Ao contrário de outros escritores das gerações mais próximas, anteriores e posteriores, António Lobo Antunes não escreveu para nos dar lições de moral, de história ou de bom comportamento (ele foi escritor por amor aos seus livros e à literatura). E, no entanto, é impossível fazer uma história da segunda metade do século XX e da primeira década do século XXI sem ler os seus romances. Não porque ele quisesse ser um historiador – mas porque o universo dos seus romances (anteriores à autoficção e ao analfabetismo atuais) é um retrato perfeito e minucioso desse mundo. Não são romances didáticos ou explicativos; são uma verdadeira polifonia, um confronto entre o irrisório e o enternecimento, entre o país e a sua negação, mas sempre uma explosão de originalidade e grande classe. Ironista com sentimento de culpa, Lobo Antunes é um autor sofisticado e cultíssimo – ele sabia que só conseguiria esse arranjo sinfónico, como são os seus livros, com a prática da solidão e da meticulosa paciência com que os escrevia (à mão, sempre à mão, em folhas brancas), assumindo a corajosa associação entre a sua prosa e a linguagem da poesia, que ele amava. Durante muito tempo, a sua melancolia irá perseguir-nos como um farol, uma ameaça e uma bênção. O talento, porém, era só seu, intransmissível como um relâmpago.
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