o Governo moçambicano criticou os profissionais de saúde em greve pelo pagamento total do 13.º salário, referindo que, ao não atender doentes, estão a "castigar os seus concidadãos" e pedindo diálogo face à paralisação que "traz prejuízos".
Em 26 de janeiro, a Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) afirmou que a greve em curso é para manter, apesar das inundações em mais de 200 unidades sanitárias, acusando o Governo de ameaças para a retoma das atividades.
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