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António Silva Ribeiro

António Silva Ribeiro

Almirante ex-CEMGFA

O Ordinariato Castrense

29 de maio de 2026 às 00:30

As Forças Armadas são um instrumento fundamental da soberania e da paz, que exige dos seus membros entrega total, incluindo, se necessário, o sacrifício da própria vida. Por isso, a dimensão espiritual e moral do militar assume uma importância que ultrapassa o plano pessoal e projeta-se na coesão das unidades, na resiliência perante a adversidade e na fidelidade aos valores que dão sentido à missão.

É neste quadro que se insere o Ordinariato Castrense, enquanto estrutura eclesial responsável pela assistência religiosa nas Forças Armadas, que contribui para fortalecer a consciência ética, o equilíbrio interior e o compromisso moral indispensáveis ao cumprimento da missão militar.

Embora a presença de capelães militares remonte à fundação de Portugal, pois a fé acompanhou sempre o os nossos soldados, o Ordinariato Castrense só foi instituído canonicamente em 29 de maio de 1966. A sua reorganização foi feita com base na Concordata de 2004 e no Acordo de 2009 entre Portugal e a Santa Sé. Trata-se de uma diocese pessoal, com autonomia canónica, integrada no quadro institucional do Estado.

Dirigido por um bispo castrense e apoiado por capelães da Marinha, do Exército e da Força Aérea, o Ordinariato Castrense atua em unidades, escolas, navios, hospitais e missões internacionais, assegurando o apoio espiritual e moral aos militares e às suas famílias, promovendo a liberdade religiosa e os valores humanos.

Nas últimas décadas, a atuação dos capelães tem sido crucial em contextos difíceis, como as missões no Afeganistão, nos Balcãs ou na África Central, onde a fé se revelou fonte de consolo, coragem e discernimento. A oração, o silêncio e a palavra do capelão são instrumentos importantes para manter o ânimo e a coesão dos efetivos em ambientes de elevado stress emocional.

O Ordinariato Castrense reforça ainda a ética militar, promovendo valores como a dignidade humana, a justiça, o serviço e a compaixão. Ajuda os militares a refletir sobre o uso legítimo da força, formando consciências críticas e comprometidas com os direitos humanos, mesmo em cenários de complexidade e ambiguidade.

Enfrenta, contudo, desafios importantes, como a secularização, o pluralismo religioso e novas formas de sofrimento psíquico. Por isso, a formação dos capelães deve incluir competências psicológicas e sensibilidade intercultural. Importa também reforçar o diálogo inter-religioso, a articulação com os serviços sociais e a valorização do património espiritual das Forças Armadas. É essencial reconhecer o seu valor estratégico e assegurar os meios humanos e materiais para o desempenho da missão.

Num tempo de incertezas e ameaças múltiplas, a fortaleza interior dos militares, alimentada pela espiritualidade e pela ética, continua a ser decisiva. Por isso, o Ordinariato Castrense, que completa hoje 60 anos, constitui um elemento essencial na arquitetura moral das Forças Armadas.

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Nas últimas décadas, a atuação dos capelães tem sido crucial em contextos difíceis, como as missões no Afeganistão, nos Balcãs ou na África Central.

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