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António Silva Ribeiro

António Silva Ribeiro

Almirante ex-CEMGFA

A Gronelândia e a NATO

10 de janeiro de 2026 às 00:30

Se os EUA passarem da pressão diplomática ao uso da força para obter o controlo da Gronelândia, a NATO enfrentará uma crise grave que colocará em risco a sua própria essência. A Aliança foi criada para dissuadir agressões externas e garantir a defesa coletiva. A sua solidez exige que as divergências entre aliados sejam resolvidas por vias pacíficas e no respeito pela Carta da ONU. É essa regra que tem permitido manter a paz entre a Grécia e a Turquia. Se os EUA, que são a trave-mestra da NATO, coagirem a Dinamarca, a crise tornar-se-á existencial porque, sem confiança mútua, colapsam o comando integrado, a partilha de informação sensível e o planeamento conjunto. O resultado seria a divisão interna, a erosão da credibilidade dissuasora e o incentivo para a Rússia e a China desafiarem o Ocidente. Há ainda a dimensão política e identitária da Gronelândia. Ignorar a vontade do seu povo retiraria legitimidade a qualquer imposição externa e alimentaria uma resistência prolongada, com ganhos limitados e custos elevados para os EUA, resultantes da conjugação de dano reputacional, tensão duradoura com aliados e possível instabilidade política e social interna. Para justificar a necessidade de controlar a Gronelândia, Washington invoca a crescente presença russa e chinesa no Ártico. Pesam também o interesse nos minerais estratégicos e o enquadramento jurídico da presença americana. O Acordo de Defesa de 1951 permitiu o estabelecimento de áreas de defesa dos EUA naquele território. Em 2004, a autorização foi restringida à base de Pituffik e introduzida uma cláusula de consulta prévia à Dinamarca e ao Governo autónomo da Gronelândia para outros empenhamentos. Se o modelo de cooperação atual não responde plenamente às exigências de segurança nem às suas necessidades económicas dos EUA, a resposta não pode ser a coação, que destruiria a confiança entre os aliados e corroeria o próprio fundamento da NATO. A saída plausível para a tensão entre Washington e Copenhaga passa por consulta séria, mediação e desescalada. Para a Europa, é mais um argumento a favor do reforço consistente de capacidades militares próprias. Para Portugal, é um alerta sobre os Açores, onde devemos aumentar os meios navais e aéreos para reforçar a vigilância, a proteção de infraestruturas críticas e a capacidade de dissuasão, face ao aumento da presença russa e chinesa no Atlântico. Assim, reduzem-se vulnerabilidades e amplia-se a margem de manobra. A Gronelândia será um teste à defesa coletiva, porque o uso da força entre aliados é a negação da própria NATO. 

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