page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Termina hoje regime europeu para detetar abuso sexual de crianças online

Todas as plataformas tecnológicas ficam proibidas de rastrear e denunciar imagens ou conversas com este tipo de conteúdo.

03 de abril de 2026 às 07:31

O regime europeu que permite detetar abuso sexual de crianças 'online' termina esta sexta-feira, ficando todas as plataformas tecnológicas proibidas de rastrear e denunciar imagens ou conversas com este tipo de conteúdo, "uma página negra" para os direitos das crianças.

A partir desta sexta-feira, os prestadores de serviços online deixam de poder rastrear e reportar material de abuso sexual infantil, no âmbito de um regime temporário enquanto não é aprovado um quadro legislativo permanente, devido ao facto de Conselho da UE e o Parlamento Europeu não terem chegado a acordo sobre este mecanismo legal da União Europeia.

Estas regras provisórias, em vigor desde 2021 e que expiram esta sexta-feira, permitiam que, em casos específicos de deteção de conteúdos com abusos sexuais sobre crianças, não se aplicasse temporariamente a chamada diretiva 'ePrivacy', que regula a privacidade nas comunicações eletrónicas.

Em declarações à agência Lusa, o fundador do projeto MiudosSegurosNa.Net, Tito Morais, defendeu que "hoje assinala-se uma página negra nos direitos da criança a nível europeu".

"Infelizmente, essa página negra tem a assinatura do Parlamento Europeu, da Comissão Europeia e do Conselho de Ministros, o que é lamentável", considerou.

Como consequência, Tito Morais disse que é expectável "um decréscimo brutal na ordem dos 80% a 90% das denúncias deste tipo de material, o que vai fazer com que haja uma muito maior circulação deste material neste tipo de plataformas".

"Acresce também que, havendo maior circulação deste tipo de material, havendo a ausência de regulamentar a este nível, vai dar a quem partilha este tipo de conteúdo um sentimento de impunidade", alertou, acrescentando que haverá, por isso, mais partilhas e mais produção deste tipo de conteúdo, ou seja, uma "maior vitimização de crianças e jovens".

Para Tito Morais, chegou-se a este desfecho por culpa do Parlamento Europeu, ao "querer introduzir alterações àquilo que já era a derrogação atualmente em vigor", o que teve o desacordo da Comissão Europeia e do Conselho de Ministros.

Recusa, no entanto, que tenha prevalecido o direito à privacidade em detrimento do direito das crianças, sublinhando que "uma coisa não implica a outra".

Acrescenta que "há uma grande confusão entre achar que este rastreio constitui uma violação da privacidade, quando na realidade não é o caso", reafirmando que, a ser, os antivírus também não seriam permitidos ou as mensagens de spam.

"Nós hoje admitimos perfeitamente que as plataformas possam rastrear as comunicações para detetar vírus, 'spyware' e tudo mais. As plataformas vão continuar a fazê-lo. Portanto, eu tenho dificuldade em perceber como é que se pode argumentar que detetar material de abuso sexual de crianças e jovens é uma violação da privacidade, mas detetar vírus e spyware já não é. As formas de fazer isso são muito semelhantes", criticou.

O responsável adiantou que está em discussão um regulamento relativamente ao abuso sexual de crianças e jovens, que inclui a realidade online, mas "que também já se anda a arrastar há não sei quanto tempo".

"Vai continuar a haver um vazio legislativo para o qual as próprias plataformas alertaram, por o qual as ONG de proteção e promoção dos direitos das crianças têm vindo a alertar nos últimos anos e não vamos baixar os braços, vamos continuar a fazer pressão", garantiu, lembrando uma declaração conjunta subscrita por 247 organizações internacionais a apelar para uma solução.

De acordo com Tito Morais, mesmo com o regime em vigor até esta sexta-feira havia registo de "um aumento exponencial" de imagens de abuso sexual de crianças, um fenómeno ajudado pela Inteligência Artificial, e advertiu que haverá "um crescimento ainda maior".

"O quadro é mesmo muito negro. Eu tenho muita dificuldade em perceber como é que chegamos aqui e como é que os colegiados conseguem dormir à noite, sobretudo aqueles que têm filhos, crianças pequenas. Acho mesmo lamentável termos deixado chegar a esta situação", criticou.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Boa Tarde

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8