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Carlos Rodrigues

Carlos Rodrigues

Diretor

"A assembleia popular não é democracia. De braço no ar não há democracia"

23 de outubro de 2026 às 00:32

A minha geração já não viveu ou tem uma vaga memória do PREC. Conhecemo-lo pelos livros, pelos arquivos de jornais e pelo que nos contaram os mais velhos. Aprendemos que houve plenários a decidir saneamentos, ocupações aprovadas por aclamação, deputados cercados em São Bento por quem achava que a ‘vontade do povo’ se media aos gritos numa rua. Quem é mais novo do que eu sabe ainda menos. Convém lembrar-lhes.

Nestes dias tem havido uma insidiosa tentativa de normalização das ‘assembleias populares’. A assembleia popular parece democracia porque se vota. Mas não é. Vota quem lá está, quem aguenta mais horas, quem grita mais alto. Não há voto secreto, nem proteção para a minoria. Há pressão de grupo, e há quem sabe manipular a multidão. Foi assim que, em 1975, uns poucos falaram em nome de milhões, que nunca lhes deram esse mandato. O 25 de Novembro fixou a democracia, a verdadeira, que hoje vivemos.

Vejamos: o problema da habitação é real. Mas a resposta não pode ser a ideia de que uma praça cheia vale mais do que um Parlamento eleito. A democracia não é a soma dos braços no ar. É voto livre, secreto e universal. É o respeito por quem não estava na praça. Temos o dever, até nas redações, de explicar o que foi aquele tempo a quem não o viveu. A democracia é um cristal da Boémia. Estilhaça-se mais depressa do que pensamos.

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