‘Finalmente’, era a palavra certa. Desde que chegara a Coimbra, já tinha calcorreado quase todas as ruas da cidade em busca de quarto. Ou eram demasiado caros, ou demasiado longe ou cheiravam a bafio e xixi de gato.
Ali, pelo menos, estava entre amigos. Se é que podia referir- -se assim a quem acabara de conhecer nas primeiras aulas da faculdade. O precioso achado ficava numa vivenda cor de rosa dos anos 50 com um minúsculo quintal. No piso de cima moravam os senhorios, um casal de velhotes sorumbáticos. No de baixo, quatro raparigas.
Era tudo um bocado velho. As madeiras chiavam e por baixo dos canos da cozinha passeava uma família de baratas. O quarto era abafado e de noite tinha dificuldade em dormir. Talvez fosse apenas falta de hábito, até porque aquele tinha de servir. ‘O mais importante nas casas são as pessoas que lá vivem’, repetia para si própria.
Como em qualquer casa de estudantes, a galhofa e as conversas sobre rapazes eram o prato do dia. Todavia, havia qualquer coisa que teimava em incomodá-la.
Sempre que uma porta rangia ou que o chão estalava, as colegas avisavam que devia "ser culpa da Rosita". Todos os dias, colocavam um prato na mesa "para a Rosita" que , invariavelmente, ficava vazio.
Nos primeiros dias não se atreveu a perguntar quem era ‘Rosita’ nem o porquê daquelas conversas sem nexo. Mas um dia saltou-lhe a tampa.
– Mas quem diabo é essa Rosita?, – perguntou exasperada.
As outras entreolharam-se e rebentaram numa gargalhada . – Ai, ainda não sabes? Parece que nos esquecemos de um pequeno pormenor! – disse uma.
– Pois, então... contem lá! Sou toda ouvidos! – desafiou.
– Olha, não tem muito que saber: de acordo com a nossa querida senhoria, era a irmã, que antes vivia neste lado da casa e que se enforcou... olha, precisamente no teu quarto!
Engoliu em seco.
– Tretas! Não penses nisso. – afirmou uma das colegas, notando-lhe a apreensão.
Mas era impossível não pensar. Coincidência ou talvez não, começou a sentir um nó sempre que se deitava à noite. Um nó era pouco! Na verdade sentia-se prestes a sufocar, como se tivesse uma corda à volta da garganta. Sabia o que aquilo era. Sempre sentiu o que os outros não viam. E foi por isso que, dias depois, voltou a calcorrear, as ruas de Coimbra à procura de quarto.
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