Esta é uma história muito antiga mas que ainda hoje se conta lá para os lados de Olhão. Ninguém sabe muito bem como e onde é que começou e, muito menos, porquê, mas a verdade é que se trata ainda de uma lenda viva que, desde 2008, faz até parte do arquivo português de lendas da Universidade do Algarve.
É que por ali, muitas pessoas, sobretudo nos velhinhos e soalheiros bairros de pescadores, ainda se lembram bem do tempo em que havia medo de sair à rua por causa do ‘menino dos olhos grandes’. À primeira vista, era um menino como todos os outros, exceção feita ao facto de estar sempre sozinho na rua. Aparecia por volta da meia- -noite e sentava-se num canto de uma rua com um cesto de verga no braço. O cesto até nem era a coisa mais estranha, pois naquele tempo ainda não se usavam sacos de plástico a torto e a direito e, por isso, quem queria levar os seus bens de um lado para o outro tinha mesmo de usar um cesto. Só que aquele parecia ser um fardo demasiado pesado…
Certa vez, uma mulher, farta de ver por ali o ‘cachopito’ perdido, foi ao pé dele para o ver melhor, para saber quem era e o que fazia sozinho na rua àquela hora. Ao aproximar-se, viu que ele era até pequenino mas tinha uns olhos muito, muito grandes! Tentou pegar-lhe mas não conseguiu, porque ele era muito pesado. Achou estranho, mas não pôde fazer mais nada: o menino não saía do lugar!
Então, a história foi passando de boca em boca e vários até fizeram apostas para ver quem conseguia tirar o menino daquele castigo. Mas ninguém conseguia. Até um grupo de marinheiros desistiu ao fim de várias tentativas.
Por causa disso, as pessoas começaram a ter medo de sair à rua depois de o sol se pôr. Diziam que o menino tinha um feitiço, que os seus olhos metiam medo. Havia até quem jurasse que o menino, só de olhar, podia matar. E começaram a fechar-se em casa.
Cada vez mais sozinho, por vezes o menino chorava e os pes-cadores, quando vinham do mar, abraçavam-no com pena. Quando um tentava dar-lhe colo, ele começava a pesar muito, e o homem, mesmo com toda a boa vontade do Mundo, deixava-o cair no solo. Quando caía, a terra estremecia por um segundo e o menino desaparecia num estrondo. Então, as pessoas benziam-se, prometiam ir mais à missa, arrependiam-se dos seus pecados. De nada lhes valia. Mais cedo ou mais tarde, ele acabava sempre por voltar...
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